POV Isadora
A casa parecia maior naquela manhã. Ou talvez fosse só o silêncio que deixava cada parede mais distante, cada som mais pesado. Sofia dormia no berço, tranquila, alheia à tempestade que rondava o coração da mãe.
Olhei para ela e pensei que aquele rostinho sereno era a única coisa que ainda me mantinha de pé.
A noite anterior ecoava na minha cabeça. As palavras, os olhares, o jantar. Dante e sua calmaria fria, Camila e aquele sorriso disfarçado de profissionalismo. E eu, tentando fingir que não doía, que não me sentia invisível na vida que construímos juntos.
Peguei o celular. Nenhuma mensagem. Nem uma ligação dele, nem um “me desculpe”, nem um “cheguei bem”. A ausência dele gritou mais alto que qualquer discussão.
Suspirei e olhei o relógio. Quase nove. Eu precisava sair de casa. Respirar ar que não tivesse lembranças. Peguei a bolsa do bebê, preparei mamadeira, fraldas, roupas extras. Em poucos minutos, Sofia estava acomodada no bebê conforto, e eu no volante.
— Vamos visitar a titia Olívia, meu amor — murmurei, beijando-lhe a testa. — Mamãe precisa de colo hoje.
Olívia morava em um apartamento moderno, porém, simples... com plantas por todo canto e uma energia que sempre me fazia sentir em casa.
Quando ela abriu a porta e me viu, seu sorriso desapareceu rápido demais.
— Isa? O que houve? — Ela olhou pra mim, depois pra Sofia. — Entra, vem.
Entrei, e a primeira coisa que senti foi o cheiro de café fresco. Caio apareceu da cozinha, com o cabelo bagunçado e uma caneca na mão.
— Ei, olha quem veio! — Ele sorriu. — A mais linda de todas… — se abaixou diante do bebê conforto — … e a mamãe mais pálida do mundo.
Sorri, sem muita força. Olívia o cutucou.
— Amor, vai preparar mais café. E sem brincar com ela agora, tá?
Caio levantou as mãos, rindo. — Sim, senhora.
Quando ele sumiu pela cozinha, Olívia me puxou pro sofá.
— Tá com uma cara de quem não dorme há dias. O que houve, Isa?
Mordi o lábio.
— Dante.
— Ah. — Ela cruzou os braços.
Soltei um riso fraco. — Dessa vez é diferente.
— Entendi. — Mas o tom dela era doce. — Fala.
Olhei pra Sofia, dormindo tranquila.
— Ontem… ele me chamou pra jantar. Depois de semanas sem tempo pra nada. Eu achei que… sei lá, fosse um gesto, uma tentativa de se reconectar.
— E não foi?
Neguei com a cabeça.
— Ele me levou pra um jantar com uma mulher da empresa. Uma tal de Camila.
Olívia arqueou as sobrancelhas, alarmada.
— Camila?
— É. Uma colega, advogada, amiga de faculdade dele.
— Ah, ótimo. — Ela jogou as mãos pro alto. — Amiga de faculdade é o eufemismo universal pra “alguém que já quis te beijar no passado”.
— O pior — continuei — é que ele nem me contou. Só descobri lá, no restaurante.
Olívia suspirou, balançando a cabeça.
— Isa, meu amor…
— Eu sei. Eu sei que ele não fez por mal, que talvez tenha sido distração, mas… — fechei os olhos por um instante. — Dói. Porque parece que eu sou a última a saber das coisas. Sempre.
— Você se sentiu deixada de fora.
— É mais que isso. — A voz falhou. — Eu me senti substituível.
Ela ficou em silêncio por um instante, olhando pra mim com aquela expressão que misturava empatia e indignação.
— E ele disse o quê?
— Que era só trabalho. Que eu tava exagerando.
— Ah, claro. O clássico “você está exagerando”. — Olívia bufou. — Homens acham que esse argumento é tipo um botão mágico que apaga sentimentos.
Eu ri, mesmo sem vontade.
— Ele disse que tá tentando equilibrar tudo.
— E você?
— Eu… — respirei fundo. — Eu só quero paz. Mas toda vez que a gente chega perto disso, algo acontece.
Olívia apoiou a mão sobre a minha.
Demorei pra responder. As palavras pareciam presas no peito.
— Eu quero confiar. Mas, às vezes, ele me deixa com medo. Não de mim, nem dele, mas… do que o mundo faz com a gente.
— Entendo. — Ela suspirou. — O amor é fácil. O que vem depois é que mata.
Passamos o resto da manhã conversando sobre coisas leves... maternidade, séries, comidas que dávamos conta de preparar no tempo que sobrava.
Por algumas horas, consegui esquecer a confusão.
Sofia acordou e logo virou o centro das atenções.
Olívia a pegou no colo, encantada.
— Meu Deus, ela tá enorme! E tão linda. Tem os olhos dele, né?
— Infelizmente, sim — respondi com uma risada curta.
— E esse sorriso é seu. — Ela beijou a bochecha da bebê. — Vai ser uma destruidora de corações.
— Espero que não. — Brinquei. — Um já basta na família.
O sol começou a cair.
Liguei o celular, várias notificações perdidas, mensagens de Dante, curtas, confusas.
“Tá tudo bem?”
“Você onde está?”
“Precisamos conversar.”
Suspirei, cansada.
Olívia se aproximou. — Vai responder?
Olhei o bebê, o céu cor-de-rosa do entardecer, o reflexo do passado e do presente colidindo.
— Não agora.
Ela assentiu, compreensiva. — Às vezes o melhor jeito de dizer algo… é o silêncio.
E pela primeira vez em muito tempo, concordei.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”