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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 101

Eu congelei quando entrei na sala e vi Adriano. Ele estava de pé, próximo à janela.

Por um segundo, pensei que estivesse sonhando. Ou tendo uma alucinação provocada pelo cansaço. Mas não. Era ele. A mesma postura firme, os ombros largos, o olhar intenso que sempre me atravessou inteira.

À princípio, nenhum de nós se moveu. Em seguida eu balbuciei:

— Adriano!?

Mas então o olhar dele desceu.

Dos meus olhos… para minha barriga.

Eu vi quando ele percebeu. Vi quando o ar faltou nos pulmões dele. Vi quando a ficha caiu. Não havia mais como negar. Minha barriga estava grande, volumosa, viva.

A mão dele tremeu levemente. E a pergunta que me fez veio carregada de dor.

— Quando ia me contar?

— Eu não sei — respondi com sinceridade.

Ele passou a mão pelo rosto, atordoado. E disse:

— Meu Deus…

Em seguida deu um passo na minha direção. E confessou:

— Eu devia ter vindo atrás de você antes.

Adriano se aproximou mais um passo. Agora estávamos perto demais. O cheiro dele me envolveu como uma lembrança viva. Todas os momentos que vivemos juntos passaram pela minha mente como uma cena de filme.

E naquele momento ele abriu o coração.

As lágrimas começaram a arder nos meus olhos, devido as circunstâncias, porque para alguém como Adriano que tinha dificuldades com as palavras, ele estava falando muito.

Adriano me pediu perdão. E disse coisas bonitas, que me preencheram e aqueceram meu coração. Aquelas palavras me atingiram como um golpe direto no peito. Eu esperei tanto para ouvi-las. Em tantas noites silenciosas e solitárias, eu imaginei aquele momento.

Ele então, se inclinou levemente, a mão deslizando pelo meu rosto, daquele jeito que ele sabia fazer muito bem. E eu já sabia o que ele ia fazer antes mesmo que acontecesse. Ele ia me beijar.

Por um segundo eu quis deixar. Quis esquecer tudo e me jogar nos braços dele. Quis sentir a boca dele na minha como tantas vezes antes.

Mas não. Virei o rosto e só Deus sabe o quanto aquilo me custou.

Os lábios de Adriano tocaram minha bochecha.

— Não — eu disse, firme, mesmo com o coração implodindo de amor, de paixão por ele.

Ele se afastou um pouco, surpreso.

— O que foi?

“Eu amo você. Mais do que eu deveria. Mais do que é seguro. Mas eu me amo também”. Pensei e quis dizer, mas o que saiu da minha boca foi:

— É melhor que tudo continue como está.

Ele parecia devastado.

Eu coloquei a mão sobre minha barriga, sentindo meu filho se mexer levemente, como se percebesse minha angústia.

— Nunca vou tirar seu direito de pai. Mas é só isso — finalizei a conversa.

Ele respirou fundo, como se estivesse tentando não desabar.

— Marja, a gente precisa conversar... Temos tantas coisas para acertar...

Naquele momento fomos interrompidos. A secretária entrou informando que as crianças estavam me aguardando. Me despedi rápido e fugi da presença de Adriano, como se ele tivesse uma doença contagiosa.

Assim que alcancei o corredor, minhas pernas começaram a falhar. Caminhei rápido, quase correndo, até o banheiro feminino. E ali, finalmente, eu desmoronei. As lágrimas vieram em ondas.

Ver Adriano tinha desmontado cada estrutura que eu levei meses para reconstruir. Eu não o rejeitei por raiva. Nem por orgulho. Eu o rejeitei porque o amava demais para aceitar migalhas, sabendo que o fantasma de Antonela ainda vivia entre nós.

Encostei a testa na parede fria.

— Eu queria que tudo fosse diferente — sussurrei para meu filho.

Passei a mão na barriga, buscando conforto.

Aquilo doía. Doía como se eu estivesse arrancando uma parte de mim.

E eu estava.

***

Na manhã seguinte, trabalhei meio desnorteada. Sabia que eu e Adriano ainda teríamos muitas coisas para conversar e aquilo me assustava. Por que eu tinha medo de fraquejar.

Quando saí da escola eu estava cansada e com muita fome. O turno da manhã tinha sido cheio: duas crianças com febre, uma reunião inesperada com a coordenação, e eu sentia aquele peso constante no baixo-ventre — não dor, exatamente, mas uma consciência permanente de que eu não estava sozinha dentro do meu próprio corpo.

Havia uma sinaleira bem na frente do portão da escola.

Atravessei o pequeno estacionamento e parei na calçada. Do outro lado da rua, a delicatessen tinha as luzes amarelas acesas e o cheiro de pão fresco escapava sempre que alguém abria a porta. Eu estava com um desejo específico por biscoitos amanteigados com gotas de chocolate. Aqueles redondinhos que derretiam na boca.

— Você está mandando em mim — murmurei baixinho, sorrindo para mim mesma enquanto acariciava a barriga.

O sinal para pedestres abriu. Dei o primeiro passo e o mundo explodiu em um barulho ensurdecedor. Um carro surgiu à direita, vindo na minha direção, como uma sombra metálica e veloz, avançando o sinal.

Não houve tempo para pensar. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Dei um passo brusco para trás. O salto da sandália escorregou no asfalto, eu perdi o equilíbrio. A queda foi seca.

Primeiro o impacto do quadril batendo no chão duro, depois o cotovelo, depois minhas mãos tentando se agarrar em alguma coisa.

E então a dor. Uma fisgada violenta no baixo-ventre que roubou o ar dos meus pulmões.

— Ah… — o som saiu como um sopro quebrado.

O carro passou a centímetros de mim, buzinas ecoaram, alguém gritou. O cheiro de borracha queimada misturou-se ao pó da rua.

Eu tentei me sentar. Senti outra pontada. Muito mais forte e uma onda quente de pânico subiu pelo meu peito.

Minha mão voou para a barriga.

— Não… — sussurrei.

Respira, Marja. Respira. Eu falava em pensamento para mim mesma. Mas a dor não obedecia. Ela vinha em ondas, apertando, esmagando.

Meu bebê. Meu bebê.

Algumas pessoas se aproximaram. Alguém me deitou no chão. E passos conhecidos correram em minha direção.

— Marja! — uma voz masculina, urgente.

Lucas.

Eu reconheci o timbre da sua voz.

Ele surgiu acima de mim, o rosto pálido, os olhos arregalados e se ajoelhou ao meu lado.

— Você está machucada? O carro te pegou?

Eu tentei falar, mas a dor me cortou no meio da frase.

— Eu… eu…

Ele passou as mãos pelo meu braço, pelos ombros, verificando se havia sangue.

— Meu Deus, você bateu a cabeça? Está tonta? Consegue me ouvir?

Eu agarrei a camisa dele com força.

A dor aumentou.

Uma pressão profunda, assustadora.

E então o medo ganhou forma.

— Meu bebê… — minha voz saiu trêmula. — Meu bebê…

Ele congelou.

— O quê?

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