POV DANTE
O salão de reuniões da Harrison fica tão silencioso que parece uma igreja vazia.
Janelas altas. Mesa comprida. Vidro por todo lado, refletindo rostos tensos: irmãos, tios, investidores, diretores, advogados e minha mãe.
Meus dedos batem levemente na mesa. Só para me lembrar que estou vivo. Que estou no controle. Que essa história não se repete, não comigo ao volante.
O advogado ao meu lado ajusta a pasta.
— Quando estiver pronto, senhor Harrison.
Senhor Harrison. Nunca odiei tanto um sobrenome. Nunca desejei tanto transformá-lo em outra coisa.
Em algo menos… amaldiçoado.
Respiro. Olho para as pessoas ao redor.
Meus irmãos me encaram com um misto de medo e expectativa. Eles sabem que meu pai deixou tudo para mim. Tudo. E sabem o quanto isso o deixaria furioso, porque para ele, dividir poder era fraqueza. E eu sempre fui a maior decepção dele.
Isadora está sentada no fundo da sala, com nossa filha no colo, quietinha, igual um raio de luz tímido entrando por uma janela suja.
Eu me conecto com aquele olhar dela. E é isso que me dá coragem.
— Obrigado por terem vindo — começo, minha voz firme apesar da tensão. — Hoje encerramos um ciclo. E abrimos outro. Dessa vez… um ciclo saudável.
Alguns sussurram.
Respirando fundo, eu me ergo.
— Eu herdei tudo que meu pai construiu. Mas eu não vou repetir o que ele fez. Não quero um império baseado em medo, abuso, manipulação ou exploração. — meu peito se aquece, e eu deixo a verdade sair inteira — Então, aqui está o novo futuro da Harrison. E do nosso sobrenome.
Meus irmãos se remexem nas cadeiras.
O advogado abre a pasta.
— Senhor Harrison definiu quatro pilares para a redistribuição do patrimônio.
Eu ergo a mão, pedindo para falar eu mesmo.
— Não. Eu defini quatro pilares para quebrar um ciclo inteiro.
O silêncio fica mais denso.
E começo:
1. FUNDO DE APOIO A VÍTIMAS DE ABUSO E MANIPULAÇÃO
Eu olho direto para os diretores mais velhos. Homens que sabiam o que meu pai fazia e ficavam calados.
— O primeiro destino dos bens é a criação de um fundo permanente de apoio a vítimas de abuso psicológico, físico e manipulação. — minha voz falha ligeiramente, mas eu continuo — Ele vai custear terapias, abrigos, processos judiciais e segurança. E vai receber 30% de tudo que herdei.
Vários rostos se chocam. Meu irmão mais velho solta um "Isso é loucura".
Eu apenas sorrio de canto.
— Loucura era o que nosso pai fazia. Isso é reparação.
2. FUNDAÇÃO CULTURAL E DE APOIO A NOVOS AUTORES
Olho para Isa. O coração aperta do jeitinho bom.
— O segundo pilar é uma fundação cultural. — digo. — Para financiar novos autores, artistas, roteiristas, criadores. Gente que nunca teria uma porta aberta se não quebrássemos algumas paredes antes.
Os olhos de Isadora brilham. O rosto dela desmonta em orgulho. E eu quase esqueço onde estou.
— Vai receber 20% do patrimônio — completo.
Um dos diretores comenta:
— Isso não gera retorno financeiro.
— Não foi feito para gerar. Foi feito para mudar vidas. — respondo, simples.
Isa desvia o olhar, emocionada. E eu me seguro para não ir até ela agora mesmo.
3. REFORMULAÇÃO DA EMPRESA HARRISON
Aqui, os irmãos prendem a respiração.
— A Harrison não será mais uma empresa centralizada no comando de um tirano. — afirmo. — Meus irmãos vão administrar juntos, como devia ter sido desde o começo.
O mais novo arregala os olhos. O mais velho franze o cenho, desconfiado.

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