POV Heitor Montenegro
O gelo tilintava no copo, dissolvendo-se lentamente no whisky que eu girava entre os dedos.
O relógio marcava quase duas da manhã, e o silêncio da mansão Montenegro era cortado apenas pelo som baixo da televisão ligada na sala.
Eu não deveria estar ali. Deveria estar dormindo, tentando esquecer o dia infernal que tinha tido, as cobranças, os números da empresa, os sorrisos falsos de reuniões intermináveis. Mas o sono parecia um luxo que já não me pertencia.
A notícia veio rápido: “Escritora premiada é vista em clima de intimidade com parceiro de trabalho em frente a condomínio de luxo.”
A foto aparecia na tela: Isadora e Raul Menezes, lado a lado, o rosto dela meio virado, o dele inclinado demais, o bastante pra deixar espaço pra dúvida. A legenda não ajudava. O texto era venenoso, cuidadosamente construído pra sugerir sem afirmar.
O whisky queimou quando desceu.
— Heitor? — a voz da minha mãe veio atrás de mim.
Célia Montenegro estava de robe, impecável até nas madrugadas. Os cabelos loiros, resultado de salão, não de genética, estavam presos num coque frouxo. Os olhos, atentos, curiosos.
— Que foi isso que eu vi no noticiário? — perguntou, aproximando-se da TV. — É o seu primo, Raul? Não consigo ver bem o rosto desse rapaz.
Fechei os olhos por um segundo. Claro. Ela tinha reconhecido o sobrenome.
— Não. — respondi, sem tirar o olhar da tela. — Não é ele. É o escritor Raul Menezes.
Ela franziu o cenho. — Mas… o Raul não é aquele menino que estudou com você no cursinho pra faculdade?
— É. — murmurei.
— E a moça... — Ela se inclinou um pouco pra enxergar melhor. — É a Isadora?
Assenti, o maxilar travado.
— Ora… — Célia soltou uma risadinha breve, irônica. — O mundo é pequeno, não é?
Peguei o copo e dei mais um gole. Pequeno. Preciso.
— Pequeno demais.
Ela me observou, e por um instante, o tom dela mudou, mais curioso que debochado.
— Mas… ele não era seu amigo?
— Era. — deixei o copo sobre o balcão. — Antes de eu me aproximar dela.
Silêncio.
Célia cruzou os braços, pensativa.
— Então quer dizer que… ela namorava o Raul antes de você?
Assenti, com relutância.
— Foi o primeiro dela.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— O primeiro?
— É. — Falei sem emoção, sem olhar pra ela. — Em tudo.
Célia ficou alguns segundos quieta, e então soltou um suspiro leve, quase satisfeito.
— Ah… então isso explica muita coisa.
— Explica o quê?
Ela pegou o controle e abaixou o volume da TV.
— O apego. A idealização. Essas mulheres românticas sempre guardam o primeiro amor num pedestal. É quase infantil.
Virei o rosto pra ela, irritado.
— Você não sabe nada sobre ela.
— Sei o suficiente pra reconhecer padrões. — retrucou, seca. — Nenhuma mulher se envolve com dois homens tão diferentes sem estar tentando provar algo pra si mesma.
— Chega, mãe.
— Só tô dizendo. — Ela levantou as mãos, como quem se defende. — Essa história vai cair mal. A imprensa já está comendo pelas bordas. E você sabe o quanto o nome Harrison não suporta mais um escândalo.
— O nome Harrison — falei devagar — nunca suportou nada que não pudesse controlar.
— Você não sabe o que fala.
Ela tocou meu peito com a ponta dos dedos.
— Sei, sim. — sussurrou. — E sei que está pensando nela agora.
Afastei a mão dela, firme. — Para.
— Não vou. — Ela deu um passo à frente, os olhos brilhando. — Porque eu cansei de ser a esposa de fachada. Célia me olha como se eu fosse uma boneca decorativa, e você me trata como um fantasma.
— Não fui eu quem quis esse casamento. — disse, seco.
— Mas você aceitou. — respondeu, erguendo o queixo. — E agora tem que sustentar a imagem.
Fui até o aparador, peguei a garrafa de whisky e servi mais um copo. O som do líquido preenchendo o vidro foi o único ruído entre nós.
— Sustentar imagem é o que você faz melhor, Leyla. — falei, sem encará-la. — Eu só tento sobreviver nela.
Ela caminhou até mim novamente, devagar.
— Sabe, Heitor... — começou, a voz mais baixa. — Talvez sobreviver seja mais fácil se você parar de lutar contra o inevitável.
— E o que seria o inevitável?
Ela sorriu. — Nós dois.
Antes que eu pudesse responder, ela encostou os lábios nos meus. Um beijo frio, planejado. Por um instante, não me movi. Nem correspondi, nem recusei. Só fiquei ali, parado, sentindo o gosto doce demais do batom misturado ao amargor do álcool.
Quando ela afastou o rosto, havia uma faísca de vitória nos olhos.
— Viu? — sussurrou. — Não foi tão difícil.
Segurei o copo com força, o gelo tilintando.
— Você não entende nada, Leyla.
— Entendo o suficiente. — Ela passou o dedo nos próprios lábios. — Entendo que a melhor vingança é seguir em frente.
Olhei pra ela, finalmente. O reflexo dela no espelho: perfeita, montada, vazia. E, por um momento, vi a mim mesmo ali também: o herdeiro que vivia de aparências, o homem que já não sabia onde terminava o dever e começava o desejo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”