POV Isadora
A brisa do mar entrou pela janela aberta, misturando o cheiro de sal com o aroma do café fresco que vinha da cozinha.
Dois sons ecoavam pela casa: a risadinha leve da Sofia ao brincar com seu próprio pé e o bater ritmado do martelo do jardineiro ajeitando o portão da frente. A luz do sol entrava sem pedir licença, dourando o chão de madeira recém-polido.
A nova casa parecia respirar junto com a gente.
Era como se as paredes soubessem que ali morava uma família tentando se reconstruir.
Passei a mão pelos cabelos, ainda úmidos do banho, e olhei pela varanda. Dante estava lá fora, de camiseta branca e calça de moletom, descalço, falando com um dos seguranças. Ele gesticulava pouco, mas o tom firme denunciava o homem acostumado a comandar.
Mesmo longe da empresa do pai, ele ainda tinha aquele ar de liderança natural, só que agora, parecia mais leve.
Sofia balbuciava sons no tapetinho colorido da sala, brincando com um bichinho de pelúcia. Eu me abaixei e ajeitei o macacão dela.
— Gostou da nossa casa, meu amor? — perguntei.
Ela respondeu com um sorriso banguela, e o coração me derreteu inteiro.
Era o primeiro dia ali, o primeiro amanhecer longe das paredes da mansão Harrison, longe dos olhares dos irmãos de Dante e de seus pais e das palavras afiadas que sempre vinham junto. E, pela primeira vez em algum tempo, eu respirei fundo sem sentir medo.
Estava cansada de fugir das amarras de sobrenomes poderosos.
Quando Dante entrou, o sol acendeu ainda mais o ambiente. Ele carregava uma xícara de café e um semblante de quem, finalmente, estava no lugar certo.
— Tá tudo pronto lá fora — disse, deixando o copo na mesa. — Os seguranças já se posicionaram.
— Quantos? — perguntei, ajeitando Sofia no colo.
— Quatro fixos. Dois fazem a ronda externa. E a senhora Clarice chega hoje à tarde.
Sorri, aliviada.
— A babá?
Ele assentiu, com um brilho nostálgico no olhar.
— A própria. Ela praticamente me criou, Isa. — se aproximou, encostando o quadril na mesa. — Se tem uma pessoa no mundo em quem eu confio de olhos fechados, é ela.
— E ela aceitou vir pra cá? — perguntei, meio surpresa.
— Aceitou de imediato. Disse que já estava com saudade de cuidar de “crianças Harrison” — ele fez aspas com as mãos, rindo. — E que não aguentava mais a cidade grande.
— Então ela vai amar aqui.
— Vai, sim. — Ele olhou em volta. — Acho que todo mundo vai. Vou comprar aquele chalé que fica a dez minutos de distância para ela morar e facilitar sua vida. Ela adorou a ideia.
O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Era daquele tipo que só existe quando duas pessoas estão em paz.
Sentei-me ao lado da janela, observando a brisa balançar as cortinas. Lá fora, o mar reluzia em tons de azul e prata, como se o universo tivesse dado a gente uma segunda chance.


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