POV Lianna
A manhã começou com um sol indecente para alguém que tinha dormido quatro horas e metade delas em estado de alerta emocional. Mesmo assim, eu estava ali, de cabelo preso, saia lápis e blazer preto, um conjunto social, e duas crianças sonolentas segurando minhas mãos como se fossem bússolas tentando entender o mundo.
Selin caminhava ao meu lado, chutando pedrinhas invisíveis no corredor vazio do hospital. Selena vinha saltitando, abraçada ao coelho de pelúcia que carregava desde bebê.
— Mãe, hoje você vai operar? — ela perguntou, a cabeça inclinada como só ela sabia fazer.
— Não, meu amor. Agora tenho uma reunião bem rápida.
— Com o moço importante? — Selin completou.
Sorri.
— É. Com o moço muito importante. O diretor do hospital.
Os dois assentiram como se eu fosse enfrentar um dragão.
Valentina estava encostada na porta da minha sala, tomando café em um copo térmico rosa choque, rindo de alguma coisa no celular. Quando me viu, ergueu uma sobrancelha.
— Então é hoje que você vira chefona da chefona?
— Não estraga — murmurei, já cansada antes mesmo de começar.
Valentina fez um carinho no cabelo de Selena e piscou para Selin.
— Vamos lá, pequenos prodígios. Hoje vocês têm a missão importantíssima de não quebrar nada que a sua mãe precise pra salvar vidas.
Selena riu.
— Podemos quebrar o computador? Ele é chato.
Valentina gargalhou.
— Concordo, mas não. Nada de computador.
Eu me abaixei e segurei o rosto de cada um.
— Se comportem. Vocês ficam aqui com a tia Val por vinte minutinhos, ok? Nada de correr. Nada de gritar. Nada de abrir gavetas.
— Nada de invadir o sistema do hospital — Valentina acrescentou, dramática.
Selin bufou.
— Eu nem sei fazer isso.
— Mas parece — ela respondeu.
Eu respirei fundo.
— Volto rápido. Prometo.
Beijei os dois e saí, sentindo aquele peso familiar de ter metade do coração andando atrás de mim.
O caminho até a sala do diretor geral foi curto, mas carregado demais. Adolf Weber não era qualquer pessoa. Era o homem que carregava Genebra nas costas; o que sustentava a reputação impecável daquele hospital; e, por outro lado, o pai de Viviane Weber, minha rival declarada, minha sombra, meu espinho cravado desde o primeiro dia de residência.
Bati na porta.
— Entre — ele respondeu.
Quando empurrei a porta, Adolf estava em pé, organizando papéis sobre a mesa. Seu terno cinza era tão alinhado que parecia ter sido desenhado no próprio corpo, e cada mecha de cabelo branco brilhava com a arrogância de quem manda e sabe que manda.
— Doutora Aslan — ele cumprimentou, dando um leve sorriso. — Sempre pontual. Gosto disso.
Assenti, tentando manter a postura.
— O senhor pediu para me ver?
Ele fez sinal para que eu sentasse. Sentei. Ele continuou em pé, como se aquela posição lhe desse vantagem e dava.
— Vamos ser diretos — começou. — A diretoria clínica está passando por uma reformulação interna. Poucos sabem. Menos ainda têm capacidade para assumir qualquer cargo que se abre nessas circunstâncias.
Respirei fundo.
— E o senhor quer me incluir nessa conversa.
— Exato.
Ele me estudou por longos segundos. O tipo de olhar que pesa, que mede, que avalia cada microexpressão para prever uma reação. Não desviei.
— Quero oferecer a você o cargo de vice-diretora clínica.
Meu coração falhou um compasso.
Vice-diretora. Poder real. Voz ativa em protocolos.
Influência direta no corpo médico. Uma cadeira ao lado dos nomes que movem o hospital.
— Eu… eu não esperava — admiti.
— Eu sei — Adolf respondeu, abrindo um leve sorriso. — E é exatamente por isso que você é a melhor opção. Quem espera demais costuma entregar menos.
Eu fiquei calada. Ele continuou:
— Você é competente, é estável, é ética. Salvou a filha de um investidor importante. Salvou pacientes complexíssimos. Lidou com mídia, com pressão, com críticas. E continuou impecável.
Meu estômago revirou, tanto pelo orgulho escondido quanto pela lembrança amarga de todo o inferno que passei.
— Mas… — respirei fundo — se me permite a pergunta… por que não escolher sua filha para o cargo?


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!