ADRIANO
Entrei na Instituição de Ensino naquela tarde com o coração batendo mais forte do que em qualquer negociação de terra que já fiz na vida.
A moça da recepção levantou os olhos e sorriu de forma profissional.
— Boa tarde. Em que posso ajudar?
— Boa tarde — respondi, limpando a garganta. — Eu… gostaria de falar com uma professora... Marja.
— E seu nome, senhor?
— Sou um amigo. Queria fazer uma surpresa.
— Por favor, me acompanhe.
Segui-a por um corredor silencioso até uma sala ampla, com algumas cadeiras, uma mesa baixa e uma grande janela de vidro que dava para a entrada principal. Ela pediu que eu aguardasse ali e saiu, fechando a porta com cuidado.
Fiquei sozinho.
Andei pela sala sem rumo certo, mãos nos bolsos, passos curtos. Parei diante da janela e me encostei nela, de frente para a porta de entrada, como se meu corpo tivesse escolhido aquele lugar por conta própria. Eu precisava vê-la chegar.
O tempo pareceu se alongar. Mas de repente a porta se abriu e Marja entrou. No primeiro segundo, eu não vi o rosto dela. Vi a barriga: estufada, evidente, inquestionável.
Recebi um impacto tão violento, que meu corpo todo tremeu, da cabeça aos pés. Minha mente tentou correr, entender, calcular datas, negar — mas não houve tempo. Meu coração saltitava violento dentro do peito e precisei apoiar a mão na janela para não perder o equilíbrio.
“Ela está grávida”, pensei.
Meus olhos fizeram o resto do caminho sozinhos. Marja entrou com passos firmes. O cabelo estava preso em um coque alto, deixando o rosto completamente à mostra.
Ela usava uma calça de tecido que caía perfeitamente sobre o corpo e uma bata clara com botões frontais, que desenhava a barriga de forma delicada e, ao mesmo tempo, impossível de ignorar. O salto alto completava a imagem de alguém segura, inteira, dona de si.
Ela não parecia mais a garota da fazenda. Era uma mulher. Uma mulher linda. Meu olhar a percorreu com uma reverência silenciosa que eu não consegui conter.
Ela parou. Seus olhos tornaram-se maiores. Ela também estava surpresa ao me ver. E por um breve instante, nenhum de nós se moveu.
Os olhos dela encontraram os meus, e vi ali algo que me atingiu mais forte do que a barriga, mais forte do que qualquer suposição: surpresa contida, cautela… e uma sombra de algo que eu conhecia bem demais. Dor.
— Adriano!? — disse ela, num tom baixo, quase incrédulo.
Ouvir meu nome na boca dela depois de tanto tempo foi como levar um soco no peito. Abri a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu. Tudo o que eu tinha ensaiado durante o caminho até ali evaporou no instante em que percebi aquela gravidez.
Era uma linha divisória.
Meu olhar voltou, sem pedir licença, para a barriga novamente. Um gesto involuntário. Marja percebeu. Os ombros dela se retesaram quase imperceptivelmente, e então ela levou a mão até a frente do corpo, num gesto instintivo de proteção.
Depois do impacto inicial — aquele soco silencioso que a visão da barriga me deu — eu dei alguns passos à frente. Lentos. Cuidadosos
Marja continuava parada, firme, mas havia algo de defensivo na forma como mantinha a mão sobre o ventre. Aquilo me doeu mais do que deveria. Não porque ela estivesse grávida, mas porque, instintivamente, ela se protegia de mim.
— Quando… — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava — quando você ia me contar?
Assim que as palavras deixaram minha boca, eu soube que não havia volta. Não era uma acusação. Também não era surpresa. Era uma constatação.
Eu a conhecia bem. Conhecia o silêncio dela, os tempos dela, os medos que ela escondia atrás de uma postura aparentemente firme. E, acima de tudo, eu sabia — com uma certeza que não admitia rachaduras — que aquele filho era meu.
Não precisei fazer contas. Não precisei perguntar nada. A lembrança veio inteira, crua, viva demais.
A casa de praia.
O cheiro de maresia entrando pelas janelas abertas, o barulho distante das ondas, o corpo dela no meu. Lembrei do cuidado exagerado, quase doloroso, que tive ao tocá-la. Da forma como ela confiou em mim de um jeito que eu nunca mais tinha visto alguém confiar. Lembrei do medo que senti de machucá-la, de feri-la, de quebrar algo precioso demais.
E lembrei de como, tomado por tudo aquilo, eu simplesmente esqueci de me prevenir.



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