Eu congelei quando entrei na sala e vi Adriano. Ele estava de pé, próximo à janela.
Por um segundo, pensei que estivesse sonhando. Ou tendo uma alucinação provocada pelo cansaço. Mas não. Era ele. A mesma postura firme, os ombros largos, o olhar intenso que sempre me atravessou inteira.
À princípio, nenhum de nós se moveu. Em seguida eu balbuciei:
— Adriano!?
Mas então o olhar dele desceu.
Dos meus olhos… para minha barriga.
Eu vi quando ele percebeu. Vi quando o ar faltou nos pulmões dele. Vi quando a ficha caiu. Não havia mais como negar. Minha barriga estava grande, volumosa, viva.
A mão dele tremeu levemente. E a pergunta que me fez veio carregada de dor.
— Quando ia me contar?
— Eu não sei — respondi com sinceridade.
Ele passou a mão pelo rosto, atordoado. E disse:
— Meu Deus…
Em seguida deu um passo na minha direção. E confessou:
— Eu devia ter vindo atrás de você antes.
Adriano se aproximou mais um passo. Agora estávamos perto demais. O cheiro dele me envolveu como uma lembrança viva. Todas os momentos que vivemos juntos passaram pela minha mente como uma cena de filme.
E naquele momento ele abriu o coração.
As lágrimas começaram a arder nos meus olhos, devido as circunstâncias, porque para alguém como Adriano que tinha dificuldades com as palavras, ele estava falando muito.
Adriano me pediu perdão. E disse coisas bonitas, que me preencheram e aqueceram meu coração. Aquelas palavras me atingiram como um golpe direto no peito. Eu esperei tanto para ouvi-las. Em tantas noites silenciosas e solitárias, eu imaginei aquele momento.
Ele então, se inclinou levemente, a mão deslizando pelo meu rosto, daquele jeito que ele sabia fazer muito bem. E eu já sabia o que ele ia fazer antes mesmo que acontecesse. Ele ia me beijar.
Por um segundo eu quis deixar. Quis esquecer tudo e me jogar nos braços dele. Quis sentir a boca dele na minha como tantas vezes antes.
Mas não. Virei o rosto e só Deus sabe o quanto aquilo me custou.
Os lábios de Adriano tocaram minha bochecha.
— Não — eu disse, firme, mesmo com o coração implodindo de amor, de paixão por ele.
Ele se afastou um pouco, surpreso.
— O que foi?
“Eu amo você. Mais do que eu deveria. Mais do que é seguro. Mas eu me amo também”. Pensei e quis dizer, mas o que saiu da minha boca foi:
— É melhor que tudo continue como está.
Ele parecia devastado.
Eu coloquei a mão sobre minha barriga, sentindo meu filho se mexer levemente, como se percebesse minha angústia.
— Nunca vou tirar seu direito de pai. Mas é só isso — finalizei a conversa.
Ele respirou fundo, como se estivesse tentando não desabar.
— Marja, a gente precisa conversar... Temos tantas coisas para acertar...
Naquele momento fomos interrompidos. A secretária entrou informando que as crianças estavam me aguardando. Me despedi rápido e fugi da presença de Adriano, como se ele tivesse uma doença contagiosa.
Assim que alcancei o corredor, minhas pernas começaram a falhar. Caminhei rápido, quase correndo, até o banheiro feminino. E ali, finalmente, eu desmoronei. As lágrimas vieram em ondas.
Ver Adriano tinha desmontado cada estrutura que eu levei meses para reconstruir. Eu não o rejeitei por raiva. Nem por orgulho. Eu o rejeitei porque o amava demais para aceitar migalhas, sabendo que o fantasma de Antonela ainda vivia entre nós.
Encostei a testa na parede fria.
— Eu queria que tudo fosse diferente — sussurrei para meu filho.
Passei a mão na barriga, buscando conforto.
Aquilo doía. Doía como se eu estivesse arrancando uma parte de mim.
E eu estava.
***
Na manhã seguinte, trabalhei meio desnorteada. Sabia que eu e Adriano ainda teríamos muitas coisas para conversar e aquilo me assustava. Por que eu tinha medo de fraquejar.
Quando saí da escola eu estava cansada e com muita fome. O turno da manhã tinha sido cheio: duas crianças com febre, uma reunião inesperada com a coordenação, e eu sentia aquele peso constante no baixo-ventre — não dor, exatamente, mas uma consciência permanente de que eu não estava sozinha dentro do meu próprio corpo.
Havia uma sinaleira bem na frente do portão da escola.
Atravessei o pequeno estacionamento e parei na calçada. Do outro lado da rua, a delicatessen tinha as luzes amarelas acesas e o cheiro de pão fresco escapava sempre que alguém abria a porta. Eu estava com um desejo específico por biscoitos amanteigados com gotas de chocolate. Aqueles redondinhos que derretiam na boca.
— Você está mandando em mim — murmurei baixinho, sorrindo para mim mesma enquanto acariciava a barriga.
O sinal para pedestres abriu. Dei o primeiro passo e o mundo explodiu em um barulho ensurdecedor. Um carro surgiu à direita, vindo na minha direção, como uma sombra metálica e veloz, avançando o sinal.
Não houve tempo para pensar. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Dei um passo brusco para trás. O salto da sandália escorregou no asfalto, eu perdi o equilíbrio. A queda foi seca.
Primeiro o impacto do quadril batendo no chão duro, depois o cotovelo, depois minhas mãos tentando se agarrar em alguma coisa.
E então a dor. Uma fisgada violenta no baixo-ventre que roubou o ar dos meus pulmões.
— Ah… — o som saiu como um sopro quebrado.
O carro passou a centímetros de mim, buzinas ecoaram, alguém gritou. O cheiro de borracha queimada misturou-se ao pó da rua.
Eu tentei me sentar. Senti outra pontada. Muito mais forte e uma onda quente de pânico subiu pelo meu peito.
Minha mão voou para a barriga.
— Não… — sussurrei.
Respira, Marja. Respira. Eu falava em pensamento para mim mesma. Mas a dor não obedecia. Ela vinha em ondas, apertando, esmagando.
Meu bebê. Meu bebê.
Algumas pessoas se aproximaram. Alguém me deitou no chão. E passos conhecidos correram em minha direção.
— Marja! — uma voz masculina, urgente.
Lucas.
Eu reconheci o timbre da sua voz.
Ele surgiu acima de mim, o rosto pálido, os olhos arregalados e se ajoelhou ao meu lado.
— Você está machucada? O carro te pegou?
Eu tentei falar, mas a dor me cortou no meio da frase.
— Eu… eu…
Ele passou as mãos pelo meu braço, pelos ombros, verificando se havia sangue.
— Meu Deus, você bateu a cabeça? Está tonta? Consegue me ouvir?
Eu agarrei a camisa dele com força.
A dor aumentou.
Uma pressão profunda, assustadora.
E então o medo ganhou forma.
— Meu bebê… — minha voz saiu trêmula. — Meu bebê…
Ele congelou.
— O quê?



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO