Entrar Via

Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe! romance Capítulo 92

POV ZAYDEN

O avião pousou em Zurique com a mesma precisão fria que sempre marcou minha vida.

Tudo no lugar. Tudo sob controle. Ou pelo menos… era isso que eu repetia para mim mesmo.

O motorista abriu a porta, e eu entrei no carro sem olhar para trás. O hospital de Genebra já parecia distante demais para ser uma ameaça real. Lianna afastada. Denúncia feita. Diretoria pressionada. O tabuleiro reorganizado.

Vitória silenciosa. Eu deveria estar satisfeito. Mas a verdade é que o silêncio dentro de mim estava alto demais.

Quando cheguei em casa, ouvi a voz antes mesmo de entrar.

— Você é completamente inútil? — Camille gritava. — Eu mandei separar os vestidos claros dos escuros! Isso é básico!

Parei no hall, sem ser notado de imediato.

O funcionário, um rapaz jovem, claramente constrangido, murmurava um pedido de desculpas, curvado, pequeno demais diante da fúria dela.

Camille estava impecável, como sempre. Linda. Fria. Cruel sem esforço.

— Sai da minha frente antes que eu peça sua demissão — ela cuspiu.

O rapaz saiu apressado.

Eu continuei ali, parado, observando.

E então… sem pedir licença, Lianna surgiu na minha mente.

Ela nunca levantava a voz. Nunca. Mesmo quando tudo dava errado. Mesmo quando a equipe errava. Mesmo quando eu… errava. Ela resolvia.

Com firmeza. Com clareza. Com humanidade.

— Não foi intenção, vamos corrigir — ela dizia. — Respira, a gente resolve — ela repetia. — Errar faz parte, aprender é obrigatório — ela ensinava.

Inclusive a mim. Senti algo estranho no peito. Uma pressão incômoda.

Camille passou por mim sem notar meu olhar distante.

— Zayden, você chegou cedo — disse, num tom que tentava ser doce, mas nunca era. — Tivemos um problema ridículo com a equipe. Gente incompetente me cansa.

Eu apenas assenti.

Ela continuou falando, mas minha mente já não estava ali.

Estava em Genebra.

No hospital.

No corredor.

No olhar firme de Lianna quando me disse que eu não tinha mais poder sobre a vida dela.

Uma pontada atravessou meu estômago.

Às vezes… e eu odiava admitir isso, às vezes eu sentia falta da forma como ela conseguia me desmontar sem nunca me humilhar.

Ela nunca precisou gritar comigo. Ela apenas… me olhava. E eu sabia que tinha ido longe demais.

Mas isso acabou. Eu acabei com isso. A melancolia tentou se instalar. Eu a esmaguei.

Porque saudade é coisa de quem perde. E eu não perco.

— Camille — interrompi, seco.

Ela parou.

— O que foi?

— Chega. — minha voz saiu fria. — Não preciso ouvir isso agora.

Ela me olhou surpresa, ofendida.

— Você está estranho desde que voltou de Genebra.

— Não comece. — respondi.

Ela revirou os olhos e saiu.

Fiquei sozinho na sala enorme. Silenciosa. Perfeita. Vazia. Foi então que a imagem voltou. As crianças.

Os gêmeos.

O menino tinha o mesmo jeito de andar que eu tinha quando criança. O mesmo franzir de testa. O mesmo silêncio observador.

E a menina… a menina tinha o olhar de Lianna. Mas havia algo mais ali. Algo meu.

Minha mandíbula travou.

— Não… — murmurei.

Ela mentiu. Ela escondeu duas crianças. Durante anos. A mulher que eu achei que conhecia. A mulher que me olhava como se eu fosse o mundo. Ela não era tão pura assim.

A raiva subiu quente, substituindo qualquer sombra de culpa. Se aquelas crianças fossem minhas… Se ela me roubou isso… Se outro homem tocou o que era meu…

— Não fala do que você não sabe — respondi.

Camille se aproximou outra vez, agora mais cuidadosa, deslizando a mão pelo meu pescoço.

— Eu sei que você está estressado. — sussurrou. — A gente pode relaxar juntos. Como antes.

Antes. Antes de eu perceber tudo o que perdi. Ela tentou me beijar. Eu virei o rosto. O gesto foi mínimo, mas definitivo.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— Então é isso? — ela perguntou, magoada e irritada. — Você volta de viagem e não me quer?

— Não agora.

— Quando, então?

Pensei em responder. Pensei em mentir.

Mas a verdade escapou antes que eu pudesse impedir.

— Eu não sei.

Ela me encarou como se eu tivesse acabado de quebrar algo.

— Você nunca diz “não sei”.

Pois é.

Camille respirou fundo, recompôs o rosto bonito numa máscara fria.

— Você anda diferente desde Genebra — disse. — É sobre ela né?… — ela fez um gesto vago. — Lianna.

Meu olhar subiu lento.

— Não ouse.

— Eu só estou dizendo que você voltou obcecado. — ela cruzou os braços. — Como se tivesse deixado algo lá.

Deixei. Quatro pares de olhos que podem ser meus.

— Isso não é da sua conta.

— Tudo na sua vida acaba sendo. — respondeu, ferida. — Inclusive quando você para de me tocar.

Ela virou as costas e saiu. Fiquei sozinho de novo.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!