POV LIANNA
A casa estava um silêncio.
A chave tremeu entre meus dedos. Respirei fundo antes de girá-la.
A sala estava na penumbra, iluminada apenas pelo brilho azul da TV. Amanda estava jogada no sofá como uma deusa egípcia preguiçosa, segurando uma tigela de pipoca e assistindo a alguma série policial em espanhol com a concentração de quem está montando um quadro investigativo mental.
Ela nem olhou quando entrei.
— Se você não tiver pelo menos beijado o homem hoje, eu juro que eu me levanto e te belisco. — disse ela, do nada, ainda encarando a tela.
Eu parei na porta. Ela então virou devagar para mim.
E arregalou os olhos.
— MEU DEUS! — ela levantou do sofá tão rápido que a pipoca voou. — VOCÊ BEIJOU.
Eu senti minhas bochechas queimarem.
— Amanda… — tentei, mas ela já estava andando em minha direção como um animal selvagem farejando fofoca fresca.
— LI-AN-NA. — ela me segurou pelos braços. — Eu tô vendo nos seus olhos. Isso aí é “acabei de beijar e minhas pernas ainda tão meio bambas”. Eu conheço MUITO bem esse olhar.
Ri. Não queria rir, mas ri. A energia dela era impossível de conter.
— Eu… — respirei fundo, tirando os sapatos. — Ele foi incrível. De verdade. Mas eu—
— Não, não, não. — Ela levantou a mão, mandando eu calar a boca. — Você vai sentar e vai me contar do começo ao fim.
Eu rolei os olhos, mas sentei.
Amanda se sentou ao meu lado como uma adolescente esperando a cena do beijo no filme. Puxou o cobertor até o queixo.
— Tá. Começa.
E eu contei.
Contei desde a chegada dele, do jeito como ele ficou sem palavras quando me viu na porta. Do restaurante. Da caminhada. Da mão dele entrelaçada na minha. Do jeito como ele pediu permissão pra me beijar. De como aquele beijo foi… calmo. Calmo e quente. Como se alguém tivesse colocado luz dentro de mim.
O rosto de Amanda alternava entre sorrisos orgulhosos e expressão de “se esse homem fosse comida, eu devorava”.
— Eu tô tão feliz por você. — ela suspirou, colocando a cabeça no meu ombro. — Você merece esse tipo de carinho. Esse tipo de toque. Esse tipo de cuidado.
Fiquei quieta por um tempo, encarando as próprias mãos.
— Eu fiquei feliz. — admiti, quase num sussurro. — Muito feliz. Mas também fiquei com medo.
— Normal. — ela disse, mexendo na minha mão. — Você não é um robô. É humana.
— Eu não quero entrar em um relacionamento agora. Não quero começar algo só pra me ver presa num espiral emocional de novo. Não quero dar chance pra ninguém mexer comigo dessa forma. Eu… ainda tô quebrada em alguns lugares.
Amanda assentiu, séria por um instante.
— Eu sei. Mas, Li… ninguém tá te pedindo pra namorar amanhã. Aproveita. Sente. Experimenta viver um pouco. Se ele fizer bem… deixa esse bem entrar. Se começar a doer, você recua e pronto. Não tem casamento marcado, não tem contrato assinado, não tem obrigação nenhuma.
Eu suspirei.
— É que… — mordi o lábio — hoje foi bom demais. Aí eu fico com medo de estar vivendo uma coisa que vai desaparecer na semana que vem. Tipo… como tudo sempre desaparece.
Amanda pegou meu rosto com as duas mãos, firme.
— Escuta. Você não tem obrigação nenhuma de ser forte o tempo todo. Nem de confiar em todo mundo. Mas você tem o direito de ser feliz. E se esse homem te deu uma noite leve, uma noite boa, de paz… isso já é mais do que metade dos homens que passam por esse planeta.
Um sorriso escapou de mim sem que eu quisesse.
— Eu gostei da noite. — confessei. — De verdade.
Ela sorriu também.
— Eu sei que gostou. Tá estampado nessa cara de “beijei um deus grego e minha alma saiu pra dançar salsa”.
Eu ri alto. Riso real, solto, daqueles que fazem o peito vibrar.


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