POV Isadora
A luz da manhã atravessava as cortinas do quarto do hotel, suave e dourada, mas nem mesmo o brilho tranquilo do sol conseguia apagar o nó que eu sentia no peito. Sofia dormia em seu bercinho portátil ao lado da cama, o rostinho sereno, as mãozinhas fechadas como se ainda segurasse um pedaço de sonho.
Eu observava minha filha e me perguntava como algo tão pequeno podia carregar tanta paz, enquanto eu, a mãe, parecia cada vez mais mergulhada no caos.
— Você ainda está pensando nisso, não é? — A voz de Dante me tirou dos pensamentos. Ele estava encostado na parede, já pronto para sair, o terno escuro impecável e o cabelo ainda úmido do banho.
Suspirei. — Eu não quero voltar pra lá, Dante.
Ele me olhou com calma, mas nos olhos havia aquela firmeza inabalável que eu já conhecia.
— Isa, a mansão é o único lugar seguro pra vocês duas agora.
— Seguro pra quem? — perguntei, cruzando os braços. — Pra você continuar trabalhando até tarde e eu continuar fingindo que aquela casa não me sufoca?
— Você sabe que não é isso. — Ele se aproximou devagar, a voz baixa, controlada. — Depois do que aconteceu, eu não posso correr riscos. A imprensa, os negócios, minha mãe, meu pai… Tudo está de olho em nós. Lá, pelo menos, há segurança, há estrutura.
— Estrutura. — Repeti a palavra como se fosse amarga. — Você fala como se eu fosse um projeto a ser administrado.
Ele passou a mão pelo rosto, tentando manter a paciência.
— Não é sobre controle, Isa. É sobre proteção.
Por um momento, fiquei em silêncio. O som suave da respiração de Sofia enchia o espaço, como se ela, sem querer, tentasse nos lembrar do que realmente importava.
— Eu só quero paz. — murmurei. — E não sei se consigo encontrar isso naquele lugar.
Dante se abaixou, encostando a testa na minha. — Então eu vou te ajudar a encontrar, mesmo que seja dentro da mansão.
Antes que eu pudesse responder, o celular vibrou na cômoda. A tela iluminou o nome: Beatriz – Editora Vertigem.
Meu coração disparou.
Atendi. — Bia?
— Isa! — A voz dela era animada, acolhedora. — Eu estava prestes a mandar um e-mail, mas resolvi arriscar a ligação. Como você está, mãe de primeira viagem?
Sorri, um pouco nervosa.
— Sobrevivendo. Dormindo pouco, mas sobrevivendo.
Ela riu.
— Imagino. Escuta, estou te ligando porque precisamos conversar. A editora está empolgada com o desempenho do seu último livro. As vendas dispararam, e o público está pedindo mais.
— Mais? — Repeti, sem esconder o espanto.
— Sim. E, claro, queremos que você volte a trabalhar, se estiver pronta, é claro.
Meu olhar foi direto para Sofia. Ela se mexeu no berço, emitindo um sonzinho baixo, e depois voltou a dormir.
— Acho que estou, sim. — Falei, depois de alguns segundos.
— Ótimo! — Bia respondeu, animada. — Então faz assim: amanhã às dez, aqui na Vertigem. Temos uma proposta pra te apresentar, e acho que vai gostar.
Combinamos os detalhes, e eu desliguei.
Dante, que tinha acompanhado tudo em silêncio, ergueu uma sobrancelha. — Então, de volta ao trabalho?
Assenti, ainda com o coração acelerado. — Acho que sim.
— O próprio! Ele voltou pro país há alguns meses, está cheio de projetos e sugeriu essa parceria. Disse que adoraria trabalhar com você novamente.
Meu coração deu um salto confuso entre surpresa e desconforto. Raul. O mesmo Raul que me ensinou a amar poesia, que acreditava no meu talento quando ninguém acreditava e que também foi meu primeiro amor.
O mesmo Raul que, um dia, me deixou sem explicação, quando decidiu que a carreira vinha antes de nós.
— Eu… não sabia que ele estava de volta. — murmurei.
— Pois é. — Bia cruzou as pernas, animada. — E o mais interessante é que ele não só está de volta, como quer esse livro pra ontem.
Tentei disfarçar o turbilhão interno. — E vocês acham mesmo que isso é uma boa ideia? Quero dizer… faz tanto tempo.
— Justamente por isso. — Ela sorriu. — O público adora reencontros. Dois autores com uma história real por trás… Isso tem marketing natural. Além disso, Raul falou muito bem de você. Disse que ninguém escreve emoção como a Isa Montenegro.
O nome Montenegro ecoou dentro de mim como um lembrete incômodo da vida que eu vivia agora, da família que carregava, das feridas que ainda cicatrizavam.
Beatriz me observava com atenção. — Então? O que me diz?
Demorei um instante para responder. Por dentro, mil memórias se misturavam: a Isadora da faculdade, sonhadora, apaixonada, livre e a Isadora de agora, mãe, esposa, tentando se reencontrar no meio de tanta responsabilidade.
Talvez essa fosse a chance de me redescobrir.
— Eu topo. Mas avisa que agora é Harrison. Isadora Ferraz Harrison. — Falei, enfim.
Bia abriu um sorriso enorme. — Sabia que diria isso! Maravilha! E pode deixar!
Ela começou a falar sobre prazos, cronogramas, contratos. Eu, no entanto, mal consegui prestar atenção.
Tudo o que conseguia pensar era: Raul está de volta.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”