POV LIANNA
Deixar as crianças na escola nunca foi tão difícil.
Não porque elas choraram, elas estavam animadas, falando da aula de artes, da história que a professora prometeu contar, do lanche novo. Difícil foi não contar nada.
Difícil foi sorrir sabendo que, naquele mesmo prédio onde eu salvei tantas vidas, alguém tinha decidido me colocar no banco dos réus.
— Mamãe, você volta cedo hoje? — Selina perguntou, prendendo meu casaco antes de correr para o portão.
Eu me abaixei à altura dela.
— Vou tentar, meu amor.
Era meia verdade. E as meias verdades estavam se acumulando na minha garganta.
Selin me abraçou rápido, do jeito desajeitado dele.
— O tio Adrian vai buscar a gente?
— Vai sim.
Isso pareceu acalmá-los. E me quebrou um pouco mais.
Entrei no carro e fiquei alguns segundos parada, as mãos no volante, respirando fundo. Adrian tinha se oferecido para ir comigo. Eu disse não. Precisava atravessar aquilo sozinha. Se eu caísse… precisava saber que ainda sabia levantar.
O hospital surgiu à frente como sempre: imponente, impecável, frio.
Por anos, aquele lugar foi minha casa. Agora parecia um tribunal.
A secretária do diretor me recebeu com formalidade demais. Nenhum “bom dia, doutora”, nenhum sorriso cúmplice de quem já dividiu café comigo às seis da manhã depois de uma cirurgia longa demais.
— A reunião já vai começar. — disse apenas.
A sala do diretor estava organizada como sempre. Madeira escura. Janelas amplas. Diplomas nas paredes. O cheiro neutro de poder.
E então eu o vi. Zayden.
Sentado à direita do diretor, pernas cruzadas, terno perfeitamente ajustado, expressão grave. Preocupada. Quase solidária.
Por um segundo, meu corpo inteiro reagiu como se estivesse diante de um predador antigo. Um reflexo involuntário. Antigo demais.
Ele levantou o olhar devagar quando me viu.
— Lianna… — disse, num tom baixo. — Eu sinto muito que você esteja passando por isso.
Se eu não o conhecesse… Se eu não tivesse vivido anos sendo moldada por aquele tipo exato de voz… Talvez eu acreditasse.
O diretor pigarreou.
— Doutora Aslan, obrigada por vir. — disse formal. — Sente-se, por favor.
Sentei. A coluna ereta. O coração descompassado, mas firme.
— Como você sabe — continuou — recebemos uma denúncia anônima envolvendo possíveis conflitos éticos. Relacionamento pessoal com um colega médico, influência externa, uso indevido de prestígio institucional.
Influência externa.
A palavra voltou a ecoar.
— Isso é falso. — eu disse. — Não há nenhum relacionamento inadequado. Não houve interferência em decisões médicas. E muito menos uso de influência.
Zayden inclinou o corpo para frente.
— Eu disse exatamente isso. — ele falou. — Inclusive, deixei claro que não acredito que você faria algo assim.
Vermelho.
Era tudo tão… bem ensaiado.
— Mas… — ele continuou, com falsa cautela — …a denúncia veio com detalhes específicos. Horários. Locais. Nomes. Isso preocupa.
— Que detalhes? — perguntei.
O diretor abriu uma pasta.
— Reuniões fora do horário. Proximidade excessiva. Comentários de terceiros.
Terceiros.
Eu senti o nó se formando.
— Terceiros como quem? — insisti.
— Não podemos revelar fontes neste momento. — respondeu o diretor.
Claro que não.
Zayden virou-se para mim, com um olhar quase triste.
— Lianna, eu sei o quanto isso deve ser injusto pra você. — disse. — Mas precisamos colaborar. Transparência é essencial.
Colaborar.
A palavra favorita de quem arma a queda do outro.


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