POV SELIN
A casa parecia maior quando a gente chegou.
Não vazia, maior. Como se os sons tivessem mais espaço pra ecoar. A porta fechou atrás da gente, e eu reparei em coisas que normalmente não reparava: o jeito que a chave girou duas vezes, o silêncio logo depois, o suspiro que a mamãe tentou esconder.
— Banho primeiro — ela disse, firme demais.
Selina saiu correndo, como sempre. Eu fui atrás, mas deixei ela entrar no banheiro antes. Não sei por quê. Só deixei. Fiquei esperando no corredor, contando mentalmente os azulejos quebrados da parede até decidir que eu também precisava me mexer.
Quando entrei no banho, a água quente bateu nas costas e levou o cheiro da rua embora. Fiquei ali parado mais tempo do que precisava. Pensando.
No homem do banco.
Ele não sorriu como os outros adultos. Não falou alto. Não fez perguntas idiotas. Só ouviu. Prestou atenção quando Selina falava do bolo. Me olhou como se estivesse… calculando. Como se quisesse entender algo que já suspeitava.
Isso me incomodou.
Troquei de roupa rápido. Camiseta cinza, bermuda. Saí do quarto e vi que Selina ainda estava no banho, cantando desafinado como se nada tivesse acontecido. Como se o mundo fosse simples.
Desci as escadas devagar, procurando a mamãe. Ela não estava na cozinha. Nem na sala.
Foi aí que ouvi.
A voz dela vinha do escritório pequeno, aquele que quase nunca entramos. A porta estava encostada. Não estava fechada. Só o suficiente para não ser óbvio.
— Adrian… — ela disse.
Eu não ia escutar. Não era certo. Eu sabia disso. Mas meus pés não obedeceram. Fiquei parado no último degrau da escada, com a mão no corrimão, segurando a respiração como se isso pudesse me tornar invisível.
— Você não entende… — a voz da mamãe falhou. — Ele estava sentado com as crianças. Na frente de todo mundo.
Meu estômago apertou.
Então era sobre hoje.
— Não, Adrian, não é exagero. — Ela respirou fundo, como faz quando está prestes a chorar. — Eles não podem saber sobre ele. Sobre o pai.
Pai.
A palavra bateu diferente.
— Ele é ruim. Você sabe. — A voz dela ficou mais baixa. — Eu tenho medo.
Eu engoli seco.
— Medo de quê? — a voz do tio Adrian veio abafada pelo telefone, mas firme.
— De perder tudo — ela respondeu sem hesitar. — Meus filhos são tudo pra mim.
Tudo.
Senti algo estranho no peito. Um misto de orgulho e… confusão.
Pai.
O homem sério da escola.
Eu tentei lembrar do rosto dele com mais cuidado. A forma como se sentou. Como não parecia nervoso. Como olhou pra Selina com curiosidade… e pra mim com atenção demais.
Será que…
— Selin? — a voz da mamãe soou perto demais de repente.
Eu dei um pulo.
Ela estava na porta do escritório, o telefone ainda na mão, os olhos vermelhos. Chorando de verdade. Não daquele jeito silencioso que ela acha que a gente não percebe. Chorando mesmo.
— Eu… — minha voz saiu pequena. — Eu estava procurando você.
Ela desligou o telefone rápido demais.
— Há quanto tempo você está aí?
Eu pensei em mentir. Mas alguma coisa dentro de mim não deixou.



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