POV ZAYDEN
Dois dias.
Quarenta e oito horas que se arrastaram como uma tortura meticulosa, calculada para me manter no limite entre a lucidez e a obsessão. Eu não dormi direito. Não comi direito. Trabalhei no automático, assinando papéis, resolvendo reuniões, demitindo gente sem nem lembrar do rosto depois.
Tudo parecia irrelevante. Porque tudo era irrelevante.
Meus olhos voltavam ao celular a cada cinco minutos, mesmo sabendo que não adiantava. Eu odeio esperar. Sempre odiei. Esperar é uma forma de submissão e eu nunca me submeti a nada.
Mas aquilo… aquilo era diferente.
Aquilo não era sobre controle. Era sobre confirmação.
Era noite quando a mensagem chegou.
Eu estava sozinho no escritório, a cidade deitada aos meus pés através da parede de vidro. Um copo de uísque intacto na mesa, o terceiro da noite que eu não toquei. Minha mente estava afiada demais para álcool.
O celular vibrou. Uma única vez. Curta. Precisa.
Meu corpo inteiro respondeu como se tivesse levado um choque. Eu olhei para a tela.
Laboratório: Resultado disponível. Acesso seguro liberado.
Por um segundo, um mísero segundo, algo como medo passou por mim. Não de estar errado. Mas de estar certo demais.
Fechei os olhos. Respirei fundo.
Era ridículo. Eu já sabia. Cada instinto, cada célula do meu corpo sabia. Mesmo assim, aquela confirmação tinha o peso de um veredito. Algo que muda o antes e o depois. Algo que não se desinventa.
Toquei na tela.
O sistema pediu autenticação. Digital. Código. Outra camada de segurança. O laboratório sabia com quem estava lidando.
Quando o arquivo abriu, eu não rolei de imediato.
Li meu nome primeiro.
Paciente 1: Zayden
Idade. Dados genéticos. Amostra válida.
Depois, o outro.
Paciente 2: Menor — Selin —
Idade: 7 anos.
O nome dele ali, preto no branco, me atingiu no peito como um soco silencioso.
Selin.
Rolei a tela devagar.
O relatório era técnico. Frio. Percentuais, marcadores genéticos, compatibilidades. Linguagem clínica para algo que não tinha nada de clínico.
E então, a linha final.
Probabilidade de paternidade: 99,9998%
Conclusão: PATERNIDADE CONFIRMADA.
O mundo não explodiu. Não houve barulho. Não houve vertigem. Não houve queda. O que houve foi pior.
Silêncio.
Um silêncio absoluto, pesado, que tomou o ambiente como se o ar tivesse sido sugado para fora do escritório. Eu fiquei imóvel, o celular na mão, encarando aquelas palavras como se elas fossem vivas.
Confirmada. Não suspeita. Não possibilidade. Não margem de erro.
Confirmada.
Meu maxilar se contraiu com força. Senti um calor estranho subir pelo peito, espalhar-se pelos braços, pelas mãos. Não era euforia. Não era raiva.
Era algo mais primitivo. Reconhecimento.
Como se algo que sempre me pertenceu finalmente tivesse dito: estou aqui.
Ela fugiu quando soube. Fugiu porque me conhecia. Porque sabia que, se eu soubesse, nada no mundo me impediria. E ela estava certa.
Meu peito se expandiu numa respiração lenta, controlada. O caos interno começou a se alinhar, como sempre acontece quando a decisão se forma.
Primeiro: meus filhos não ficariam mais escondidos.
Segundo: ninguém mais tocaria neles sem a minha permissão.
Terceiro: Adrian.
O nome veio como um gosto amargo.
O médico. O protetor improvisado. O homem que achou que podia ocupar um espaço que nunca foi dele.
Um erro comum.
Levantei-me e fui até o bar. Desta vez, servi o uísque. Bebi de uma vez só. O álcool queimou, mas não nublou nada.
— Você perdeu — murmurei, pensando nele. — Antes mesmo de saber que estava jogando.
Peguei o celular novamente. Não liguei para Lianna. Ainda não.
Isso não seria feito por telefone. Nem por impulso. Lianna merecia, e temia, algo maior. Definitivo. Um encontro sem saída elegante.
Eu queria ver o rosto dela quando entendesse que não havia mais fuga possível.
Que o passado tinha fechado o cerco.
Olhei mais uma vez para o relatório. Para o nome de Selin. Para a palavra confirmada. Uma sensação estranha me atravessou. Não era vitória. Era responsabilidade. Algo pesado. Intransferível. Irrevogável.
— Eu vou até o fim por vocês — disse em voz baixa. — Mesmo que você me odeie por isso, Lianna.
Guardei o celular no bolso interno do paletó, exatamente onde havia guardado o lenço dois dias antes. Tudo fechando ciclos. Tudo se encaixando.
Lá fora, a cidade seguia viva, alheia ao terremoto que acabara de acontecer.
Eles ainda não sabiam. Mas saberiam. Muito em breve. E quando soubessem… Nada mais seria como antes.

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