Voltei a trabalhar depois de três dias.
O sinal do fim do expediente tocou e, pela primeira vez naquele dia, eu senti o peso real do meu corpo.
Minha barriga já estava bem grande. O tecido do vestido marcava a curva evidente, redonda, impossível de esconder. Cada movimento exigia mais cuidado. Cada passo merecia ser calculado.
Eu me despedi das colegas, organizei os últimos papéis e atravessei o corredor da escola com a mão apoiada na lombar.
Quando passei pelo portão, eu o vi.
Adriano estava encostado no carro, os braços cruzados, o olhar fixo na entrada como se estivesse esperando por um veredito. Ele não estava ali por acaso. O jeito como se mantinha rígido dizia isso.
Meu coração apertou antes mesmo de eu chegar perto.
— Adriano? — chamei.
Ele levantou o rosto. Havia olheiras fundas sob os olhos.
— Marja.
O jeito como ele disse meu nome já trouxe o pressentimento.
— O que aconteceu?
Ele respirou fundo, como se precisasse criar coragem.
— Cecília está internada.
Eu senti o chão fugir por um segundo.
— Internada? — minha voz falhou. — Ela está doente?
— Não… não é uma doença física. — Ele passou a mão pelo cabelo, nervoso. — É ansiedade. Muito forte. Ela não está comendo direito, não está dormindo. Tem crises de choro… pânico.
Meu peito se apertou.
— Desde quando?
— Desde que… — ele hesitou — desde que eu te demitir.
Eu fiquei em silêncio.
— Ela chama por você o tempo todo — ele fez uma pausa para acrescentar: — Ela voltou a falar.
— Mesmo? — perguntei.
Ele assentiu e eu quase chorei de alegria.
— Ela pergunta quando você volta e se você vai ficar. Os médicos acharam melhor trazê-la para uma clínica infantil por alguns dias. Para estabilizar.
Meu bebê se mexeu dentro de mim, como se sentisse a tensão.
— Ela quer me ver? — perguntei baixo.
Ele assentiu.
— O tempo todo.
Não pensei duas vezes.
— Vamos.
Entrei no carro sem dizer mais nada. Durante o trajeto, o silêncio era pesado demais. Eu olhava pela janela, mas não via a cidade — só a imagem de Cecília chorando, chamando meu nome.
— Eu não queria te pressionar — Adriano disse de repente. — Mas ela está sofrendo.
— Eu sei.
A clínica ficava em uma área mais afastada, cercada por árvores altas e jardins amplos. Não parecia um hospital. Parecia uma casa grande adaptada, com janelas abertas e bancos de madeira espalhados pelo gramado. O ar ali era leve.
Mas meu peito estava pesado.
Entramos pela recepção silenciosa. Uma enfermeira nos conduziu até o pátio principal.
E então eu a vi.
Cecília estava sentada no chão de pedra, concentrada em um quebra-cabeças enorme, espalhado sobre uma mesa baixa. O cabelo estava preso em duas tranças malfeitas. O rosto mais pálido do que eu lembrava.
Ela parecia menor. Mais frágil.
— Cecília — Adriano chamou suavemente.
Ela levantou o rosto.
Os olhos encontraram os meus.
Por um segundo, ela ficou imóvel. E então levantou. Quando começou a correr na minha direção, foi que o olhar dela desceu para a minha barriga. Ela desacelerou por um segundo, confusa.
Os olhos se arregalaram. Mas mesmo assim ela correu.
— Marja!
Eu me abaixei com dificuldade, ignorando o peso do corpo. Ela se jogou nos meus braços. Eu a abracei forte, como se quisesse protegê-la de tudo.
— Você veio… — a voz dela saiu embargada.
— Sim. Estou aqui, minha pequena.
Ela se afastou um pouco, as mãos pequenas apoiadas na minha barriga.
— Você está… — ela tocou com cuidado. — Você está com um bebê na barriga?
O silêncio caiu ao nosso redor.
Adriano se aproximou, tenso. Eu olhei nos olhos dela. Não havia como esconder.
— Estou.
Os olhos dela encheram de lágrimas.
— Do papai?
A pergunta foi quase um sussurro.
— Sim.
Ela ficou quieta por alguns segundos, processando.
— Então ele é meu irmão?
Meu coração apertou.

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