POV Heitor
Já faz quase um mês desde o casamento. Um mês inteiro de silêncio, de noites longas demais e de dias que parecem não acabar nunca.
A casa está mergulhada em meia-luz, e o barulho da chuva do lado de fora é o único som que me mantém ancorado à realidade. Fumo mais do que deveria, bebo mais do que preciso e penso nela mais do que quero admitir.
Isadora.
Desde que ela se mudou para a mansão Harrison, tudo parece... fora do eixo.
Antes, eu ainda sentia que tinha algum controle sobre o jogo, sobre ela, sobre a maneira como a fazia reagir. Agora, é como se ela tivesse desaparecido do mundo e comigo foi junto o meu senso de poder.
Seguro o celular entre os dedos. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação, nenhuma menção ao meu nome. O contato dela ainda está ali, congelado na tela, como uma lembrança do que eu perdi… ou do que destruí.
— Ainda pensando nela? — A voz dela me tira dos pensamentos.
Viro o rosto e vejo Leyla encostada na porta do quarto, vestindo aquela camisola de seda que ela sabe que me irrita. Porque é calculada. Tudo nela é.
— Você devia estar dormindo. — Digo, sem olhar muito tempo.
Ela caminha até mim, devagar, com aquele sorriso falso.
— Difícil dormir quando meu marido está no escuro, fumando como um fantasma.
Dou uma risada seca. — Talvez eu seja um.
— Ou talvez você só esteja preso num passado que não existe mais. — Ela responde, apoiando-se na mesa. — Você precisa parar de se torturar, Heitor.
— Tortura? — Jogo o cigarro no cinzeiro. — Tortura é ter que encenar um casamento que nunca deveria ter acontecido.
— É um acordo. — Ela me encara, fria. — E você sabia disso desde o começo.
— Um acordo entre duas pessoas que nunca deveriam dividir o mesmo teto.
Ela se aproxima, cruzando os braços.
— Entre duas pessoas inteligentes o bastante pra entender o que precisam fazer pra continuar no topo.
O silêncio cai. Eu me levanto, vou até o bar e sirvo uma dose de uísque. O líquido âmbar gira devagar no copo.
— Um acordo que sua mãe e a minha selaram pra satisfazer o próprio ego.
— E o seu também. — Ela rebate. — Ou vai fingir que não gostou de ver o nome “Montenegro” estampado em todas as manchetes? Casamento luxuoso, herdeiro estável, imagem pública perfeita… soa bem, não?
Dou um gole, sem responder. A bebida queima a garganta, mas o silêncio que vem depois queima mais.
— Você devia dormir. — murmuro. — Amanhã vai precisar sorrir pras câmeras de novo.
— E você devia parar de fingir que não liga pra mim. — Ela sussurra, se inclinando. — No fim das contas, eu sou a única que ficou.
Essa frase me atinge de um jeito estranho. Talvez porque seja verdade. Ou talvez porque tudo isso seja apenas mais um jogo, e eu cansei de jogar.
O celular vibra na mesa. Um e-mail novo.
Abro.
Assunto: Relatório de desempenho — Harrison & Montenegro Holding.
O sorriso some do meu rosto. As ações da empresa de Dante estão subindo. Rápido.
Os investidores que eram meus agora são dele. O mercado está reagindo à fusão, e a imagem de “Dante Harrison, o herdeiro do império” está em todas as manchetes.
Do jeito como me enfrentava sem medo, mesmo sabendo o quanto eu podia ser cruel.
Ela me odiava, e eu gostava disso. Porque odiar ainda era sentir.
Agora, ela não sente mais nada.
O relógio marca duas da manhã quando Leyla, cansada da minha indiferença, finalmente vai dormir.
Fico sozinho outra vez.
Pego o celular.
Abro uma foto antiga, nós dois em um café, rindo de algo bobo.
Por um segundo, penso em mandar uma mensagem. Só um “oi”.
Mas o orgulho é mais forte.
Apago a tela.
Dou o último gole do uísque e deixo o copo sobre a mesa.
A raiva pulsa dentro de mim. A impotência. O ciúme. A maldita sensação de que perdi o controle.
Lá fora, um trovão corta o céu.
E no reflexo da janela, vejo a minha própria expressão: fria, sombria, quase irreconhecível.
Ela me esqueceu.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”