Entrar Via

A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 106

Acordei com o cheiro de café fresco.

Por um segundo, ainda meio perdida entre o sono e a realidade, pensei que estivesse sonhando. Minha casa nunca cheirava assim tão cedo. Normalmente sou eu quem arrasta os pés até a cozinha, descabelada, tentando acordar o corpo antes da mente.

Mas naquela manhã havia o som baixo de louça sendo organizada.

Abri os olhos devagar.

A lembrança da noite anterior voltou como uma onda suave: Adriano no sofá, me protegendo, me guardando.

Levei a mão até a barriga instintivamente.

— Bom dia, pequeno — sussurrei.

Levantei com cuidado e caminhei até a sala. Adriano já estava de pé, vestido, cabelo ainda úmido do banho. A mesa estava posta. Café, pão quente, frutas cortadas, até um suco natural.

Eu encostei na parede da cozinha e fiquei observando.

— Você invadiu minha cozinha oficialmente — falei.

Ele virou-se, surpreso, e abriu um sorriso que eu não via há muito tempo.

— Bom dia.

— Bom dia… isso tudo é para mim?

— Para nós dois também — Ele apontou para minha barriga.

Meu coração fez aquele movimento estranho de sempre quando ele incluía o bebê nas frases.

— Você não precisava acordar tão cedo.

Ele deu de ombros.

— Eu quase não dormi.

— Por quê? O sofá é muito desconfortável?

Ele se aproximou com uma caneca na mão.

— Porque eu fiquei ouvindo seu sono agitado. Você não fechou a porta do quarto.

Sentei-me à mesa. Ele puxou a cadeira para mim antes que eu pedisse. Pequenos gestos. Grandes efeitos.

— Como você está? — perguntou, sentando à minha frente.

— Melhor. A dor não voltou.

Ele assentiu, aliviado.

Tomamos café em silêncio por alguns minutos. Era um silêncio… doméstico.

— Eu posso te levar para a escola — ele disse.

— Não precisa.

— Eu quero.

Eu hesitei, mas acabei concordando.

No caminho, ele dirigia com cuidado exagerado, desviando até dos menores buracos.

— Adriano, eu não sou feita de cristal.

Quando estacionou em frente à escola, ele desligou o carro e ficou me olhando por um segundo.

— Depois daqui eu vou para a clínica ver a Cecília — disse.

Meu peito apertou. Eu sorri triste.

Ele desceu e abriu a porta para mim outra vez. Antes que eu entrasse pelo portão, ele segurou minha mão.

— Se sentir qualquer coisa, me liga.

— Eu vou ficar bem.

— Eu espero que sim.

Entrei na escola com o coração leve e confuso ao mesmo tempo.

***

No intervalo do café dos professores, eu caminhei até a sala dos docentes com a cabeça cheia de planos de aula. Abri a porta distraída… e parei.

Lucas estava sentado sozinho à mesa. Ele levantou o olhar quando me viu.

— Marja!

— Oi, Lucas!

Ele se levantou.

— Como você está?

A pergunta era simples, mas o tom era sincero.

— Estou bem. — respondi.

Ele apontou para a cadeira à frente. Sentei-me. Ele me observou com aquele olhar atento que sempre teve.

— E o bebê? — perguntou. — Está tudo bem?

— Está.

Ele sorriu.

— Fico feliz. De verdade.

Começamos a falar sobre a escola. As turmas agitadas, as mudanças na coordenação, os projetos para o próximo semestre. Era estranho como a conversa fluía com naturalidade, como se nunca tivéssemos sido dois adolescentes cheios de orgulho e mágoas.

— Você lembra da feira cultural do terceiro ano, na nossa escola? — ele perguntou.

— Como esquecer? Você deixou “a esquisita” sozinha na apresentação.

Ele fez uma careta.

— Eu era um idiota. Mas a intenção não foi lembrar dessa parte. Foi lembrar que naquela feira a pesquisa que ganhou o prêmio foi a sua.

— Verdade.

Ele riu.

— Olha, o idiota aqui está tentando melhorar, viu?

A frase me fez lembrar de Adriano.

— Engraçado como os homens estão sempre tentando melhorar — murmurei.

O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo.

— Eu posso te dar uma carona hoje? — ele perguntou de repente

Hesitei. Mas não havia mal nenhum em uma carona.

— Está bem.

***

O dia passou rápido demais. Quando saí pelo portão, Lucas já me esperava encostado no carro.

— Pronta?

Fiz sinal afirmativo com a cabeça.

Entramos e o trajeto foi tranquilo. Conversamos sobre livros, sobre antigos professores, sobre como a cidade estava crescendo...

Quando ele parou em frente à minha casa, meu coração deu um salto, porque, no exato momento em que o carro dele estacionou, outro carro virou a esquina. Era Adriano.

O tom dele estava diferente. Mais duro.

— O que você está insinuando?

— Nada. — Ele desviou o olhar. — Não estou insinuando nada.

Mas estava.

Cecília olhava de um para o outro, confusa.

— Vamos entrar? — Eu sugeri, tentando suavizar.

Dentro de casa, o clima continuava tenso.

— Vocês querem ficar para almoçar? — perguntei, tentando recuperar a normalidade.

Cecília abriu um sorriso esperançoso.

— Quero!

Mas Adriano respondeu antes dela:

— Não podemos. Tenho coisas da fazenda para resolver.

Eu o encarei.

— É rápido. Eu faço alguma coisa simples.

— Não precisa.

A resposta foi curta demais. Cecília abaixou a cabeça, desapontada. Eu me ajoelhei diante dela e lhe dei um beijo no rosto.

Quando me levantei, Adriano estava perto da porta.

— Você ficou chateado — eu disse, sem rodeios.

Ele passou a mão pelo cabelo. E me olhou, os olhos carregados de emoção.

— Eu estou tentando fazer tudo certo, Marja. Estou tentando ser o homem que você merece. E aí eu te vejo descendo do carro de outro cara…

— Ele é meu colega de trabalho, já expliquei.

— Ele é homem. E vi como ele olha pra você.

— Você está imaginando coisas. Não confia em mim? — perguntei.

Ele respirou fundo.

— Em você confio. Não confio nele.

— Eu estou grávida. Quem ia querer dar em cima de uma mulher grávida?

— Existem tantos pervertidos por aí que fazem isso.

Olhei para ele séria e disse:

— Você não tem o direito de fazer cenas, sabia? Nós estamos separados.

Ele fechou os olhos por um segundo.

— Eu ligo para você quando chegar na fazenda. E quando voltar vou trazer uma das moças da vila para ficar com você. — Adriano disse.

— Eu vou estar aqui.

Ele hesitou por um segundo, como se quisesse me abraçar, mas não soubesse se podia.

Quando ele saiu com Cecília, eu fiquei na porta observando o carro desaparecer na esquina.

Levei a mão à barriga.

— Parece que o seu pai é muito ciumento, Alex — murmurei.

E, apesar da tensão, um sorriso escapou. Porque por trás do ciúme havia sempre… amor.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO