POV Isadora
Assinar papéis é fácil. O difícil é assinar o que não se diz.
Enquanto o corretor organizava os documentos, eu observava Dante de longe, conversando com o homem sobre prazos, reformas, mudança. Ele estava empolgado, com aquele brilho juvenil que fazia tempo que eu não via. E mesmo assim, eu sentia algo latejando no fundo do peito.
Camila.
Aquela ligação não era sobre trabalho. Não era só preocupação corporativa. Eu conhecia o tom da voz dela, já tinha ouvido antes, dias atrás, naquele jantar, quando ela sorria demais pro homem que agora era o pai da minha filha.
Mas ele a rejeitou, eu sabia disso. Então por que ainda soava como uma ameaça?
— Isa? — A voz de Dante me puxou de volta. Ele se aproximou, sorrindo. — Eles vão liberar a casa em duas semanas.
— Duas semanas?
— É. Dá tempo de arrumar tudo, comprar o que faltar… — Ele me olhou com ternura. — A gente vai começar direito dessa vez.
Eu sorri. Ou tentei. Mas o olhar dele demorou em mim.
— Tá tudo bem?
— Tá. — respondi rápido demais. — Só cansada.
Ele não pareceu convencido, mas não insistiu.
Saímos da casa de mãos dadas, e o sol já estava alto. O vento do mar bagunçava meu cabelo, e ele, talvez sem perceber, puxou uma mecha pra trás da minha orelha com um gesto tão automático, tão íntimo, que por um segundo, eu esqueci tudo.
Até o toque breve do celular dele vibrar de novo.
Camila. O nome brilhou na tela: curto, cruel, insistente. Ele não atendeu dessa vez. Apenas desligou, guardando o telefone no bolso.
— Não importa. — disse ele, como se adivinhasse o que eu pensava. — Nada disso importa mais.
Mas importava. Porque no fundo, por mais que eu quisesse acreditar, havia uma sombra em mim que ainda não sabia confiar.
***
No caminho de volta, o carro seguia em silêncio. O som do motor e o mar distante eram os únicos ruídos entre nós. Eu olhava a paisagem pela janela, as casas pequenas, as pessoas caminhando com sacolas, a vida simples que parecia tão distante da nossa realidade.
Dante dirigia com uma mão no volante e a outra apoiada no câmbio. Relaxado, mas distante. E eu sabia que a cabeça dele ainda estava dividida entre o que deixava pra trás e o que tentava construir agora.
Quando o carro parou num sinal, ele me olhou de canto.
— Eu sei o que você está pensando.
— Duvido.
— Tá pensando que essa mulher significa alguma coisa.
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