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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 90

POV Elena

O telefone vibrou outra vez na minha bolsa, insistente, como um mosquito que não se cala. Eu sabia quem era. Ben não tinha o hábito de repetir ligações, a menos que estivesse desesperado… ou furioso.

E ele devia estar os dois.

Deslizei os dedos pelo visor e vi o nome dele brilhando na tela. Respirei fundo, contei até três e atendi.

— Você não sabe a hora de parar, não é? — minha voz saiu baixa, controlada, mas carregada de veneno.

Do outro lado, a respiração dele soou áspera.

— Você está fugindo de mim, Elena. — Ele não perdeu tempo. — E eu não sou o tipo de homem que gosta de ser ignorado.

Olhei pela janela do quarto. Célia estava no corredor, falando com um assessor sobre flores e lista de convidados. Eu tinha menos de cinco minutos antes que ela voltasse e começasse outra de suas aulas de etiqueta forçada.

— Eu não estou fugindo, Ben. Só estou… priorizando coisas mais importantes.

— Mais importantes que o nosso filho? — ele cuspiu a frase como uma ofensa pessoal.

Fechei os olhos por um instante. Não era hora de lembrar do bebê. Aquilo já tinha ido embora.

— O bebê não existe mais. — Falei fria, cortando como lâmina. — E, sinceramente, talvez tenha sido o melhor.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Quando ele falou de novo, a voz estava mais baixa, mas perigosa.

— Então agora você acha que pode me descartar como se eu fosse nada? Como se esse último ano não tivesse significado nada?

A campainha de alerta do meu coração disparou. Ben não era burro. E quando homens como ele se sentem descartados, eles não recuam, eles atacam.

— Ben… — suavizei a voz, como se pudesse acalmá-lo. — Eu não estou te descartando. Mas preciso que você entenda: estou prestes a me casar. Isso é importante, não só pra mim, mas pra todo o meu futuro. E, se você fizer algum escândalo agora, vai se destruir junto comigo.

Ele riu, mas sem humor.

— Não se preocupe comigo, Elena. Eu sempre caio em pé. Mas você… — fez uma pausa, deixando o ar envenenado se instalar — você pode perder tudo antes mesmo de entrar na igreja.

A ameaça estava clara, crua. E, estranhamente, ela me deu mais força.

— O que você quer? — perguntei, já antecipando a resposta.

— Quero te ver. Hoje. Sem Célia, sem Heitor, sem fotógrafos. E, dessa vez, você não vai fugir.

***

Duas horas depois, entrei no café discreto na zona sul que ele tinha indicado. Era um lugar pequeno, com mesas de madeira escura e cheiro de grãos recém-moídos. Ben estava num canto, camisa branca dobrada nos cotovelos, o cabelo desalinhado como sempre. Ele não era o tipo de homem que se preocupava com aparência para impressionar. Ele sabia que o olhar intenso e a presença eram suficientes.

— Você veio. — Ele disse, sem se levantar.

— Eu sempre venho. — Sorri de lado, sentando à frente dele. — Quando é necessário.

Ele inclinou o corpo para frente.

— Não vou te deixar se casar com ele.

— Você não pode me impedir. — Cruzei as pernas, firme. — O bebê já não é mais um trunfo seu. E você não tem nada além da sua palavra contra a minha.

Ben sorriu, mas seus olhos endureceram.

— Não subestime o que eu sei, Elena. Eu tenho mensagens, fotos, horários. E, se eu entregar isso para alguém… digamos, para a imprensa ou para o próprio Heitor… — ele deixou a frase morrer no ar.

Mantive o rosto impassível, mesmo sentindo o gelo correr pela espinha.

— Isso só funcionaria se Heitor se importasse. E, francamente, ele está casando comigo por conveniência, não por amor.

— Pode até ser. — Ben se inclinou mais. — Mas e a mãe dele? Ou os investidores do Montenegro Group? Eles adorariam saber que a futura “senhora Montenegro” é uma mentirosa que engravidou de outro homem.

Respirei fundo. Não podia deixar que ele me visse vacilar.

— Você quer dinheiro, é isso?

— Eu quero você. — Ele disse, direto. — Casada ou não.

Engoli a raiva. Ben era arrogante o bastante para acreditar que ainda me possuía de algum jeito. Mas agora, mais do que nunca, eu sabia que precisava cortá-lo da minha vida. Definitivamente.

— Escuta, Ben… — comecei, escolhendo as palavras como quem manipula veneno — se você realmente quer que eu continue “sua” de alguma forma, vai precisar se manter em silêncio. Pelo menos até as coisas se estabilizarem. Caso contrário… não vai sobrar nada nem pra você.

Ele me olhou como se tentasse decifrar se era uma ameaça vazia. Mas, no fundo, sabia que eu era capaz de muito.

Levantei-me antes que ele pudesse responder.

— Pense bem. Você pode perder tudo… ou ganhar mais do que imagina. A escolha é sua. — Saí dali com o som da cadeira arrastando no chão e o cheiro de café preso nas roupas.

Enquanto o vento da rua batia no meu rosto, uma coisa estava clara: Ben não ia parar. E, se eu quisesse manter o que conquistei, ia ter que encontrar uma forma de calá-lo… para sempre.

***

POV Célia

Suspirei.

— Você já estava preso, Heitor. O acidente só acelerou o processo. É a única forma de manter o controle da narrativa.

Ele passou a mão pelo rosto, irritado, mas não respondeu. Sabia que, no fundo, eu estava certa.

À tarde, a estilista chegou com quatro araras de vestidos. Tecidos caros, cortes impecáveis. Elena surgiu descendo as escadas de novo, o celular discretamente preso na mão.

— Vamos começar? — perguntei.

Ela entrou no quarto de provas e fechou a porta. Dez minutos depois, abri sem bater e encontrei-a encostada na parede, sussurrando no telefone.

— …não posso agora… — ela dizia, a voz baixa. — Não, você não entende…

Assim que me viu, congelou.

— Problemas? — perguntei, sem disfarçar o tom.

Ela desligou rapidamente.

— Apenas… um amigo preocupado.

Sorri de leve, mas meus olhos diziam outra coisa.

— Espero que esse “amigo” não atrapalhe os preparativos. Você sabe como esse casamento é importante… para todos nós.

Ela engoliu seco e começou a experimentar o primeiro vestido. Eu a observei pelo espelho. O caimento era perfeito, mas havia algo nos olhos dela... inquietude, talvez medo, que me dizia que aquele celular escondia um problema.

E problema, para mim, é sinônimo de risco.

---

Mais tarde, quando todos já tinham ido embora, fiquei sozinha na biblioteca, analisando discretamente os relatórios do meu investigador particular. Ben Monteiro. Médico de médio porte, ginecologista , e… relacionamento com Elena nos últimos doze meses.

Então era isso. O “amigo preocupado” tinha nome e rosto. E, pelo visto, motivos para não querer vê-la casada com meu filho.

Apertei o relatório entre os dedos. Isso não era apenas inconveniente. Era perigoso.

Heitor podia ser cego ao ponto de não perceber a extensão do risco, mas eu não era. E se Ben continuasse ligando, aparecendo, insistindo… esse casamento poderia virar pó antes mesmo de acontecer.

Fechei o tablet, tomada por uma decisão. Eu não ia permitir. Ben Monteiro não ia destruir os Montenegro, nem tirar de Elena a chance de se redimir publicamente, mesmo que ela ainda não entendesse que era isso que estava acontecendo.

Eu lidaria com ele pessoalmente. E quando eu lido com alguém… a conversa nunca termina em empate.

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