POV LIANNA
Eu ainda estava com o gosto metálico do telefonema preso na língua quando a campainha tocou de novo.
Meu coração deu um tranco. Por um segundo eu achei que fosse ele.
Respirei fundo, fui até a porta, com a alma em suspenso.
Mas quando abri, o ar voltou aos meus pulmões.
— Amanda! — Selin gritou, correndo e se jogando nos braços dela.
Amanda riu, abraçando ele apertado.
— Eita, calma, pequeno furacão! — ela riu, beijando o topo da cabeça dele.
Selena veio logo atrás, agarrando na mão dela como se fosse uma tia adorada.
Eu sorri… até olhar por cima do ombro dela.
Ele ainda estava lá. Parado encostado no carro preto. Braços cruzados. A postura de predador à espreita. Os olhos fixos em mim.
Meu sorriso apagou tão rápido quanto acendeu.
Amanda percebeu. É claro que percebeu. Ela me olhou de lado, atenta.
— Li…? — disse baixinho.
Eu engoli seco.
— Meu ex-marido está ali fora — murmurei. — Eu preciso falar com ele.
Ela fechou o rosto na hora.
— O quê? Aqui? Na sua porta?
Assenti, tensa.
— Segura as pontas com eles, por favor. É rápido.
Amanda imediatamente puxou os dois para dentro.
— Claro. Vão lá, meus amores. Vamos terminar esse desenho e depois eu faço chocolate quente. — ela disse, com aquele tom doce que sempre usava com eles.
Selena vibrou. Selin também.
E eu senti o nó na garganta apertar, porque aquela cena era exatamente a que eu precisava que Zayden acreditasse: Amanda sendo… mãe.
Fechei a porta. Respirei fundo. Olhei novamente para o carro.
Ele não desviou o olhar em nenhum instante.
Caminhei até lá, sentindo minhas pernas tremerem, mas sem demonstrar. Quando parei ao lado da porta, ele sequer precisou dizer nada.
Destravou a porta por dentro, e eu entrei.
Silêncio.
A energia dentro do carro era densa, elétrica, sufocante. Zayden estava com o maxilar travado, uma veia saltando no pescoço. Os olhos? Deus.
Pareciam fogo contido.
Eu virei o rosto para a janela. Me recusei a ser a primeira a quebrar o silêncio.
Ele esperou. Eu esperei.
E então eu falei.
— As crianças… — comecei, controlada — …são filhos da Amanda.
O silêncio dele estalou como um galho seco sob o peso.
Ele virou lentamente o rosto na minha direção.
Lentamente. Como quem desmonta uma mentira no microscópio.
— Filhos da Amanda? — repetiu, testando a frase como se avaliando a estrutura. — Interessante. Já que, até onde eu sei, Amanda nunca foi casada.
— Porque ela é mãe solo, Zayden. — respondi, firme. — E não expõe a vida pessoal dela pra ninguém.
Ele me encarou mais fundo, como se pudesse ver a mentira se costurando dentro de mim.
— Explica. — ordenou.
Então eu continuei, sem tremer.
— Ela engravidou nova. Sozinha. Abandonada. — ajustei a voz, criando a história enquanto a decorava. — Ela não tem família. Não tem apoio. Eu ajudo quando posso. Às vezes com dinheiro, às vezes ficando com as crianças quando ela está trabalhando em turnos dobrados.
Soltei o ar devagar.
— Eles são como sobrinhos para mim. E hoje de manhã ela precisou sair às pressas para resolver um problema no trabalho, por isso deixaram as crianças comigo.
O silêncio dele era quase um animal.
— É por isso que o menino abriu a porta. — concluí.
Zayden inclinou um pouco a cabeça, como se processando as informações, medindo cada palavra, cada nuance, cada microexpressão minha.
— Você é péssima mentindo. — ele disse, de repente.
Meu estômago afundou. Mas eu mantive a postura.
— Não estou mentindo.
— Está. — ele retrucou, seco, sem hesitação. — Eu ouvi na sua respiração.
Eu cerrei os dentes.
— Você não é mais parte da minha vida pra analisar minha respiração.
Ele sorriu. Um sorriso perigoso, daqueles que vinham antes de ele destruir uma negociação inteira no hospital.
— E você está ultrapassando todos os limites possíveis, Zayden.
Ele inclinou o rosto, estudando o meu, e sussurrou:
— Se eu descobrir que você mentiu pra mim sobre isso…
E ele deixou a frase morrer.
Eu não respondi. Não poderia.
— Pode ir. — ele disse, finalmente, destravando a porta. — Antes que as crianças percebam que você sumiu.
Coloquei a mão na maçaneta e estava prestas a abrir quando ele falou:
— Eu vou descobrir, Lianna.
Ele disse aquilo com uma certeza tão doentia que parecia lei natural. Como se ele fosse inevitável.
Como se meu “não” fosse apenas um obstáculo temporário.
Eu já estava com a mão na maçaneta da porta do carro, mas parei. Respirei fundo, deixei a adrenalina virar aço no meu sangue, e virei o rosto de volta para ele, devagar, controlada, fria como eu jamais fui com ele na vida.
— Escuta bem, Zayden. — minha voz saiu baixa, mas firme, cheia de veneno educado. — Se você aparecer na porta da minha casa mais uma vez…
…ou bater lá achando que tem algum direito sobre mim…ou ousar se aproximar das crianças de novo…
Parei apenas para que ele realmente me olhasse.
E ele olhou. Sem piscar.
— Eu vou chamar a polícia. — continuei, deixando cada palavra cair como chumbo quente entre nós. — E a polícia de Genebra não funciona como essa sua bolha de empresário mimado. Eles não se vendem por sobrenome, dinheiro, cargo ou influência.
O maxilar dele travou. Ótimo. Doía, né?
— Se você tentar cruzar minha porta sem ser convidado… — inclinei levemente o corpo para ele. — …eles vão te tirar de lá como tiram qualquer outro homem que não sabe aceitar limites.
Mais um segundo de silêncio mortal.
Ele abriria a boca. Eu sabia. Ele abriria a boca para protestar, para se justificar, para cuspir alguma defesa ridícula.
Mas não deu tempo.
— E antes que você ouse duvidar, Zayden… — finalizei, e meus olhos encontraram os dele sem desviar. — Eu denuncio mesmo. E eu não retiro queixa. Quer seu nome na lama?
O olhar dele oscilou, foi rápido, mas eu vi. Um impacto seco de realidade. Pela primeira vez em muito tempo… ele pareceu realmente perceber que eu não era mais a mulher que ele deixava em pedaços.
Sou eu quem levanta muros agora. Sou eu quem segura as chaves. Sou eu quem decide a distância segura.
Me endireitei.
— Não teste minha paciência. — murmurei, abrindo a porta. — Nem meu amor por estas crianças. Eu mato por eles, Zayden. E eu destruo por eles. Eles são como filhos para mim. Não ouse se aproximar deles.
Saí do carro antes de ele responder, batendo a porta com a firmeza que minha vida inteira exigia.
E caminhei de volta para a minha casa sem olhar para trás, porque eu não precisava.

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