POV Dante
O relógio marcava quase oito da noite quando a última reunião terminou.
Minha cabeça latejava. Três fusões, cinco clientes internacionais e o nome Harrison estampado em cada e-mail que chegava.
De repente, percebi o que meu pai sempre quis dizer com “o peso do legado”.
E o quanto ele esperava que eu carregasse esse peso sorrindo.
Fechei o notebook, afrouxei a gravata e me encostei na cadeira, exausto.
O barulho distante do escritório ainda fervilhava, passos, vozes, copos de café sendo deixados sobre mesas.
Eu queria ir pra casa.
Queria ver Isa, sentir o cheiro de Sofia, o riso baixinho dela.
Mas antes que eu pudesse levantar, ouvi batidas na porta.
— Entra — murmurei, sem muita energia.
Camila apareceu.
Um sorriso ensaiado, aquele tipo de sorriso que parece espontâneo, mas é calculado.
— Não sabia se podia interromper o novo diretor. — A voz dela vinha leve, divertida.
— Pode. Desde que traga boas notícias.
Ela entrou, equilibrando uma pasta e um tablet.
— Sempre trago. Fechei o contrato da Falkner.
Assobiei, surpreso. — Isso é ótimo.
— Eu sei. — Sentou-se diante da mesa, cruzando as pernas. — E achei que poderíamos comemorar.
— Comemorar? — arqueei a sobrancelha.
— Um jantar. — Ela apoiou o queixo na mão. — Só nós dois. Reunião informal, se preferir esse termo.
O jeito como ela disse “só nós dois” soou mais sugestivo do que profissional.
Camila sempre teve esse tom, desde a faculdade.
Mas naquela época, eu nunca passei da linha.
Porque, naquela época, existia apenas meu foco em fugir do trono Harrison.
Respirei fundo, tentando não parecer desconfortável.
— Camila, eu aprecio o convite, mas…
— É sobre os relatórios também — ela interrompeu, ligeira. — Há números que quero te mostrar, e você não vai ter tempo pra isso no escritório.
Fiquei em silêncio.
Ela percebeu a hesitação e sorriu, vitoriosa.
— Não é nada demais, Dante. — Sua voz ficou mais baixa. — Só trabalho.
Eu poderia recusar.
Mas, naquele instante, uma ideia começou a se formar, algo entre vingança e ironia. Ela queria um jantar “a dois”? Pois teria.
Só que com Isadora junto.
Talvez fosse bom pra ela entender que minha vida não tinha mais espaço pra antigas ilusões.
E talvez fosse bom pra Isa também, mostrar que não havia segredos, que tudo entre Camila e eu era estritamente profissional.
— Tudo bem — disse, por fim. — Amanhã à noite.
Camila sorriu, satisfeita.
— Perfeito. Eu reservo o restaurante.
— Faça isso.
Quando ela saiu, permaneci olhando para a porta fechada, já imaginando a tempestade que viria.
***
No dia seguinte, cheguei em casa mais cedo.
Sofia dormia, e Isa estava no quarto, trocando de roupa.
Quando entrei, ela se virou, surpresa.
— Dante? — O sorriso dela foi automático, doce.
— Achei que fosse chegar tarde de novo.
— Surpresa. — Aproximei-me, beijando-lhe o topo da cabeça. — Resolvi te sequestrar hoje.
Ela riu, ajeitando o cabelo. — Sequestrar?
— Jantar fora. — Falei como quem anuncia algo trivial. — Reservei um lugar.
— Jantar fora? — Seus olhos brilharam por um instante. — Achei que isso nunca mais ia acontecer.
Senti um leve aperto no peito. Ela parecia genuinamente feliz. E por um segundo, eu quis desistir do plano.
Mas era tarde demais.
— Vai ser bom pra nós. — Toquei seu rosto.
— Você, eu, um tempo sem fraldas ou relatórios.
Ela sorriu, o olhar marejado.
— Achei que tinha esquecido como é sair pra jantar com meu marido.
Sorri também, forçado.
Ela não sabia, mas não seria bem o tipo de jantar que imaginava.
***
O restaurante era elegante, discreto. Luz baixa, velas sobre as mesas, música instrumental suave.
Quando chegamos, Isa segurou minha mão, olhando em volta, encantada.
— Faz tanto tempo que não vejo um lugar assim…
— Eu sei. — Sorri, tentando ignorar o nó no estômago. — Espere aqui, vou confirmar a reserva.
O maître me reconheceu imediatamente.
— Sr. Harrison, mesa para três, correto?
Assenti.
— Três? — ouvi a voz de Isa atrás de mim.
Engoli seco e me virei.
— Ah, sim. Eu… convidei alguém da empresa. É uma reunião rápida, nada demais.
Nada.
— Isa…
Ela virou o rosto, finalmente me encarando. Os olhos brilhavam, mas não de emoção. De raiva.
— Você quer mesmo que eu fale?
— Eu quero entender o que houve.
Ela riu, nervosa.
— O que houve? Dante, você passou semanas sem sequer almoçar comigo. Dorme e acorda falando de reuniões. E quando finalmente me chama pra sair, pra um jantar, eu penso: “Ele lembrou. Ele quer passar um tempo comigo.” — A voz dela começou a tremer. — Mas não. Era só pra me arrastar pra um jantar com uma paquera da faculdade.
— Não é isso, Isa. — Tentei manter a calma. — Camila é colega de trabalho.
— Ah, claro. — O sarcasmo cortou o ar. — Por isso ela te olhava como se estivesse em um encontro romântico.
— Você está exagerando.
— Exagerando?! — Ela se virou totalmente pra mim, a raiva agora aberta. — Você não percebe o que faz comigo. Eu passei dias esperando um jantar, achando que seria o nosso momento, e você me transforma em figurante de uma cena que eu nunca quis participar.
Fiquei em silêncio.
Não porque ela estivesse errada, mas porque eu não sabia como consertar.
— Isa… eu só quis ser transparente. Achei melhor você estar junto.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Transparente? Não, Dante. Transparente seria dizer: “Camila me chamou pra jantar, mas quero que você venha também.” Não me enganar achando que era sobre nós.
— Eu não quis te magoar.
— Mas magoou. — A voz dela baixou, quase um sussurro. — E o pior é que nem percebeu.
Encostei a cabeça no volante, frustrado.
— Eu tô tentando equilibrar tudo, Isa. O trabalho, a casa, você, a Sofia.
— Eu sei. — Ela desviou o olhar, respirando fundo. — Mas, às vezes, parece que o equilíbrio que você quer exige que eu desapareça um pouco.
As palavras dela me atingiram. Quis responder, mas nada saiu.
Apenas o som dos pneus na estrada e o choro distante de Sofia quando entramos no portão da mansão.
No quarto, ela colocou a filha no berço, ainda em silêncio.
Fui até ela, hesitante.
— Isa…
Ela se virou, o olhar cansado.
— Eu não quero brigar, Dante. Só quero que você entenda.
— Entendo.
— Não, não entende. — As lágrimas começaram a escorrer, lentas. — Eu não quero luxos, não quero sobrenomes, não quero status. Só quero meu marido de volta.
Fiquei ali, parado, com o coração apertando.
Quis abraçá-la, mas ela deu um passo pra trás.
— Eu preciso respirar, Dante. — Sua voz saiu trêmula. — E você precisa decidir se ainda quer estar aqui… ou só cumprir um papel.
Ela apagou a luz, pegou Sofia no colo e saiu do quarto. Fiquei sozinho, encarando o escuro.
E pela primeira vez desde que voltei à mansão Harrison, percebi que o sucesso que meu pai tanto queria pra mim tinha um preço e que talvez fosse a mulher que eu mais amava.

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