OLIVIA
Quando chegamos ao cemitério e Xander encostou uma faca na minha garganta, perdi completamente a razão, sem saber ao certo o que havia acontecido, embora suspeitasse que meu cérebro tivesse bloqueado tudo para me proteger. Ele tinha me entorpecido emocionalmente com um único objetivo: fazer com que eu assistisse enquanto me abatia como um animal.
Aquele homem era doentio e distorcido além de qualquer medida, e cada instante em que o frio aço da faca pressionava minha pele só servia para me lembrar da escuridão que habitava dentro dele. Ele não queria apenas me matar, mas também desejava ver meu sofrimento e me quebrar mentalmente antes de dar fim a tudo.
Eu sabia que, quando tudo acabasse, não sentiria mais nada, pois o medo e o pavor desapareceriam assim que meu corpo cedesse. No entanto, essa certeza não me trazia conforto algum, porque eu não queria suportar aquilo da forma cruel que ele me impunha. Sim, a morte era inevitável, porém eu não queria sentir a violência e a brutalidade do ato. Não queria vivenciar aquilo, mesmo que fosse a última coisa que experimentaria…
Então, o disparo ecoou. A princípio, pareceu distante, como se não fosse direcionado a mim, mas, em seguida, o som invadiu minha consciência, e percebi que estava acontecendo. Fiquei imóvel naquele instante, envolta por um silêncio estranho, como se tudo ao redor tivesse congelado, e senti como se eu já não estivesse mais presente ali. Apenas o meu corpo permanecia, um invólucro vazio, ao mesmo tempo que minha mente se desligava, tomada pelo terror absoluto da situação.
Foi então que, através da névoa, eu o vi: Marcus. Meu coração deu um salto de forma estranha e inesperada, mas, assim que foquei nele, uma onda de incerteza me envolveu. "Seria realmente ele, ou minha mente estava pregando peças? Diziam que, quando alguém estivesse à beira da morte, sua vida desfilaria diante dos olhos e seria envolvido por lembranças e pelos rostos das pessoas que amava."
Acreditei que fosse isso, que ver Marcus era o último ato de misericórdia da minha mente, um lembrete do amor e da vida que eu tinha vivido. No entanto, em vez de enxergar tudo o que eu pensava que seria mais importante naquele momento, eu só o via. Esperei pela próxima imagem, esperei pelos rostos dos meus filhos, pelas memórias da nossa vida juntos, mas, em vez disso, vi apenas homens de terno preto, com rostos sombrios e frios. Era uma visão tão estranha e perturbadora que parecia um pesadelo do qual eu não conseguia acordar.
"Por que eles estavam ali? O que aquilo significava?" As figuras em preto pairavam sobre mim, fazendo meu coração disparar, mas nada fazia sentido. Não eram as imagens reconfortantes do riso dos meus filhos nem o calor do lar, e sim algo inquietante e errado. Ainda assim, permaneciam ali, distantes, com rostos ocultos que pareciam representar algo muito mais sombrio do que eu poderia compreender. Enquanto isso, minha mente tentava encaixar as peças, mas a realidade se desfazia cada vez mais diante de mim.
Eu não sabia o que estava acontecendo, se Xander tinha conseguido cortar minha garganta e eu estava morrendo, ou se ele havia atirado em mim… Não sabia, apenas continuava ouvindo a voz de Marcus ao longe, suave e tranquilizadora, dizendo que tudo ficaria bem e que eu estava segura. Parecia tão real, tão acolhedor, que me agarrei a isso como a uma tábua de salvação.
No meio do caos dos meus pensamentos, decidi focar apenas naquela voz, não importando o quão distante ou fugaz soasse, pois mesmo que minha mente estivesse criando ilusões para me proteger da verdade, recusei-me a encarar o medo que me dilacerava, o temor de que eu estivesse partindo e de que a morte estivesse se aproximando. Em vez disso, concentrei-me na calma das palavras dele, na promessa de segurança, ainda que fosse apenas fruto da minha imaginação.
Em seguida, fui erguida com suavidade, tão leve que parecia flutuar, e, envolta por uma atmosfera quase etérea, percebi que estava sendo levada para algum lugar, enquanto ao meu redor tudo se tornava nebuloso e quebrado, tal qual uma memória antiga e esmaecida. E ainda que eu sentisse o deslocamento e reconhecesse o movimento, todo o resto se mostrava embaçado e longínquo.
O som familiar da voz de Marcus atravessou o meu pânico e, embora cada parte racional de mim gritasse que eu poderia estar alucinando, senti uma paz estranha me envolver. Era como se, no instante mais sombrio, eu tivesse encontrado um lampejo de luz.
Eu não sabia se realmente o ouvia ou se minha mente o criara para evitar que eu me perdesse por completo, mas isso não importava, pois, naquele momento, escolhi acreditar que era real. Escolhi acreditar que meu marido estava ali, mesmo que eu não pudesse vê-lo e mesmo sem entender o que acontecia comigo.
Afinal, a mente tinha um poder imenso, podendo nos proteger e nos conduzir a ver e ouvir apenas o que precisamos, mesmo quando a verdade é dura demais para suportar. Era capaz de criar consolo nas situações mais impensáveis, levando-nos a acreditar no improvável. Eu não tinha certeza se Marcus estava realmente ali ou se minha mente o havia inventado para aplacar meu medo, porém me prendi às suas palavras com toda a força que me restava.
— Fique comigo. — Sua voz sussurrou, suave e firme, exatamente como sempre tinha sido. — Você não está sozinha.
E, pela primeira vez em algo que pareceu uma eternidade, eu confiei nele.

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