POV LIANNA
Evitar Zayden era uma arte que eu vinha aperfeiçoando desde o dia que ele colocou os pés nesse hospital, ou melhor, desde que entrei correndo naquele consultório, vomitei verdades, tomei um beijo roubado, dei um tapa e saí quebrada por dentro. Ele voltou ao hospital hoje cedo, mas eu não. Simples assim.
A reunião das 10h? Pff. Passei longe.
Eu mandei uma mensagem curta para a coordenação, do tipo: “Estou ocupada com pacientes críticos. Priorizar consultas.”
Era verdade pela metade. Eu estava ocupada, sim.
Crítica, porém, era só a minha sanidade mental.
Passei a manhã inteira trancada no meu consultório, atendendo um caso atrás do outro, tentando manter minha cabeça tão cheia de trabalho que não sobrasse espaço para pensar em nada. Especialmente nele.
Mas claro… pensamentos são traças. Entram por qualquer fresta.
Cada paciente que entrava, cada prontuário que eu assinava, cada batimento acelerado que eu escutava com o estetoscópio, tudo ecoava o mesmo nome maldito na minha cabeça.
Zayden.
O hospital parecia respirar ele. Como se as paredes tivessem memórias. Como se o chão tivesse a pegada dele impressa. Como se o ar tivesse sido respirado primeiro pela boca dele.
Por volta das 14h, quando finalmente consegui uma pausa, já estava esgotada. Não fisicamente.
Mas emocionalmente.
Eu respirei fundo, soltei a prancheta e fui para o corredor encontrar os residentes para a ronda da tarde.
Eles já estavam reunidos, falando baixo, como sempre faziam antes de entrar nas alas. Assim que me viram, se endireitaram um pouco.
— Vamos — eu disse, firme.
E começamos.
A ronda da tarde era mais leve, mas mesmo assim longa. Pacientes pós-cirúrgicos, exames, evolução, ajustes de dieta, medicamentos, observações de risco.
No corredor, cada passo meu era mecânico e preciso.
“Paciente 412 — retirar dreno amanhã.”
“Paciente 409 — avaliar dor abdominal persistente.”
“Paciente 407 — verificar hemoglobina pós-transfusão.”
Eu era um relógio. Uma máquina. Talvez por isso o hospital me amasse. Ou me odiasse. Difícil saber.
Quando finalizei o último leito, olhei para o grupo:
— Podem ir. Amanhã vamos revisar os casos novos às sete. — falei.
A maioria saiu rapidamente, alguns acenaram com a cabeça. Mas um ficou para trás.
Arthur.
O residente mais carismático que eu já vi na vida.
Bonito, sorriso fácil, cabelo bagunçadamente calculado, olhos muito conscientes do próprio charme. E claro: uma queda óbvia por mim que ele nem tentava disfarçar.
Eu já estava acostumada. Era quase engraçado.
— Dra. Aslan… — ele chamou, aproximando-se devagar. — Eu… eu sei que já acabou, mas eu… fiquei com uma dúvida.
A hesitação dele era fofa. Mas não se engane: Arthur só fazia essa voz baixa de “inocente perdido” porque sabia que funcionava com metade das médicas do hospital.
Eu cruzei os braços.
— Qual?
Ele coçou a nuca, enfiou o crachá no bolso, tirou, colocou de volta, um show inteiro.
— Na paciente do 414… na verdade, em duas pacientes… é que… eu não quero errar… e pensei que talvez… a senhora pudesse me explicar melhor. Mas não aqui. É… meio longo.
Tradução: Ele queria mais uns minutos comigo.
Normal.
— Vamos para cantina — eu disse, prática. — Eu ainda não comi nada hoje.
O brilho que apareceu nos olhos dele quase me fez rir.
— Ótimo — ele respondeu, com um sorriso que sabia exatamente o que estava fazendo.
***
A cantina estava relativamente vazia no meio da tarde. Peguei um café forte, e um sanduíche natural, eu precisava mais do que oxigênio e Arthur escolheu alguma coisa doce, provavelmente para combinar com o personagem de residente adorável.
Sentamos na mesa do canto, onde eu sempre gostava de ficar.
— Certo — falei, abrindo meu tablet. — Qual é a dúvida?
Ele começou a explicar: sinais clínicos, conduta terapêutica, diferença entre duas abordagens possíveis, risco-benefício, literatura atual.
Falava sério, atento, absorvendo tudo. Ele podia ser galanteador, mas era inteligente. Muito.
E quando eu explicava algo, ele prestava atenção como se eu estivesse entregando a fórmula da imortalidade.
Depois de uns 20 minutos de conversa, veio o inevitável.
Ele inclinou o corpo para frente, apoiou o queixo na mão e disse:
— Você percebe que quando fala de medicina… seus olhos brilham, né?
Eu parei.
— Arthur…
— Não, sério — ele insistiu, sorrindo daquele jeito meio moleque. — É lindo. Você fica… diferente. Mais leve. Mais viva. Eu acho que nunca vi alguém ser tão apaixonada por algo.
Eu revirei os olhos, mas não pude evitar um sorriso enviesado.
— Você flerta demais.
— Eu flerto só o suficiente — ele rebateu, rápido. — E com a pessoa certa.
Eu soltei um riso breve.
— Arthur, eu sou sua superior.
— E uma mulher incrível. As duas coisas podem coexistir perfeitamente.
Ele era impossível. Mas inofensivo. Era um flerte leve, quase adolescente, que eu recebia com humor porque não tinha peso. Não tinha história.
Não tinha veneno.
E eu já ia dizer algo sarcástico de volta quando ouvi passos atrás de mim. Rápidos. Firmes.
Gerando um choque no ar antes mesmo do corpo aparecer.
Eu senti antes de ver. O cheiro dele. A temperatura dele. A sombra dele.



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