Eu saí do casarão quase tropeçando de raiva. Ainda ouvia a voz de Adriano ecoando na minha cabeça, dura, seca, cheia de ira — como se eu tivesse cometido um crime por querer dar um dia feliz para a filha dele.
As lágrimas ficaram queimando por trás dos meus olhos, mas eu me recusei a deixá-las cair enquanto caminhava pelo terreiro próximo à casa. Só permiti que a respiração curta e acelerada denunciasse o meu estado quando estava um pouco mais longe.
E também, só percebi que tinha um destino em mente quando vi surgir a árvore de raiz grande que ficava próxima às casas da vila.
Sentei na raiz mais larga, fria sob minha pele quente, e só então deixei que tudo rompesse. O choro saiu áspero, convulsivo, rasgando o ar com um tipo de desespero escandaloso.
E agora?
Se ele me demitir… para onde eu vou?
Se Gino me encontrar… o que vai acontecer comigo?
Eu estava segura ali. Isso era o único fato firme que eu tinha desde que fugi. A fazenda, com todos os seus segredos e seus silêncios, ainda era o lugar onde ninguém iria me procurar. Mas se Adriano me expulsasse… eu teria que começar tudo de novo. E estava sem forças.
E então, senti a presença de alguém.
Não ouvi passos. Não ouvi folhas mexendo. Não houve aviso. Mas a presença dele chegou como um calor por trás de mim; primeiro suave, depois nítido, como se o ar tivesse mudado de densidade. Quando levantei o rosto, enxugando as lágrimas com o dorso da mão, vi Adriano parado a poucos metros.
Por alguns segundos, ficamos ali, sem dizer nada. Ele me olhava — não com raiva, não com indignação, mas com algo que eu não conseguia decifrar.
— Eu… — comecei, a voz falhando — Eu não queria que nada de ruim acontecesse com sua filha.
Ele não respondeu de imediato. Caminhou alguns passos devagar e parou ao lado da árvore.
Senti o coração disparar.
— Eu sei — ele disse, enfim.
A voz soou baixa e suave
— Às vezes… — ele continuou olhando para a terra — Eu só… não sei o que fazer.
Aquilo me pegou desprevenida. Levantei o rosto lentamente, tentando entender o que ele queria dizer. Seus olhos estavam fixos na raiz, mas a tensão nos ombros indicava que ele estava travando uma batalha interna.
— Não é fácil para mim — murmurou, com uma sinceridade que eu não esperava. — Ver Cecilia assim. Pensar que eu posso perder mais uma pessoa.
— Alguma coisa com a Cecília? — perguntei, assustada.
Ele desligou e guardou o telefone no bolso.
— Não é com a Cecília, mas tenho que resolver uma emergência. — disse como se lamentasse precisar partir.
Assenti, incapaz de responder qualquer coisa. Ainda estava presa naquela confusão de sensações que ele tinha deixado no ar.
Adriano deu dois passos para trás e virou as costas para mim. Subiu na picape, fechou a porta, ligou o motor e foi embora. O som do veículo se afastando pela estrada de terra desapareceu rápido, deixando apenas o barulho do vento passando pelas folhas da árvore.
Eu continuei ali sentada, imóvel, tentando recuperar o ar que não percebi que tinha perdido.
O que… tinha sido aquilo?
Por que eu me sentia tão quente por dentro? Por que meu coração estava batendo como se tivesse corrido um quilômetro? Eu não sabia.
Mas, as batidas do meu coração me deixaram ainda mais assustada do que a ameaça de perder o emprego.

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