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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 122

POV Heitor

O quarto do hotel estava escuro, as cortinas pesadas bloqueando qualquer sinal da manhã que nascia lá fora. Eu gostava assim, abafado, silencioso, invisível. Era exatamente isso que eu havia tentado ser nos últimos meses: invisível.

Mas a invisibilidade cobra um preço.

Minha barba já crescia sem forma, o cabelo passava da altura que eu sempre mantive, e o reflexo que me encarava no espelho do banheiro parecia o de um estranho. Eu havia trocado carros, roupas, até o meu nome em certos lugares, tudo para apagar rastros. E, ainda assim, algo me perseguia: a sensação de que o mundo continuava girando sem mim.

Eu tinha me convencido de que era melhor assim. Melhor para Isa, melhor para mim. Um afastamento necessário, um castigo autoimposto.

Até hoje.

Peguei o celular velho que usava apenas para acessar a internet e checar notícias gerais. Um hábito tolo, mas era minha única conexão com o que restava do mundo. Abri o portal de fofocas quase no automático, esperando ver apenas escândalos banais, manchetes rasas.

Mas lá estava.

“Isadora Ferraz, ex-esposa de Heitor Montenegro, se casa em cerimônia privada com o escritor e dono da editora Vertigem Dante Harrison.”

Senti o ar escapar dos meus pulmões como se tivesse levado um soco.

Li de novo. E de novo. As palavras pareciam zombar de mim, cada letra gravando fogo na minha mente.

Ela se casou.

Meu coração disparou, a boca secou. Rolei a tela e encontrei fotos: Isa de branco, radiante, o vestido caindo sobre seu corpo como se tivesse sido feito para ela. Dante ao lado, sorrindo, com a mão segurando a dela.

Eles pareciam… felizes.

Meu peito se contraiu em um misto de dor e raiva. Parte de mim queria acreditar que ela não podia estar feliz de verdade, que aquele sorriso era apenas mais uma máscara. Mas eu a conhecia. Conhecia cada detalhe do jeito que seus olhos brilhavam. E ali, naquela foto, ela estava realmente feliz.

E não era comigo.

Fechei os olhos, tentando afastar a sensação de sufoco.

Mas não parava por aí. Continuei lendo, até encontrar o detalhe que mudou tudo:

“A cerimônia, que contou apenas com amigos próximos e familiares, foi marcada por um episódio inesperado: a presença de Leyla Torres, amiga de infância da noiva, que não constava na lista de convidados. Testemunhas relataram um momento de tensão entre as duas.”

Meu corpo inteiro enrijeceu.

Leyla.

O nome dela acendeu todas as luzes vermelhas na minha mente. Eu sabia que aquela mulher não estava de volta à cidade por nostalgia. Muito menos por amizade.

E se Leyla estava se aproximando de Isa… era porque alguém tinha aberto a porta para isso.

Só havia uma pessoa capaz de armar algo assim.

Minha mãe.

— Maldita seja… — murmurei, passando a mão pelo rosto.

Senti a raiva crescer como uma tempestade, me arrancando da apatia que me dominava há meses. Isa casando já era um golpe duro demais. Mas Leyla? No casamento dela? Isso não era coincidência. Era estratégia. Era manipulação.

E eu não ia ficar parado.

Joguei o celular na cama, comecei a andar pelo quarto como uma fera enjaulada. Minhas mãos tremiam, o corpo inteiro vibrava de adrenalina. Não importava o quanto eu tivesse tentado fugir, esconder, me enterrar no anonimato. Havia chegado a hora de encarar o que eu deixei para trás.

Havia chegado a hora de encarar minha mãe.

Peguei a mala que ficava encostada no canto, ainda com algumas roupas. Vesti a primeira camisa limpa que encontrei, amarrei os tênis sem pensar duas vezes.

No espelho, o homem que me encarava parecia decidido. Não era mais o fantasma que se escondia. Era alguém pronto para sair da escuridão.

No elevador, minha respiração estava descompassada. As portas se abriram e o mundo me atingiu com sua claridade.

— Heitor, meu filho… você realmente acha que pode simplesmente desaparecer e que o mundo vai parar de girar? Eu tive que agir. Leyla é útil. E Isa… Isa precisa aprender que não pode simplesmente cortar os laços com a nossa família sem consequências.

Senti minhas mãos se fecharem em punhos.

— Você passou todos os limites.

— Limites? — ela riu, seca. — Você fala de limites depois de fugir como um covarde? Você fala de limites depois de abandonar o seu lugar, o seu nome, a sua mãe? Eu apenas fiz o que você não teve coragem de fazer.

Aquelas palavras doeram como facadas, mas eu não recuei.

— Você não entende, mãe. Eu a perdi por sua causa. Tudo que restava era respeitar a escolha dela.

— Respeitar? — ela ergueu a voz, impaciente. — Isadora sempre foi um empecilho. Uma mulher fraca, uma sombra. Você era o herdeiro Montenegro, Heitor. E agora ela ri de você ao lado de outro homem.

— Não. — minha voz saiu firme, quase um rugido. — Ela não é fraca. Ela é mais forte do que todos nós juntos. E é justamente por isso que você nunca conseguiu quebrá-la.

Por um segundo, vi a máscara de Célia vacilar. Mas logo ela se recompôs.

— Pouco importa. Leyla já está dentro do círculo dela. E quando chegar a hora certa, Isadora vai perceber que felicidade nunca dura.

Meu estômago revirou. Era como se finalmente enxergasse o quadro completo.

Minha mãe e Leyla. Aliadas.

E Isa no centro do tabuleiro.

— Eu não vou permitir isso. — declarei. — Não vou deixar você destruir o pouco que resta da vida dela.

Célia riu de novo, como se minhas palavras fossem infantis.

— E o que vai fazer, Heitor? Você mal consegue enfrentar a si mesmo.

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