POV LIANNA
Eu não deveria ter conseguido voltar para a festa.
Não depois de ver Selin conversando com ele.
Com ele. Com o único homem no mundo capaz de transformar meu corpo em pedra e minha mente em fumaça ao mesmo tempo.
Ainda sinto o gosto metálico do pânico na língua.
Mas no instante em que mandei Selin correr até a irmã e ficar perto de Adrian, eu precisei ficar em pé. Fingir normalidade. Manter a respiração funcionando. Apertar as rédeas do próprio coração, como sempre fiz.
Eu caminhei de volta para o jardim como se estivesse andando sobre vidro.
Minha visão estava turva.
Minhas mãos tremiam.
Meu estômago revirava.
Amanda percebeu assim que me viu.
Ela inclinou o corpo pra frente, estudando meu rosto com aquele olhar clínico dela, capaz de arrancar confissão até de uma pedra.
— O que houve? — ela perguntou, baixinho.
Eu apenas toquei o braço dela, um toque rápido, urgente e murmurei:
— Fica de olho neles. Agora.
Ela nem questionou. Só ergueu os olhos, encontrou Selina brincando com os amiguinhos e Selin perto de Adrian, e assentiu.
— Vai — Amanda disse.
E eu fui.
Entrei na casa com passos rápidos, como quem precisa arrancar a própria alma do corpo antes que despenque no chão.
Tão logo atravessei a porta, o som da festa foi abafando. As vozes sumiram. Só sobrou meu coração... batendo doído, descompassado.
Minha visão piscava de adrenalina.
Eu me apoiei na parede do corredor e deixei um soluço escapar. Um só. Pequeno. Feio. Mas suficiente para me quebrar.
Meu filho falou com ele. Meu filho.
Pelas costas, ouvi passos.
— Lianna.
A voz dele. Adrian.
Fechei os olhos, engolindo o desespero.
— Lianna, olha pra mim.
Ele se aproximou devagar, como se eu fosse um animal ferido prestes a fugir ou atacar. E talvez eu fosse mesmo.
Quando abri os olhos, ele estava diante de mim: os olhos azuis claros, atentos, dilatados de preocupação. As mãos dele estavam a poucos centímetros do meu rosto, como se pedissem permissão para tocar.
Eu não dei permissão. Mas também não recusei.
Adrian entendeu. Ele sempre entende.
— O que aconteceu? — ele murmurou, a voz baixa, grave, controlada, como se estivesse tentando não deixar o mundo sentir a fúria que estava carregando.
Minha garganta ardeu.
— Zayden… — consegui dizer. — Ele… Selin… ele falou com Selin.
A expressão de Adrian mudou num segundo.
Primeiro incredulidade. Depois medo por mim. E então algo muito mais perigoso: raiva pura.
A mandíbula dele travou, o peito subiu num movimento seco e aquela intensidade tomou conta da postura dele.
— Onde ele estava? — Adrian perguntou.
— No portão — sussurrei. — Me esperando. Olhando. Como se… como se estivesse estudando tudo. Eu vi ele falando com o meu filho, Adrian. Com o meu filho.
A última palavra saiu quebrada.
Doeu dizer.
Doía viver.
Adrian fechou os olhos por meio segundo, como se estivesse implodindo alguma parte de si mesmo para não explodir pra fora.
— Ele disse algo? — perguntou, ainda controlado, mas a borda do controle era fina como lâmina.
— Ele… — engoli a urgência, a lembrança, o medo. — Ele falou que Selin parece comigo… mas também tem algo dele.
Adrian arregalou os olhos, respirou fundo e por um segundo eu achei que ele fosse atravessar a parede, correr lá fora e matar Zayden com as próprias mãos.
Mas então… Ele olhou pra mim. E tudo o que eu vi foi proteção.
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