POV HEITOR
Três meses.
Noventa dias inteiros.
Dois mil cento e sessenta horas.
E cada uma delas pesando na minha nuca como uma sentença.
A mansão está silenciosa demais. Ecoa. Até o som do gelo batendo no copo parece um fantasma se arrastando pelo chão.
Whisky desce queimando. Mas não é suficiente. Nunca é suficiente.
As luzes da sala estão apagadas. Deixo só o abajur aceso, aquela luz amarela que deixa as coisas tristes ainda mais tristes. Tem garrafas vazias jogadas no tapete persa. A gravata no chão. Uma camisa amassada pendurada no encosto do sofá.
A casa parece um retrato perfeito de mim. E a culpa… A culpa é um animal enorme sentado no meu peito, me esmagando devagar. Eu matei minha mãe. Eu matei Leyla. Ou, pior: Eu deixei que a minha obsessão destruísse tudo ao redor.
Quando fecho os olhos, vejo sangue. Vejo o carro retorcido. Vejo o investigador me encarando como se já soubesse. Vejo Isadora me olhando com aquele olhar… cansado.
E eu sei. Eu sei que fui eu. Não com as mãos, mas com tudo que sou. Com o que me tornei.
Beber é mais fácil do que pensar nisso. Então eu bebo de novo. O copo cai da minha mão quando ouço barulho.
Toctoc.
Uma batida firme, dura, autoritária.
Meu coração prende a respiração sozinho. Parece querer parar. Eu fico imóvel. Por um segundo, penso que talvez seja só imaginação.
Mas então...
BAM!
A porta praticamente salta para dentro. Um estrondo. Um grito abafado. E passos, muitos passos, entrando.
Luzes fortes invadem a sala como se fossem holofotes no rosto de um criminoso.
— Heitor Montenegro?! — uma voz grave ecoa, clara, cortante. — Polícia! Mãos onde eu possa ver!
O mundo gira.
Eu me levanto tão rápido que a vista escurece por um segundo. O cheiro de álcool no meu corpo deve ser sentido a metros. Meu cabelo está uma bagunça. A camisa semiaberta. A expressão… Deus, se eu me visse agora, eu mesmo me algemaria.
O investigador avança. É ele. O mesmo que olhou pra mim lá atrás como se já soubesse o final dessa história. Agora ele não olha mais com suspeita. Olha com certeza.
Frieza.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”