POV Dante Harrison
O sol nasceu devagar, como se o mundo soubesse que eu ainda não estava pronto pra encarar a luz.
A claridade entrou pelas frestas da cortina, cortando o quarto em faixas douradas e silenciosas. Eu estava acordado há um tempo, talvez horas. Isa dormia ao meu lado, de bruços, o rosto meio escondido entre os lençóis.
Havia uma mecha do cabelo dela presa nos meus dedos, e eu fiquei ali, enrolando e desenrolando, como se pudesse segurar o tempo junto com aquele fio.
O quarto ainda tinha o cheiro da noite anterior, perfume, pele, arrependimento e algo que parecia redenção. Olhei para ela, para o contorno do ombro, a curva da cintura sob o lençol.
Deus, como eu senti falta daquilo. Não só do corpo, mas da paz que vinha com a presença dela. Mesmo quando ela estava calada, Isa sempre foi o tipo de mulher que preenchia o espaço. E eu, idiota que sou, passei tempo demais tentando me acostumar com o vazio.
Passei a mão no rosto, sentindo a barba áspera, o cansaço estampado em cada músculo. A cidade começava a acordar lá fora, buzinas, passos, o murmúrio de um dia comum e eu sabia que não dava pra adiar o inevitável. Precisávamos sair daquela casa. Daquele inferno mascarado de lar.
Me levantei devagar, tentando não acordá-la. Peguei a calça jogada na poltrona, vesti e fui até a varanda. O vento estava frio, e o horizonte tingido de laranja. A cidade era um gigante preguiçoso se esticando sob o sol. E eu, pela primeira vez em muito tempo, sentia que tinha um propósito de novo.
Ela merecia isso um recomeço.
Nossa filha merecia isso... crescer longe dos sussurros venenosos da mansão, longe dos olhares de desprezo e das cobranças que vinham com o sobrenome Costa.
Encostei os cotovelos no parapeito e fechei os olhos. Eu podia ouvir os ecos de ontem ainda na minha cabeça: o choro dela, o toque, o perdão que veio no silêncio. Mas perdão não é esquecimento. E eu sabia que teria que provar, com mais do que palavras, que eu ainda podia ser o homem que ela acreditava que existia em algum lugar sob toda a merda que eu fiz.
— Você está pensando alto demais. — A voz dela veio atrás de mim, suave, rouca de sono.
Sorri de leve, sem virar de imediato.
— Eu acordo e já tem audiência na minha cabeça, é isso?
— Não precisa de audiência, Dante. Dá pra ouvir seus pensamentos daqui. — Ela se aproximou, com o roupão frouxo, o cabelo bagunçado e aquele olhar que misturava ternura e cansaço. — Tá tudo bem?
Virei pra encará-la. A luz do sol batia no rosto dela, realçando o brilho dourado dos olhos.
— Tá. Quer dizer… vai ficar. — Suspirei. — Eu tô pensando em tirar a gente daquela casa.
Ela franziu a testa.
— O quê?
— A mansão. — Cruzei os braços, tentando achar as palavras certas. — Eu não quero mais que vocês fiquem lá. Nem um dia. Nem mais uma noite.
— Dante, calma… — ela começou, mas eu a interrompi.
— Não. Eu tô falando sério, Isa. Ontem, quando te vi na varanda, quando eu te abracei... — fiz uma pausa, engolindo o nó que subiu à garganta — ...eu percebi que a gente estava sobrevivendo, não vivendo. E eu não quero mais sobreviver.
Ela me olhou com aquele olhar analítico, aquele silêncio que sempre me desmontava mais do que qualquer grito.
— E pra onde você pretende ir? — perguntou por fim, cruzando os braços, a expressão agora meio defensiva.
— Qualquer lugar que não tenha o sobrenome Harrison gravado nas paredes.
— Dante…
— Eu já comecei a procurar hoje cedo. — Tirei o celular do bolso e mostrei algumas fotos abertas na tela. Casas menores, discretas, algumas perto do mar, outras em bairros mais tranquilos. — Não é luxo, mas é paz.
Ela olhou pra tela, depois pra mim.
— Você está falando sério.
— Tô.
— E a empresa? — A pergunta veio seca, certeira. — Seu pai vai surtar.
Dei uma risada amarga.
— Ele já surta de graça, Isa. Que diferença faz?
— Faz a diferença de você perder tudo o que construiu.
Me aproximei, devagar.
— Eu perdi o mais importante quando quase te perdi. O resto… é só fachada.
Ela desviou o olhar, mordendo o lábio, e por um instante, o silêncio ficou pesado.
Então ela sussurrou:
— E se ele te fizer escolher, Dante? Entre a gente e a empresa?
— Então eu escolho você. — A resposta saiu antes mesmo de eu pensar.
E era verdade. Pela primeira vez em muito tempo, eu sabia exatamente o que queria.
Isa pareceu abalada por um segundo. Os olhos brilharam, mas ela disfarçou, respirando fundo.
— Não fala isso de cabeça quente.



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