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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 105

O carro parou em frente à minha casa e, por um instante, nenhum de nós se mexeu. A rua estava silenciosa, iluminada apenas pelo poste amarelado da esquina. Eu conseguia ouvir o meu próprio coração, ainda descompassado de tudo o que tínhamos dito na sorveteria.

— Chegamos — Adriano murmurou, como se tivesse medo de quebrar alguma coisa frágil entre nós.

— Chegamos — repeti.

Ele desceu primeiro e deu a volta no carro. Quando abriu a minha porta, aquele gesto me trouxe lembranças. Eu desci devagar, sentindo o cansaço pesar nas pernas. O dia tinha sido longo demais.

Caminhamos até a porta. O ar da noite estava fresco, trazendo o cheiro distante de terra molhada. Eu abri a bolsa para pegar a chave.

Foi quando a dor veio. Aguda. Cortante. Como se algo tivesse se contraído dentro de mim com força.

— Ah… — o gemido escapou antes que eu conseguisse controlar.

A chave escorregou dos meus dedos e caiu no chão, tilintando contra a cerâmica da varanda.

Levei a mão à barriga instintivamente.

— Marja? — A voz de Adriano mudou na mesma hora. — O que foi?

A dor pulsou outra vez, mais forte. Eu fechei os olhos por um segundo.

— É só… — respirei com dificuldade — uma dor. Passa já.

Mas não passou.

Minhas pernas fraquejaram levemente e, antes que eu percebesse, os braços dele estavam ao meu redor, firmes, quentes, sustentando meu peso.

— Ei, ei… calma — ele murmurava perto do meu ouvido. — Respira.

O cheiro dele me envolveu, familiar demais. Seguro demais.

Ele abaixou-se, pegou a chave do chão e abriu a porta.

Eu mal senti quando ele me ergueu. Só percebi que estava sendo carregada quando meu rosto encostou no peito dele e o som do coração dele ecoou no meu ouvido.

Ele me levou para dentro como se eu fosse feita de vidro. Colocou-me sentada no sofá com cuidado e se ajoelhou à minha frente.

— Está doendo muito? — perguntou, os olhos cheios de preocupação.

A dor começou a diminuir, virando um incômodo suportável. Respirei fundo algumas vezes.

— Já está passando… — falei, tentando sorrir. — Acho que foi só uma contração.

Ele empalideceu.

— Contração?

— O médico disse que podem acontecer. O corpo está se adaptando.

Ele passou as mãos pelo cabelo, nervoso.

— Você precisa ir para o hospital?

— Não. — toquei o braço dele. — Não é nada assim. Eu estou bem.

Ele me observou por alguns segundos, como se estivesse avaliando cada detalhe do meu rosto.

— Eu vou ficar até você melhorar.

Eu suspirei.

— Não precisa, eu vou ficar bem.

Ele cruzou os braços, numa postura que eu conhecia muito bem.

— Vou ficar. Está decidido.

Mesmo entre as dores, eu sorri.

— Você voltou a ser o mandão autoritário da fazenda?

Ele arqueou uma sobrancelha, fingindo ofensa.

— Eu nunca deixei de ser.

— Ah, claro. O grande chefe que acha que pode mandar em todo mundo.

Ele se aproximou um pouco mais, apoiando as mãos no sofá, uma de cada lado do meu corpo.

— Eu não quero mandar em você, Marja. — A voz dele ficou mais baixa. — Eu só… preciso ter certeza de que você está bem.

O jeito que ele disse aquilo desarmou qualquer resistência que eu ainda fingia ter.

— Está bem — sussurrei. — Pode ficar.

O alívio passou pelo rosto dele como uma onda suave.

— Você comeu alguma coisa? — perguntou.

Eu fiz uma careta.

— Só o sorvete.

Ele abriu um meio sorriso.

— Sorvete não conta como jantar.

— Para mim conta.

— Não conta. — Ele se levantou

Ele foi até a cozinha. Eu fiquei observando da sala, ouvindo o barulho de panelas, portas de armário abrindo, a água correndo na pia.

Era estranho e bonito ao mesmo tempo.

— Onde fica o arroz? — ele gritou da cozinha.

— Do seu lado esquerdo.

Minutos depois, o cheiro de alho refogado começou a invadir a casa. Meu estômago, traidor, roncou.

Ele apareceu na sala com um pano de prato jogado no ombro.

— Está se sentindo melhor?

— Estou.

— A dor passou?

— Passou.

Ele assentiu, satisfeito.

— Então você vem para a mesa ou eu levo aqui?

— Eu consigo andar, Adriano.

Eu me levantei devagar. Ele ficou ao meu lado, como se estivesse pronto para me segurar a qualquer sinal de fraqueza.

Sentamos à mesa. Ele serviu meu prato antes do dele.

— Você está parecendo um marido dedicado — provoquei.

Capítulo- 105 1

Capítulo- 105 2

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