POV LIANNA
Eu acordei com a sensação errada.
Não foi um barulho. Não foi um pesadelo. Foi aquela impressão silenciosa de que algo mudou enquanto você dormia, como quando o ar pesa antes da chuva.
Abri os olhos devagar.
O quarto ainda estava em penumbra. O relógio marcava 6h04. Adrian dormia ao meu lado, de costas, a respiração tranquila demais para o nó que se formava no meu peito.
Observei o rosto dele por alguns segundos. A barba por fazer. A linha tranquila da boca. A calma de quem ainda acredita que o mundo segue regras justas.
Eu queria ficar ali. Congelar aquele instante. Fingir que minha vida finalmente tinha encontrado um eixo seguro.
Mas o medo não deixa.
Levantei com cuidado para não acordá-lo. Vesti um moletom, prendi o cabelo e fui até o corredor. A casa estava silenciosa. Grande demais. Bonita demais. Segura demais para a tempestade que rondava.
Passei pelo quarto das crianças.
Selin dormia de lado, abraçando o travesseiro como se estivesse sempre pronto para proteger algo. Selina dormia espalhada, um braço jogado para fora da cama, o rosto tranquilo.
Me apoiei na porta.
— Meus amores… — murmurei.
O encontro na escola ainda martelava na minha cabeça. O banco. A postura dele. A naturalidade absurda com que se sentou ao lado dos meus filhos como se tivesse esse direito.
Como se sempre tivesse tido.
Desci para a cozinha e coloquei a cafeteira para funcionar. Minhas mãos tremiam levemente. Ignorei. Respirei fundo.
Você está segura, Lianna.
Você os protegeu por sete anos.
Ele não pode simplesmente aparecer e destruir tudo.
Mas podia.
E era isso que me apavorava.
Meu celular vibrou em cima da bancada.
Congelei.
O visor acendeu.
Número desconhecido.
Meu coração acelerou. Não atendi. Deixei vibrar até parar. Segundos depois, outra notificação.
Uma mensagem: Precisamos conversar. Não é mais uma escolha.
O ar sumiu dos meus pulmões.
Não precisava de assinatura. Não precisava de ameaça explícita. Eu sabia exatamente quem era.
Zayden.
A xícara escorregou da minha mão e bateu na pia, espalhando café quente. Não senti o calor. Não senti nada além do pânico subindo rápido demais.
— Lianna?
A voz de Adrian veio da escada. Ele apareceu no fim do corredor, já acordado, camiseta cinza, olhar atento.
— O que houve?
Eu levantei o celular com a mão trêmula. Ele leu a mensagem em silêncio.
O maxilar dele travou.
— Ele voltou a te procurar.
Não era uma pergunta.
Assenti.
— Eu não respondi. — minha voz saiu baixa. — Eu estou com medo. — senti os olhos arderem. — E eu estou com medo. Medo de ele fazer exatamente o que sempre fez: entrar devagar, parecer razoável, e quando eu perceber… já estar tudo fora do meu controle.
Adrian se aproximou e segurou meus ombros.
— Ele não manda mais em você.
— Ele nunca mandou — respondi, amarga. — Ele só me fez acreditar que mandava.
Silêncio.
Ele me puxou para um abraço firme. Não apertado. Presente.
— Nós vamos lidar com isso juntos. — disse. — Mas você não pode enfrentar sozinha.
— Eu sei… — sussurrei contra o peito dele. — Só não sei como impedir que ele chegue neles.
Essa era a verdade nua.
Não era sobre mim.
Era sobre Selin e Selina.
***
O resto da manhã passou num borrão.
A confirmação veio sem necessidade de mais palavras.
Minhas mãos começaram a tremer de verdade agora. O celular quase caiu.
— Não… — murmurei. — Não, não, não…
Ele não podia saber.
Mas sabia.
A porta da casa fez um leve estalo. Adrian entrou, ainda falando ao telefone, mas parou ao me ver no sofá, pálida, com o celular apertado contra o peito.
— Lianna?
Levantei o olhar.
— Ele sabe.
O silêncio que se seguiu foi pesado como chumbo.
Adrian desligou o telefone devagar.
— Sabe o quê?
Minha voz saiu quebrada.
— Sobre eles.
O rosto dele endureceu.
— O que ele disse?
Mostrei a mensagem.
Adrian leu.
Uma única vez.
E aquilo foi suficiente.
— Nós vamos antecipar tudo. — ele disse, firme. — Advogado. Medidas legais. Segurança. E você não vai ficar sozinha em nenhum momento.
— Adrian… — senti o medo virar exaustão. — Eu não quero guerra.
Ele se ajoelhou à minha frente.
— Eu sei. — segurou meu rosto. — Mas algumas guerras escolhem a gente. E quando isso acontece… a única opção é proteger quem a gente ama.
Meu peito apertou.
Porque naquele instante, eu soube: O cerco tinha começado. E não era Zayden o único perigo. Era o passado inteiro tentando me puxar de volta.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!