POV Isadora
O portão de ferro rangeu quando se abriu, revelando a rua calma e o som distante das ondas quebrando. O corretor, um homem de sorriso ensaiado e gestos educados, fez um sinal para entrarmos com o carro.
Dante dirigia devagar, e o olhar dele varreu o terreno, avaliando cada detalhe como se estivesse escolhendo o próprio futuro ali, naquelas paredes simples de tijolos claros e janelas grandes.
Eu, do banco do passageiro, apenas observava.
O sol da manhã se infiltrava pelas árvores, criando manchas douradas no chão. Havia um cheiro de maresia no ar, diferente de tudo que eu estava acostumada. A mansão Harrison era fria, silenciosa, sempre perfumada demais, como se o ar fosse fabricado. Mas ali, o vento era real. Aquele lugar tinha vida.
— Linda — murmurei, mais pra mim do que pra ele.
— Espera até ver o quintal — respondeu Dante, com um sorriso breve, sem tirar os olhos da estrada de cascalho.
O corretor parou à frente da casa e abriu o portão lateral. O rangido ecoou, e de repente o silêncio da rua foi substituído pelo som de passarinhos.
— É uma das últimas casas da rua. — O homem falou, animado. — Privacidade total, vista para o mar e... um jardim que precisa de um toque feminino, talvez.
Dante olhou pra mim, divertido.
— Ouviu, Isa? O jardim precisa de você.
Eu revirei os olhos, mas sorri.
Descemos do carro. O chão frio da calçada contrastava com o calor do sol nas costas. A fachada da casa era simples, mas havia algo nela... aconchegante. As janelas de madeira, o balanço na varanda, o portão branco descascando na base. Nada ali era perfeito e talvez fosse isso que me atraísse.
— Aqui… — o corretor apontou — seria o espaço ideal pra um pequeno parquinho.
Dante olhou para o terreno com aquele brilho raro nos olhos.
— Sofia ia amar.
A maneira como ele disse o nome da nossa filha me fez apertar o peito. Havia ternura, uma paz que eu não via nele há meses. Era como se, por alguns segundos, o peso do sobrenome Harrison tivesse desaparecido.
Entramos.
O interior da casa tinha cheiro de madeira e sal. As paredes brancas refletiam a luz natural, e o chão de tábua rangia levemente. Era pequena, comparada à mansão, mas cada cômodo parecia pulsar uma energia acolhedora.
— Não é grande — comentou o corretor, tentando justificar — mas tem uma alma boa, sabe?
Dante riu de leve.
— Depois de onde viemos, isso é exatamente o que a gente precisa.
Ele me olhou por sobre o ombro, e aquele olhar me pegou de jeito. Um olhar de “aqui é o começo”, mesmo que nada ainda estivesse certo.
Fomos caminhando cômodo por cômodo: sala, cozinha aberta, dois quartos e uma suíte pequena, com uma varanda de frente para o mar. Eu parei ali, olhando o horizonte. O vento bagunçou meu cabelo, e eu fechei os olhos.
Podia me ver vivendo ali. Cozinhando enquanto Sofia brincava no jardim. Dormindo com o som do mar, não com os gritos abafados de uma casa cheia de segredos.
Foi quando o som insistente começou. O celular de Dante, no bolso. Ele ignorou na primeira vez. E na segunda. Mas quando tocou pela terceira, a vibração pareceu ecoar por todo o quarto.
Ele tirou o telefone e olhou a tela, rápido, como quem não queria que eu visse. O maxilar dele travou, e os olhos endureceram.
— Não vai atender? — perguntei, ainda de frente para a janela.
— Não é importante.
Tentei não insistir. Mas o toque voltou, insistente. Ele bufou, apertou o celular com força, e antes que eu pudesse desviar o olhar, a tela se acendeu.
Camila — Harrison Group.
Meu estômago revirou.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”