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Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe! romance Capítulo 82

POV LIANNA

Eu não deveria ter conseguido voltar para a festa.

Não depois de ver Selin conversando com ele.

Com ele. Com o único homem no mundo capaz de transformar meu corpo em pedra e minha mente em fumaça ao mesmo tempo.

Ainda sinto o gosto metálico do pânico na língua.

Mas no instante em que mandei Selin correr até a irmã e ficar perto de Adrian, eu precisei ficar em pé. Fingir normalidade. Manter a respiração funcionando. Apertar as rédeas do próprio coração, como sempre fiz.

Eu caminhei de volta para o jardim como se estivesse andando sobre vidro.

Minha visão estava turva.

Minhas mãos tremiam.

Meu estômago revirava.

Amanda percebeu assim que me viu.

Ela inclinou o corpo pra frente, estudando meu rosto com aquele olhar clínico dela, capaz de arrancar confissão até de uma pedra.

— O que houve? — ela perguntou, baixinho.

Eu apenas toquei o braço dela, um toque rápido, urgente e murmurei:

— Fica de olho neles. Agora.

Ela nem questionou. Só ergueu os olhos, encontrou Selina brincando com os amiguinhos e Selin perto de Adrian, e assentiu.

— Vai — Amanda disse.

E eu fui.

Entrei na casa com passos rápidos, como quem precisa arrancar a própria alma do corpo antes que despenque no chão.

Tão logo atravessei a porta, o som da festa foi abafando. As vozes sumiram. Só sobrou meu coração... batendo doído, descompassado.

Minha visão piscava de adrenalina.

Eu me apoiei na parede do corredor e deixei um soluço escapar. Um só. Pequeno. Feio. Mas suficiente para me quebrar.

Meu filho falou com ele. Meu filho.

Pelas costas, ouvi passos.

— Lianna.

A voz dele. Adrian.

Fechei os olhos, engolindo o desespero.

— Lianna, olha pra mim.

Ele se aproximou devagar, como se eu fosse um animal ferido prestes a fugir ou atacar. E talvez eu fosse mesmo.

Quando abri os olhos, ele estava diante de mim: os olhos azuis claros, atentos, dilatados de preocupação. As mãos dele estavam a poucos centímetros do meu rosto, como se pedissem permissão para tocar.

Eu não dei permissão. Mas também não recusei.

Adrian entendeu. Ele sempre entende.

— O que aconteceu? — ele murmurou, a voz baixa, grave, controlada, como se estivesse tentando não deixar o mundo sentir a fúria que estava carregando.

Minha garganta ardeu.

— Zayden… — consegui dizer. — Ele… Selin… ele falou com Selin.

A expressão de Adrian mudou num segundo.

Primeiro incredulidade. Depois medo por mim. E então algo muito mais perigoso: raiva pura.

A mandíbula dele travou, o peito subiu num movimento seco e aquela intensidade tomou conta da postura dele.

— Onde ele estava? — Adrian perguntou.

— No portão — sussurrei. — Me esperando. Olhando. Como se… como se estivesse estudando tudo. Eu vi ele falando com o meu filho, Adrian. Com o meu filho.

A última palavra saiu quebrada.

Doeu dizer.

Doía viver.

Adrian fechou os olhos por meio segundo, como se estivesse implodindo alguma parte de si mesmo para não explodir pra fora.

— Ele disse algo? — perguntou, ainda controlado, mas a borda do controle era fina como lâmina.

— Ele… — engoli a urgência, a lembrança, o medo. — Ele falou que Selin parece comigo… mas também tem algo dele.

Adrian arregalou os olhos, respirou fundo e por um segundo eu achei que ele fosse atravessar a parede, correr lá fora e matar Zayden com as próprias mãos.

Mas então… Ele olhou pra mim. E tudo o que eu vi foi proteção.

Eu não sei quem se inclinou primeiro. Se foi ele ou eu. Talvez tenha sido os dois. Mas nossos lábios se encontraram num estalo morno, urgente, desesperado e doce ao mesmo tempo.

Eu senti tudo ao mesmo tempo.

Meu medo. Minha coragem. Minha dúvida. Meu desejo. Meu corpo. Meu coração. Meu passado. Meu presente.

Tudo explodiu num beijo que tirou meu fôlego.

Ele me puxou pela cintura, me colou nele, como se quisesse proteger até o espaço entre nós. Eu agarrei os ombros dele como se estivesse me segurando na beira de um penhasco. O beijo foi profundo. Molhado. Quente.

Mas não era luxúria. Era sobrevivência. Era vida voltando. Era eu percebendo, no gosto da boca dele, que meu corpo ainda sabe escolher quem o toca.

Quando ele me separou um pouco, as respirações estavam misturadas.

— Eu senti medo de perder você hoje — Adrian confessou, a voz rouca. — Um medo que eu nunca senti na vida. Você tem noção do que é isso?

Apertei mais forte os dedos no jaleco dele.

— Eu… — fechei os olhos, tentando não chorar. — Quando vi Selin com Zayden, eu… eu perdi o chão. Achei que ia morrer.

— Eu estou aqui — ele disse, encostando o nariz no meu. — Sempre estarei.

Um barulho distante nos trouxe de volta.

Risadas de crianças no jardim. A festa. A vida continuando lá fora. Eu respirei fundo. Meu corpo ainda encostado no dele, minha mente girando, meu coração sem saber se corria ou se derretia.

Adrian afastou o cabelo do meu rosto com um gesto lento.

— Quer que eu fique com você? — ele perguntou. — Pode ser aqui dentro. Pode ser lá fora. Pode ser do seu lado ou a dois metros. Tanto faz. Só me diz o que você precisa.

Eu precisei conter um soluço.

— Eu preciso… continuar a festa — admiti. — Meus filhos… eles merecem.

Ele assentiu. E então fez algo que desmontou a última defesa que eu tinha: Ele pegou minha mão.

E entrelaçou os dedos nos meus, sem hesitar.

— Então vamos — Adrian disse, suave. — Mas você não vai voltar sozinha.

E me guiou pelo corredor.

Quando chegamos perto da porta, ele soltou minha mão com cuidado, para ninguém ver, mas se manteve atrás de mim. Presença sólida. Quente. Familiar.

Eu respirei fundo.

E saí para o jardim. Pronta para terminar o dia dos meus filhos. E rezando para que o homem que destruiu minha vida não destruísse também o resto da minha coragem.

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