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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 183

Pov Leyla Torres Montenegro

O silêncio é pior que o barulho. Pior que o grito, pior que o som da respiração ofegante, pior que o bater frenético do coração. O silêncio… o silêncio vem depois. E o depois é sempre o que mais dói.

Heitor adormeceu como se nada tivesse acontecido. O corpo dele ainda estava ali, quente, o braço pesado sobre a minha cintura, o cheiro do whisky misturado ao suor. Mas ele dormia. Como se o mundo inteiro não tivesse acabado há poucos minutos.

Eu fiquei imóvel. Não por medo, nem por prazer, nem por conforto. Fiquei porque não sabia o que fazer. Meu corpo não me pertencia. Meu corpo parecia um campo de batalha depois da guerra, o chão revirado, o ar denso de fumaça, e nada além de eco e caos.

Demorei a respirar fundo. Cada vez que o fazia, algo dentro de mim se contraía. Meu peito queimava, e o nó na garganta parecia querer me sufocar. Acho que parte de mim esperava que ele acordasse, dissesse algo, qualquer coisa, uma palavra, um pedido de desculpas, uma justificativa.

Mas não veio nada. Apenas o ronco baixo, quase tranquilo, de um homem que dormia sem culpa.

Meus olhos ardiam. Não de choro, ainda não. Era a ardência do sal preso por muito tempo, da lágrima que se recusa a cair.

Com cuidado, tirei o braço dele de cima de mim. O movimento foi lento, estudado, para que ele não acordasse. Levantei-me, o corpo inteiro dolorido, e procurei a camisola caída no chão.

Vesti-a sem olhar muito, era como vestir um pedaço da noite anterior, e isso me deu ânsia.

Apoiei as mãos na penteadeira e olhei meu reflexo no espelho. Por um segundo, não reconheci a mulher que me olhava de volta. O cabelo desgrenhado, o batom borrado, a pele marcada, mas era nos olhos que estava a verdadeira ruína. Havia uma espécie de confusão ali. Uma sombra entre o “querer” e o “odiar”.

Toquei o próprio rosto, e a lembrança da mão dele, áspera, firme, errada, me atravessou como uma fisgada. Fechei os olhos com força. E o nome que ele murmurou antes de cair sobre mim ecoou na minha mente como uma sentença:

Isa.

Não era a mim que ele via. Não era a mim que ele queria.

O gosto de bile subiu à minha garganta.

Fui até o banheiro.

A luz fria e branca me ofuscou por um instante.

Girei a torneira e deixei a água cair. O som do jato batendo na pia era quase ensurdecedor, um ruído constante que finalmente preenchia o vazio do quarto.

Apoiei as mãos na borda da pia e respirei fundo, várias vezes. A água refletia o rosto de uma mulher que eu não sabia se ainda era eu. De alguma forma, tudo o que eu havia feito para chegar até aqui, a manipulação, o plano, o casamento, a promessa da minha mãe, parecia pequeno diante daquele momento.

Capítulo 183 — Não era a mim que ele via. 1

Capítulo 183 — Não era a mim que ele via. 2

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