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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 104

Saímos da clínica como se carregássemos o peso do prédio inteiro sobre os ombros. O ar da tarde estava morno, mas eu sentia frio. Talvez fosse o ar-condicionado que ainda parecia preso à minha pele, talvez fosse o meu emocional, a gravidez, ou quem sabe talvez fosse por ver Cecilia naquela situação. Uma criança não merecia ficar internada longe da família.

— Você está com fome? — Adriano perguntou de repente, ainda olhando para frente.

Neguei com a cabeça.

— Um sorvete, então? — insistiu, a voz baixa. — Só pra… não sei. Esfriar a cabeça.

Eu quase disse não. Mas havia algo nos olhos dele, quando finalmente me olhou, que me fez ceder.

— Está bem.

Paramos numa sorveteria simples, daquelas com cadeiras de plástico na calçada e guarda-sóis coloridos.

Escolhi um sorvete de creme. Ele, chocolate. Sempre chocolate. Algumas coisas não mudam.

Sentamos lado a lado, de frente para a rua. O movimento seguia indiferente ao nosso caos: pessoas atravessando na faixa, crianças puxando as mãos das mães, motos cortando os carros com pressa.

Adriano demorou a falar. Ficou mexendo no sorvete com a colher, como se estivesse procurando coragem no fundo do copo.

— Eu comecei um tratamento — ele disse por fim.

Olhei para ele.

— Tratamento?

Ele assentiu.

— No Centro de Reabilitação. Para alcoolizados.

A palavra ficou suspensa entre nós. Alcoolizados.

Ele não desviou o olhar.

— Estou há três meses frequentando. Reuniões toda semana. Terapia em grupo. Às vezes, individual também.

Eu senti algo aliviar por dentro. Minha alegria foi tão grande, que eu não consegui me expressar do jeito que gostaria.

— Por que você não me contou?

Ele soltou um riso sem humor.

— Estou contando agora. Além do mais não estávamos nos comunicando bem.

— E você sabe porquê.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Eu sei. Eu sei que errei. Sei que te machuquei. — Ele respirou fundo. — Mas eu não estou tentando justificar nada. Só… estou tentando melhorar.

O vento leve levantou uma mecha do meu cabelo. Ele, instintivamente, estendeu a mão para ajeitar atrás da minha orelha, mas parou no meio do caminho, como se tivesse perdido o direito.

— Eu quero ser um pai de família exemplar — ele continuou, a voz embargada. — Quero mudar. Quero que você volte para mim.

Meu coração bateu mais forte. Foi um impacto. Como se alguém tivesse batido nele por dentro.

Voltar.

A palavra parecia simples demais para tudo o que tinha acontecido.

Eu apoiei a colher na borda do copo. O sorvete começava a derreter.

— Eu preciso de tempo, Adriano — falei devagar. — Não tenho condições de decidir nada agora.

Era a única verdade possível.

Ele me observou por alguns segundos, procurando talvez algum sinal escondido nas minhas feições.

— Tudo bem, — disse por fim. — No seu tempo.

E, surpreendentemente, não havia cobrança na voz dele. Nem impaciência. Só aceitação.

Ficamos em silêncio depois disso.

O barulho da rua parecia mais distante. Uma criança passou correndo com um balão azul. Um casal discutia baixinho na mesa ao lado. Uma senhora com sacolas pesadas atravessou devagar, ignorando o sinal fechado. Naquele momento me lembrei do que aconteceu comigo - do quase atropelamento e da queda. Mas eu não tinha coragem no momento, de contar para Adriano, sabendo que ele perdeu um bebê num acidente de carro. Eu não sabia como estava o emocional dele. Tinha medo que ele voltasse a beber, pois o tratamento na clínica de reabilitação ainda estava muito recente.

Eu e Adriano continuávamos ali. Sentados lado a lado. Tomando sorvete. Como se o mundo não tivesse desmoronado entre nós meses atrás.

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