POV ZAYDEN
Eu sempre soube que, no fim, a verdade encontraria um jeito de me olhar de volta. E hoje…
foi o dia.
Não fui convidado. Nunca seria. Mas portões abertos são convites para quem sabe entrar sem ser visto.
Fiquei parado na sombra da árvore mais alta, do lado de fora, um passo antes da calçada, observando a comemoração no jardim daquela casa obscenamente grande. Casa que, até ontem, eu nem sabia que existia. A casa dele. Do médico. Do homem que Lianna deixou entrar na vida dela com uma facilidade que não teve comigo em anos.
O jardim estava cheio de crianças rindo, correndo, gritando. Balões vermelhos e roxos pendurados nas árvores. Mesas com docinhos ridículos demais pra terem custado tão pouco. Uma mesa principal com dois temas, um lado azul, outro rosa. E no centro, dois bolos. Um com um unicórnio. Outro com um mini Homem de Ferro.
Ridículo. Ridiculamente perfeito.
Eu observava tudo com a precisão de um bisturi.
Cada detalhe. Cada sorriso. Cada movimento dela.
Lianna estava no jardim, ajudando uma menina a amarrar o laço do vestido. E então Adrian apareceu atrás dela, encostando a mão nas costas dela num gesto “discreto”. Discreto uma ova. Intimidade explícita.
A raiva subiu em mim como febre. Eles riam de algo. E ele a olhava como se ela fosse o centro gravitacional do universo dele. Um olhar que eu conheço. Porque eu já dei esse olhar pra ela. E ela devolveu.
Eu me mantive imóvel. Silencioso. Escondido. Meu corpo inteiro tenso, mas minha mente? Lúcida.
Porque era assim que eu sobrevivia.
Depois de um tempo, a música parou e começou aquela palhaçada de cantar parabéns. As crianças se juntaram na frente da mesa, e Lianna ficou atrás deles, as mãos nos ombros pequenos, sorrindo.
E então vi. O menino. Cabelo castanho claro. Quase loiro. Mais escuro do que da sua irmã gêmea. Olhos amendoados. Sobrancelhas marcadas. Postura séria demais pra idade. Observador demais.
Uma miniatura de… dela. E dos meus traços.
Meu coração, que eu achei que estava morto, pulsou uma única vez, forte, violento. Eu sabia.
Eu soube antes mesmo dele olhar na minha direção. E então, quando tudo terminou, o menino correu pelo jardim… e se aproximou do portão.
De mim.
Olhei ao redor. Ninguém percebeu. Ele estava curioso. O tipo de criança que não tem medo do escuro porque vê luz até onde não tem. Ele parou a uns quatro passos. Olhou pra mim.
E eu olhei de volta.
— Oi — ele disse, sem medo, balançando um boneco na mão. — Você tá perdido?
Eu quase ri.
— Não. — respondi. — Só observando a festa.
Ele inclinou a cabeça, igual Lianna fazia quando estava analisando algo.
— Você conhece minha mãe? — ele perguntou.
A sinceridade dele me desmontou mais do que deveria.
— Conheço — respondi, a voz quase saindo baixa demais. — Muito bem.
Ele sorriu. Um sorriso pequeno, contido… mas familiar.
— Você é amigo dela?
Eu poderia dizer qualquer coisa. Mentir. Inventar.
Manipular. É o que eu faço com adultos. Mas com ele? As palavras saíram nuas.
— Eu… já fui importante pra ela.
Ele pensou nisso por um segundo, como se carregasse um cérebro dez anos mais velho do que aquele corpo pequeno.
— Você parece ela — o menino disse, apontando o dedo, confiante. — No jeito de ficar sério.
Meu sangue gelou.
— É mesmo? — perguntei, num tom neutro.


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