POV ADRIAN
Quando o número dela apareceu no meu telefone, eu soube.
— Adrian… — a voz dela veio firme demais. — Eu fui suspensa. De verdade.
O mundo ficou em silêncio.
Não aquele silêncio calmo. O silêncio de quem está prestes a quebrar alguma coisa.
— Onde você está? — perguntei, já pegando as chaves.
— No carro. Já peguei as minhas coisas.
— Me espera aí. Não sai daí!
***
O hospital parecia diferente quando cheguei.
Mais frio. Mais falso. Como se as paredes soubessem que tinham acabado de cuspir uma das melhores médicas que já passaram por ali.
Vi Lianna no estacionamento, sentada no banco do motorista, imóvel. Os ombros rígidos. O olhar perdido no nada.
Bati no vidro. Ela levou um susto leve e destravou a porta.
— Entra. — murmurou.
Entrei e fechei a porta com cuidado demais para alguém que queria socar o mundo.
— O que aconteceu? — perguntei.
Ela contou. Tudo.
A reunião.
Zayden.
A denúncia anônima.
A suspensão “preventiva”.
Viviane.
Enquanto ela falava, algo em mim se reorganizava. Não era raiva pura. Era estratégia. Defesa. Proteção.
Quando ela terminou, ficou um silêncio pesado entre nós.
— Ele está por trás disso. — eu disse.
— Eu sei. — ela respondeu. — Mas eles não têm provas. Só… suposições.
— Não precisam de provas para machucar. — murmurei. — Só precisam de narrativa.
— Eu não sei o que fazer, Adrian. Acho que foi um erro ter me aproximado muito de você. Isso pode acabar com sua carreira também...
— Não… — eu disse baixo, quase para mim mesmo. — Ele já ia fazer isso.
Lianna me encarou.
— O quê?
Eu passei a mão pelo rosto devagar. Não era cansaço. Era contenção.
— Eu sabia que a denúncia viria. — falei. — Só não sabia quando.
Ela empalideceu.
— Você… sabia?
— Suspeitava. — corrigi. — Desde o dia em que ele te viu comigo no hospital. Desde a reunião. Desde que ele percebeu que perdeu o controle sobre você.
Lianna soltou uma risada curta, incrédula.
— Então eu fui afastada… porque ele não aceita que eu segui em frente.
— Você foi afastada porque ele não suporta perder território. — respondi. — E você era território dele.
O silêncio entre nós ficou denso.
— Adrian… — ela disse, com a voz quebrando um pouco — isso pode destruir minha carreira.
Eu me virei completamente para ela.
— Não vai.
— Você não pode prometer isso.
— Posso. — falei firme. — Porque isso não é só pessoal. É crime institucional. Assédio. Perseguição. Manipulação de poder. E ele deixou rastros.
Ela respirava rápido agora.
Eu me aproximei, encostei a testa na dela.
— Então descansa. — murmurei. — Porque agora quem luta sou eu.
Ela respirou fundo, e uma lágrima finalmente escapou.
— Ele não vai parar, Adrian.
— Eu sei.
— Ele vai usar as crianças.
Meu maxilar travou.
— Se ele ousar… — comecei, mas parei. Respirei fundo. — Não. Não vou falar isso. Mas vou impedir antes.
Ela me olhou.
— Como?
— Advogado. — enumerei. — Registro formal de perseguição. Medidas protetivas. E, se necessário… exposição.
— Você sabe que isso pode virar escândalo.
— Eu quero o escândalo. — respondi. — Porque homens como ele só recuam quando o mundo começa a olhar.
Ela ficou em silêncio, assimilando.
— E enquanto isso… — ela perguntou — eu fico afastada. Sem trabalho. Sem rotina.
— Você fica em casa. — disse. — Comigo. Com as crianças. Em segurança.
— E se ele aparecer?
Eu dei um sorriso frio.
— Então ele vai aprender, finalmente, que você não está mais sozinha.
Ela fechou os olhos, respirando fundo.
— Adrian… — disse baixinho — eu tenho medo.
Eu puxei ela para perto, sem pressa.
— Eu também. — confessei. — Mas não o suficiente para te soltar.

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