POV Lianna
O hospital tinha um cheiro diferente na madrugada. Um cheiro mais cru. Mais honesto.
Sem perfume de gente passando, sem pressa nos corredores, sem sussurros de pacientes acordados. Era só o som das máquinas. Dos respiradores. Do meu próprio coração.
Meus passos ecoavam enquanto eu revisava o prontuário na prancheta. Turno da madrugada: as horas que sempre foram minhas. Quando todos dormiam e eu finalmente lembrava quem eu era: não “a ex-esposa de Zayden”, não “a irmã traída”, não “a doutora viúva”, não “a manchete”.
Apenas… cirurgiã.
Era a única identidade que ninguém podia tirar de mim.
Passei pela UTI, conferi a paciente do leito 02. Pressão estável. Boa resposta ao antibiótico. Fiz anotação.
Caminhei.
Cada quarto, cada passo, era uma camada de angústia sendo arrancada.
Até que cheguei ao quarto 407. Camille..
Ela estava sedada desde a convulsão. O médico plantonista anterior me disse que ela acordaria em algum momento da madrugada.
Eu respirei fundo, ajustei o jaleco, endireitei a prancheta, rituais que eu fazia sempre que precisava ficar fria.
Empurrei a porta com cuidado.
A luz estava baixa, iluminando apenas o suficiente para acompanhar o monitor cardíaco ao lado dela. Camille respirava devagar, com o peito subindo em ondas pequenas, quase infantis.
Por um breve segundo, ela pareceu só uma paciente. Não a mulher que destruiu meu casamento. Não a amante do meu ex-marido.
Não a meia-irmã que roubou o pouco de família que eu tinha.
Só… uma mulher vulnerável.
Eu me aproximei, conferi o soro, chequei o monitor, anotei as taxas. Estava tudo dentro do esperado.
— Você sempre volta aqui…
A voz baixa cortou o silêncio. Eu congelei. Camille estava acordada.
Os olhos dela se abriram devagar, ainda turvos, mas conscientes o suficiente para montar um sorriso fraco e venenoso.
— Sempre achei lindo esse seu senso de… responsabilidade. — disse ela, com a voz rouca, arranhada. — Mesmo depois de tudo, você ainda cuida de mim.
Respirei fundo.
Controle.
Frieza.
Distância.
Era tudo que eu precisava.
— Você é minha paciente. — respondi, neutra. — Só isso.
Camille riu. Um riso fraco, mas cheio de pontas afiadas.
— É claro que você diria isso.
Ela virou o rosto um pouco, analisando o quarto como se esperasse alguém.
— Zayden não está? — perguntou então, fazendo o drama da voz pequenininha.
— Não. — respondi. — Ele foi embora.
Os olhos dela brilharam. E não foi por fragilidade.
Foi triunfo.
— Ótimo. — murmurou. — Melhor assim. Ele sempre fica muito… nervoso quando te vê.
Eu ignorei. Me aproximei para checar o oxímetro.
Ela continuou:
— Deve ser difícil pra você, né? — disse, a voz ganhando força, ganhando cor, ganhando veneno. — Ver ele aqui. Ver ele me acompanhando. Cuidando de mim. Dormindo na poltrona ao lado da minha cama. Como marido faz. Como um homem… apaixonado faz.
Fechei os olhos um segundo.
Controle.
Frieza.
— Vamos revisar sua medicação. — respondi.
— Ah, Lianna… — ela forçou um suspiro. — Não tenta ser profissional comigo. Não funciona. Eu te conheço.
Eu a encarei.
— Descanse. — finalizei, fria. — O corpo se recupera. O ego… nem sempre.
Virei-me para ir embora, mas ela falou, com a voz carregada de dor e raiva:
— Ele te beijou, não é?
Eu parei. No meio do quarto. O monitor cardíaco dela acelerou um pouco.
— Eu ouvi as fofocas das enfermeiras. — disse, num sussurro venenoso. — Elas ouviram a discussão. Ouviram você gritar. Ouviram ele falando seu nome. E elas disseram que… — sua voz vacilou — …que ele te beijou.
Eu fechei os olhos. Maldito. Maldito Zayden.
Camille deu uma risada fraca.
— Dá pra sentir daqui. — murmurou — Ele ainda é seu. Ele ainda te quer. Ele nunca foi meu.
Minhas mãos tremeram.
Ela sorriu.
Triunfo manchado de humilhação.
— Eu sou só… uma substituta, não é?
Virei-me para ela devagar.
— Não. — respondi, com sinceridade fria. — Você não é uma substituta. Nunca foi.
Ela pareceu confusa por um instante.
Então eu concluí:
— Você foi a escolha dele. Não a minha. E eu não disputo homem com ninguém.
Dei um passo para trás, em direção à porta.
— Mas uma coisa você nunca deveria esquecer, Camille. — eu disse, a mão na maçaneta — Zayden pode até tentar te amar um dia… mas o coração dele sempre vai sangrar por mim. E isso, infelizmente, é tudo o que sobrou dele.
Ela engoliu seco, os olhos enchendo.
E antes que ela pudesse responder, completei:
— Boa noite.

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