POV LIANNA
O dia começou silencioso demais.
Depois de deixar Selina e Selin na escola, fiquei alguns segundos parada dentro do carro, as mãos ainda no volante, observando o portão fechar atrás deles. Sempre havia um aperto, aquele fio invisível que liga mãe e filhos, mas naquela manhã ele veio mais tenso, mais alerta. Talvez fosse o cansaço acumulado. Talvez fosse o medo que ainda morava em mim, mesmo quando eu fingia que não.
Decidi não ir para casa.
Segui até a cafeteria-biblioteca a duas quadras da escola. Um lugar antigo, com estantes altas, mesas de madeira gasta e o cheiro confortável de café forte misturado com papel velho. Era o tipo de lugar onde o tempo desacelera sem pedir permissão. Exatamente o que eu precisava.
Pedi um cappuccino, escolhi uma mesa perto da janela e abri um caderno que eu nem lembrava quando tinha comprado. As páginas em branco me encaravam como se dissessem: respira. Eu respirei.
Passei a manhã ali. Li alguns trechos soltos, escrevi frases que não se conectavam, rabisquei círculos distraídos. Observei pessoas entrando e saindo. Pensei em Adrian... no cuidado silencioso, no jeito firme que me fazia sentir segura sem me prender. Pensei nos gêmeos, na festa, nos risos espalhados pelo jardim. Pensei… demais.
Quando dei por mim, a tarde já estava caindo. O sol atravessava a janela em faixas douradas, e meu celular vibrou com o lembrete de sempre: buscar as crianças.
Guardei tudo com calma. Paguei a conta. Saí.
O caminho até a escola foi curto demais para organizar os pensamentos. Estacionei do outro lado da rua, como de costume, e atravessei com passos tranquilos. Havia mais pais do que de manhã. Vozes, mochilas, risadas. Normal.
Normal até deixar de ser.
Eu os vi antes de entender.
Zayden estava sentado em um banco próximo ao portão, de costas para mim, o corpo relaxado demais para alguém que não pertencia àquela rotina. Selina estava ao lado dele, as perninhas balançando, contando alguma coisa com as mãos. Selin, em pé, sério como sempre, escutava atento.
Meu coração parou.
Literalmente.
O mundo afinou para um zumbido distante, e tudo o que restou foi aquela imagem impossível. A cor do cabelo dele. A postura. A familiaridade com que as crianças ocupavam o espaço ao redor. Não havia toque excessivo. Não havia ameaça visível. Havia algo pior: naturalidade.
Dei um passo à frente sem sentir os pés.
— Mãe! — Selina me viu primeiro. O sorriso abriu largo. — Você chegou!
Zayden virou o rosto devagar.
O olhar dele encontrou o meu como uma lâmina encontra a pele. Sem pressa. Sem surpresa. Como se ele tivesse esperado por aquilo o dia inteiro.
— Lianna — ele disse, baixo, controlado.
Meu corpo reagiu antes da cabeça. Aproximei-me das crianças, toquei o ombro de Selina, depois o de Selin. Um gesto simples. Um gesto de posse.
— O que está acontecendo aqui? — perguntei, mantendo a voz firme por um milagre.
— Encontramos ele ali — Selin respondeu, honesto demais. — Ele disse que era seu amigo.
Zayden inclinou a cabeça, quase respeitoso.
— Eu estava passando — mentiu com elegância. — Vi as crianças. Reconheci você neles.
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