POV Lianna
O telefonema que corta o ar
A porta se fechou atrás de mim com um estalo seco, e meu corpo inteiro gelou como se tivesse acabado de mergulhar num mar de gelo. Encostei as costas nela, tentando recuperar o ar.
O carro preto. Ali. Parado. Observando.
Eu sabia aquele padrão de carros. Eu sabia aquele tipo de vidro. Eu sabia o jeito como minha espinha queimou, como se reconhecesse um predador antigo.
Zayden. Ele tinha voltado. De novo. E agora… na minha rua.
Selin estava na sala, ainda rindo do desenho.
Selena estava deitada no sofá, brincando com o ursinho.
Meus filhos. Minha vida. Meu maior segredo. Meu maior medo.
O celular vibrou na bancada. Número desconhecido.
Senti meu estômago cair.
Ignorei.
Fechei os olhos. Respirei fundo. Precisava agir com calma. Precisava trancar tudo. Precisava não desmoronar.
— Mamãe, que foi? — Selena perguntou, aparecendo na porta da sala.
— Nada, meu amor. — forcei um sorriso. — Vamos ver um filme? Um daqueles bem longos.
Eles vibraram, felizes, e foram correndo escolher um.
Eu coloquei um filme colorido, cheio de músicas, e baixei as luzes. Aconcheguei os dois no sofá, puxei uma mantinha, beijei cada cabeça.
— Não saiam daqui, tá? — pedi, suave.
Eles assentiram, distraídos.
Meu celular vibrou de novo. Número desconhecido. O mesmo. Meu coração falhou.
Eu fui até a cozinha. Cada passo parecia pesar uma tonelada.
O toque recomeçou. O som cortava o ar, insistente, incômodo, como se arrancasse pedaços de mim.
Engoli seco.
Peguei o celular.
Atendi.
— Alô?
Silêncio por um segundo.
E então…
— O que ele estava fazendo aí?
A voz dele. Baixa. Controlada. Letal.
Eu tremi dos pés à cabeça.
— Zayden… — murmurei, a garganta fechada.
— Responde. — ele exigiu, sem elevar a voz. — O que Adrian estava fazendo aí?
A cozinha ficou pequena. Pequena demais. A realidade ficou estreita, sufocante.
Eu fechei a porta para a sala, com medo que as crianças ouvissem. Encostei a mão no balcão, tentando me manter de pé.
— Ele só veio entregar algo que eu esqueci no hospital. — respondi, forçando firmeza. — É só isso.
— Você ofereceu café pra ele.
Era uma afirmação. Não uma pergunta. Meu sangue gelou. Ele estava observando. De perto.
O tempo todo.
— Como você sabe disso? — sussurrei.
— Eu vi. — ele respondeu, simples. Cruel. Verdadeiro. — Vi ele entrando. Vi ele saindo. Vi você sorrindo pra ele.
Meu coração batia tão forte que doía.
— Você está me vigiando? — eu arrisquei, tentando manter minha voz num nível aceitável.
Uma pausa longa.
— Eu estou cuidando do que é meu.
Aquela frase. Aquela maldita frase.
Eu apertei os dentes.
— Eu não sou sua. — respondi, gelada. — E não tenho que justificar quem entra na minha casa.
— A sua casa? — ele repetiu, num riso seco. — Engraçado. Você não tinha uma casa quando foi embora. Eu que…
— Isso acabou. — cortei, firme. — Não tem direito nenhum sobre mim. Nenhum.
Ele riu de novo. Um riso amargo, quase ferido.
— Engraçado você insistir nisso depois do que aconteceu na minha sala.
Meus músculos travaram.
— Não menciona isso. — rosnei. — Nem por um segundo.
— Você gemeu no meu ouvido, Lianna.
Eu tremi. De nojo. De raiva. De medo.
— Você não existe. — eu disse, num sussurro. — Meu advogado vai te ligar.
Ele ignorou.
— Quem era o garoto?
A pergunta caiu como um tiro. Minha respiração falhou.
— G-garoto?
— O que abriu a porta. — ele disse, agora frio, calculado, perigoso.
A voz do Zayden que destrói impérios. Que intimida conselhos inteiros. Que move um hospital inteiro ao silêncio.
— Quem é ele?
Meus dedos ficaram dormentes.
— Ele… ele é…
O mundo começou a girar.


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