POV Isadora Ferraz
Eu nunca pensei que escolher uma casa fosse tão difícil. Ou tão… simbólico.
O carro de Dante seguia devagar pela rua arborizada, o sol da manhã filtrando pelas folhas e jogando manchas de luz no painel. Eu estava no banco do passageiro, com uma pasta de anúncios imobiliários no colo, cada página marcada com post-its coloridos.
— E essa aqui? — perguntei, mostrando a ele uma foto de fachada branca, varanda ampla e um jardim na frente.
Ele olhou de relance, sem tirar completamente os olhos da rua.
— Muito exposta. Quero algo mais reservado.
Sorri. Dante e sua mania de proteção. Eu entendia, depois de tudo que vivemos, privacidade era um luxo que valia mais do que piscina ou número de suítes.
Estávamos juntos oficialmente havia pouco tempo, mas… de certa forma, parecia uma vida inteira. Tantas batalhas, tantos pedaços meus que eu achei que tinha perdido e ele, de algum jeito, ajudou a colar. E agora, estávamos procurando um lugar que fosse só nosso.
Não o apartamento dele, cheio de memórias e histórias que não eram minhas. Não meu antigo lar, carregado de lembranças que eu queria deixar para trás. Um novo começo.
— Essa rua é linda. — comentei, observando as casas de muros baixos e jardins bem cuidados. — Parece tranquila.
— Tranquila é bom. — ele disse, estacionando o carro em frente a uma das casas da nossa lista.
Descemos. O corretor já nos esperava no portão, sorridente, chaves na mão. A fachada era simples, mas convidativa. Um portão de madeira clara, paredes em tom bege, e uma árvore enorme que fazia sombra sobre metade do quintal.
— Sejam bem-vindos. — o corretor abriu o portão e nos guiou pela entrada. — Essa casa é perfeita para famílias que buscam paz e conforto.
Famílias. A palavra me fez tocar a barriga instintivamente. Meu bebê mexeu levemente, como se respondesse.
Lá dentro, o cheiro de madeira encerada e luz natural pelas janelas grandes me envolveram. A sala era espaçosa, conectada a uma cozinha americana, e no fundo havia portas de vidro para um quintal com grama bem aparada.
— Aqui daria para colocar um balanço… — murmurei, imaginando uma criança correndo pelo jardim.
Dante se aproximou por trás, colocando as mãos na minha cintura.
— Ou uma rede para você descansar.
Sorri, sentindo o calor dele. E, por alguns segundos, não havia acidentes, nem pessoas do passado, nem boatos rondando nossa vida. Só nós dois, sonhando juntos.
Mas sonhos são frágeis. E no fundo, eu sabia que, mesmo tentando nos afastar, as peças antigas do quebra-cabeça da nossa vida ainda estavam espalhadas por aí… e cedo ou tarde, alguém iria tentar encaixá-las de novo.
***
O corretor nos levou para o andar de cima, e a escada de madeira estalava sob meus pés. O corredor tinha três portas, todas com maçanetas douradas e um leve cheiro de tinta fresca.
— Esse é o quarto principal. — ele disse, abrindo a porta da ponta.
A luz entrava por duas janelas amplas, iluminando as paredes em tom claro. No canto, um armário embutido novo, ainda com plástico nas prateleiras. A vista dava para a árvore da frente e parte da rua.
Coloquei o cinto, o telefone vibrou, notificando uma mensagem de Olívia.
Abri a mensagem, esperando algo leve, talvez uma piada, ou uma foto do sobrinho dela. Mas o que apareceu na tela me gelou de dentro para fora.
Era uma foto, tirada de algum canto escuro de um bar. Lorenzo. Sentado. Ao lado dele… Elena.
Os dois conversavam. Ela segurava uma taça de vinho, e ele permanecia sério, mas era como se estivessem dividindo um segredo.
E a legenda que Olívia colocou embaixo parecia pulsar na tela:
"Parece que seu irmão anda com uma companhia… curiosa."
O ar ficou pesado. Meu estômago revirou, e a imagem parecia querer se gravar na minha retina. Elena, com aquele mesmo olhar calculista de sempre, mas agora voltado para Lorenzo.
— Isa? — a voz de Dante veio de longe, como se estivéssemos separados por um vidro. — Tá tudo bem?
Engoli seco, bloqueando a tela.
— Tá sim… — menti, sentindo o peso da mentira na língua.
Olhei pela janela, mas a imagem ainda estava lá, como se tivesse se colado no fundo da minha mente. E, no fundo, eu sabia… aquilo não era coincidência.

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