Naquele momento eu estava na cozinha picando uma alface para fazer uma salada. Me esforçava para mudar meus hábitos alimentares, esquecer pizza e lasanha e comer mais vegetais, embora não gostasse muito.
Eu caminhava devagar entre a cozinha e a sala, uma mão apoiada na barriga, a outra segurando uma xícara de chá já frio, quando ouvi a batida na porta.
Três toques.
Nem fortes, nem apressados. Tive um pressentimento estranho, daqueles que começam no estômago e sobem pelo peito. Apoiei a xícara na mesa e fui até a porta com cuidado, sentindo o peso do corpo alterar meu equilíbrio.
Quando abri, me deparei com aquele sorriso largo.
— Catarina?
Ela estava ali, parada, segurando a bolsa com as duas mãos.
— Oi, Marja.
Ficamos nos olhando, meio sem jeito, meio emocionadas, até que o olhar dela desceu — inevitável — até a minha barriga.
Os olhos de Catarina se arregalaram.
— Meu Deus… — ela levou a mão à boca. — Marja… você está grávida!
Não era surpresa exagerada. Era impacto puro.
— Estou — respondi, sem rodeios. — Bem grávida.
Ela riu nervosa, ainda tentando entender.
— Eu… eu não sabia. Ninguém me contou nada.
— Porque ninguém sabe — disse, abrindo espaço para ela entrar. — Entra.
Catarina passou pela porta lentamente, como se tivesse medo de quebrar algo invisível. Assim que entrou, virou-se de novo para mim.
— Posso…? — apontou para a barriga.
— Pode — sorri
Ela tocou de leve na minha barriga, quase com reverência.
— É um menino — falei com orgulho.
— Um menino! E já tem nome?
— Alex
— Lindo nome! Meu Deus! Isso muda tudo.
— Muda mesmo — concordei.
Sentamos no sofá, uma de frente para a outra. Catarina parecia inquieta, mexendo nos dedos, como se tivesse várias coisas para dizer e não soubesse por onde começar.
— Eu vim porque… — respirou fundo — …porque eu queria te ver antes de viajar.
— Viajar?
O sorriso dela apareceu, mais firme agora.
— Eu e o Leon nos casamos.
Pisquei, surpresa.
— Casaram?
— No cartório — explicou rápido. — Bem simples. Só nós dois. Sem festa, sem vestido, sem nada grandioso.
Senti algo aquecer dentro de mim.
— Catarina… isso é lindo!
— Foi do jeito que tinha que ser — ela disse. — E agora estamos saindo em lua de mel. Curtinha, mas nossa.
— Fico muito feliz por você — falei, de verdade.
Ela respirou fundo e então olhou novamente para minha barriga, como se aquela imagem ainda estivesse se encaixando.
— Adriano sabe?
A pergunta veio calma, sem cobrança. Balancei a cabeça.
— Não.
— Não sabe? — Catarina se espantou.
— Não — repeti.
Catarina apoiou as costas no sofá, pensativa.
— Mas ele é o pai e precisa saber.
De repente Catarina arregalou os olhos para mim e perguntou:
— Grávida. De seis semanas.
Levantei-me com dificuldade e a abracei imediatamente. Um abraço lento, cuidadoso, cheio de compreensão silenciosa.
— Catarina… — murmurei. — Que coisa linda!
— Eu ainda estou assustada — confessou.
— A maternidade faz isso — sorri com a boca ainda encostada no ombro dela. — Mistura tudo.
— Mas Leon está feliz. Muito feliz. Os filhos dele do outro casamento já são quase adultos e ele está vivendo uma nova experiência.
Catarina ficou comigo naquela tarde. Comemos bolo e bebemos café. E ela insistiu em lavar a louça, mesmo eu dizendo que não precisava.
— Agora você tem que aceitar ajuda — ela disse. — Vai se acostumando.
Rimos.
Voltamos ao sofá, conversamos sobre o cartório, sobre Leon nervoso, sobre o vestido simples que ela usou para casar.
Catarina olhava para a minha barriga.
.— Você sempre foi forte — ela disse.
— Não — corrigi. — Eu só aprendi a continuar.
Catarina se levantou para ir embora já no fim da tarde.
— Obrigada por me receber — disse. — E por confiar em mim.
— Obrigada por ficar — respondi.
Ela me abraçou mais uma vez.
Quando Catarina ligou o carro, me disse antes de partir:
— Não vou contar nada para o Adriano. Isso é assunto de vocês.
— Obrigada — respondi com gratidão.
Fiquei na porta observando enquanto o carro se afastava pela rua movimentada.
A casa voltou a ficar silenciosa.

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