O carro parou em frente à minha casa e, por um instante, nenhum de nós se mexeu. A rua estava silenciosa, iluminada apenas pelo poste amarelado da esquina. Eu conseguia ouvir o meu próprio coração, ainda descompassado de tudo o que tínhamos dito na sorveteria.
— Chegamos — Adriano murmurou, como se tivesse medo de quebrar alguma coisa frágil entre nós.
— Chegamos — repeti.
Ele desceu primeiro e deu a volta no carro. Quando abriu a minha porta, aquele gesto me trouxe lembranças. Eu desci devagar, sentindo o cansaço pesar nas pernas. O dia tinha sido longo demais.
Caminhamos até a porta. O ar da noite estava fresco, trazendo o cheiro distante de terra molhada. Eu abri a bolsa para pegar a chave.
Foi quando a dor veio. Aguda. Cortante. Como se algo tivesse se contraído dentro de mim com força.
— Ah… — o gemido escapou antes que eu conseguisse controlar.
A chave escorregou dos meus dedos e caiu no chão, tilintando contra a cerâmica da varanda.
Levei a mão à barriga instintivamente.
— Marja? — A voz de Adriano mudou na mesma hora. — O que foi?
A dor pulsou outra vez, mais forte. Eu fechei os olhos por um segundo.
— É só… — respirei com dificuldade — uma dor. Passa já.
Mas não passou.
Minhas pernas fraquejaram levemente e, antes que eu percebesse, os braços dele estavam ao meu redor, firmes, quentes, sustentando meu peso.
— Ei, ei… calma — ele murmurava perto do meu ouvido. — Respira.
O cheiro dele me envolveu, familiar demais. Seguro demais.
Ele abaixou-se, pegou a chave do chão e abriu a porta.
Eu mal senti quando ele me ergueu. Só percebi que estava sendo carregada quando meu rosto encostou no peito dele e o som do coração dele ecoou no meu ouvido.
Ele me levou para dentro como se eu fosse feita de vidro. Colocou-me sentada no sofá com cuidado e se ajoelhou à minha frente.
— Está doendo muito? — perguntou, os olhos cheios de preocupação.
A dor começou a diminuir, virando um incômodo suportável. Respirei fundo algumas vezes.
— Já está passando… — falei, tentando sorrir. — Acho que foi só uma contração.
Ele empalideceu.
— Contração?
— O médico disse que podem acontecer. O corpo está se adaptando.
Ele passou as mãos pelo cabelo, nervoso.
— Você precisa ir para o hospital?
— Não. — toquei o braço dele. — Não é nada assim. Eu estou bem.
Ele me observou por alguns segundos, como se estivesse avaliando cada detalhe do meu rosto.
— Eu vou ficar até você melhorar.
Eu suspirei.
— Não precisa, eu vou ficar bem.
Ele cruzou os braços, numa postura que eu conhecia muito bem.
— Vou ficar. Está decidido.
Mesmo entre as dores, eu sorri.
— Você voltou a ser o mandão autoritário da fazenda?
Ele arqueou uma sobrancelha, fingindo ofensa.
— Eu nunca deixei de ser.
— Ah, claro. O grande chefe que acha que pode mandar em todo mundo.
Ele se aproximou um pouco mais, apoiando as mãos no sofá, uma de cada lado do meu corpo.
— Eu não quero mandar em você, Marja. — A voz dele ficou mais baixa. — Eu só… preciso ter certeza de que você está bem.
O jeito que ele disse aquilo desarmou qualquer resistência que eu ainda fingia ter.
— Está bem — sussurrei. — Pode ficar.
O alívio passou pelo rosto dele como uma onda suave.
— Você comeu alguma coisa? — perguntou.
Eu fiz uma careta.
— Só o sorvete.
Ele abriu um meio sorriso.
— Sorvete não conta como jantar.
— Para mim conta.
— Não conta. — Ele se levantou
Ele foi até a cozinha. Eu fiquei observando da sala, ouvindo o barulho de panelas, portas de armário abrindo, a água correndo na pia.
Era estranho e bonito ao mesmo tempo.
— Onde fica o arroz? — ele gritou da cozinha.
— Do seu lado esquerdo.
Minutos depois, o cheiro de alho refogado começou a invadir a casa. Meu estômago, traidor, roncou.
Ele apareceu na sala com um pano de prato jogado no ombro.
— Está se sentindo melhor?
— Estou.
— A dor passou?
— Passou.
Ele assentiu, satisfeito.
— Então você vem para a mesa ou eu levo aqui?
— Eu consigo andar, Adriano.
Eu me levantei devagar. Ele ficou ao meu lado, como se estivesse pronto para me segurar a qualquer sinal de fraqueza.
Sentamos à mesa. Ele serviu meu prato antes do dele.
— Você está parecendo um marido dedicado — provoquei.


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