Acordei bem mais disposta. O sol já batia alto na janela quando desci para a cozinha. Senti um alívio estranho, como se aquele fosse o primeiro dia real da minha nova vida.
Quando entrei na cozinha, encontrei Quitéria tirando uma travessa de pão de queijo do forno, enquanto Mundico já mastigava um pedaço enorme, queimando a língua.
— Ô menina, bom dia! — ele disse, com a boca cheia. — Vem comer antes que esfrie.
Sorri.
— Bom dia — respondi, me sentando. — Dormi tão pesado esta noite!
— Aqui todo mundo madruga — Quitéria comentou, servindo café. — Serviço na roça não espera ninguém.
— Tô percebendo — respondi, dando um gole na bebida quente.
Mundico limpou as mãos na calça jeans surrada e se inclinou sobre a mesa.
— Então, já pensou no que vai fazer hoje com a pequena?
— Pensei em levar ela para algum lugar aberto — respondi. — Acho que um pouco de sol e natureza vai fazer bem.
Ele sorriu, concordando.
— Se quiser, pode pegar a picape velha que tá atrás da casa.
— Posso mesmo?
— Pode, ué. — Mundico riu. — Mas leva devagar, a bicha treme mais que varal no vento.
Quitéria me observava com o olhar atravessado, como quem queria dizer alguma coisa, mas desistiu.
Terminei o café e fui buscar Cecilia.
***
A picape velha realmente tremia. Cada buraco na estrada fazia o painel chacoalhar e o retrovisor vibrar como se fosse cair a qualquer momento.
— Vamos fazer um piquenique — contei a ela. — Trouxe frutas, pão e suco. Você vai gostar.
Chegamos ao rio depois de uns dez minutos. A água era cristalina, correndo mansa entre as pedras. Espalhei a toalha no chão, tirei os sapatos e deixei os pés tocando a água gelada. Cecilia me imitou, mas mergulhou os dois pés de uma vez, rindo baixinho — uma risada sem som, só ar, mas que iluminou todo o rosto dela.
Durante a manhã toda, ela se divertiu muito. Cecilia corria pela margem, recolhia pedras diferentes, me mostrava galhos em forma de coração. Eu mergulhei com ela no rio raso, deixei ela molhar meu cabelo, deixei que me puxasse pela mão como se quisesse me mostrar segredos escondidos na água corrente.
Às duas da tarde, recolhi tudo e coloquei na picape.
No caminho de volta, notei que ela estava quieta demais. O rostinho apoiado no vidro, a respiração lenta. Toquei sua testa. Estava quente. Muito quente!
Dei mais velocidade à picape, o motor roncando alto, mas eu só conseguia pensar: por favor, não fica doente, não hoje, não agora.
Assim que estacionei na frente da casa grande, Adriano apareceu na varanda, como se já estivesse esperando más notícias. Ele caminhou na nossa direção com aquele jeito firme, duro, que parecia moldado para intimidar.
Quando ele viu o estado da filha, os olhos se estreitaram.
— O que aconteceu? — perguntou, a voz baixa mas afiada.
— Ela… ela tá com febre — respondi, tirando o cinto de segurança de Cecilia.
Ele avançou rápido, pegou a menina nos braços e tocou sua testa.
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