Acordei com o cheiro de café fresco.
Por um segundo, ainda meio perdida entre o sono e a realidade, pensei que estivesse sonhando. Minha casa nunca cheirava assim tão cedo. Normalmente sou eu quem arrasta os pés até a cozinha, descabelada, tentando acordar o corpo antes da mente.
Mas naquela manhã havia o som baixo de louça sendo organizada.
Abri os olhos devagar.
A lembrança da noite anterior voltou como uma onda suave: Adriano no sofá, me protegendo, me guardando.
Levei a mão até a barriga instintivamente.
— Bom dia, pequeno — sussurrei.
Levantei com cuidado e caminhei até a sala. Adriano já estava de pé, vestido, cabelo ainda úmido do banho. A mesa estava posta. Café, pão quente, frutas cortadas, até um suco natural.
Eu encostei na parede da cozinha e fiquei observando.
— Você invadiu minha cozinha oficialmente — falei.
Ele virou-se, surpreso, e abriu um sorriso que eu não via há muito tempo.
— Bom dia.
— Bom dia… isso tudo é para mim?
— Para nós dois também — Ele apontou para minha barriga.
Meu coração fez aquele movimento estranho de sempre quando ele incluía o bebê nas frases.
— Você não precisava acordar tão cedo.
Ele deu de ombros.
— Eu quase não dormi.
— Por quê? O sofá é muito desconfortável?
Ele se aproximou com uma caneca na mão.
— Porque eu fiquei ouvindo seu sono agitado. Você não fechou a porta do quarto.
Sentei-me à mesa. Ele puxou a cadeira para mim antes que eu pedisse. Pequenos gestos. Grandes efeitos.
— Como você está? — perguntou, sentando à minha frente.
— Melhor. A dor não voltou.
Ele assentiu, aliviado.
Tomamos café em silêncio por alguns minutos. Era um silêncio… doméstico.
— Eu posso te levar para a escola — ele disse.
— Não precisa.
— Eu quero.
Eu hesitei, mas acabei concordando.
No caminho, ele dirigia com cuidado exagerado, desviando até dos menores buracos.
— Adriano, eu não sou feita de cristal.
Quando estacionou em frente à escola, ele desligou o carro e ficou me olhando por um segundo.
— Depois daqui eu vou para a clínica ver a Cecília — disse.
Meu peito apertou. Eu sorri triste.
Ele desceu e abriu a porta para mim outra vez. Antes que eu entrasse pelo portão, ele segurou minha mão.
— Se sentir qualquer coisa, me liga.
— Eu vou ficar bem.
— Eu espero que sim.
Entrei na escola com o coração leve e confuso ao mesmo tempo.
***
No intervalo do café dos professores, eu caminhei até a sala dos docentes com a cabeça cheia de planos de aula. Abri a porta distraída… e parei.
Lucas estava sentado sozinho à mesa. Ele levantou o olhar quando me viu.
— Marja!
— Oi, Lucas!
Ele se levantou.
— Como você está?
A pergunta era simples, mas o tom era sincero.
— Estou bem. — respondi.
Ele apontou para a cadeira à frente. Sentei-me. Ele me observou com aquele olhar atento que sempre teve.
— E o bebê? — perguntou. — Está tudo bem?
— Está.
Ele sorriu.
— Fico feliz. De verdade.
Começamos a falar sobre a escola. As turmas agitadas, as mudanças na coordenação, os projetos para o próximo semestre. Era estranho como a conversa fluía com naturalidade, como se nunca tivéssemos sido dois adolescentes cheios de orgulho e mágoas.
— Você lembra da feira cultural do terceiro ano, na nossa escola? — ele perguntou.
— Como esquecer? Você deixou “a esquisita” sozinha na apresentação.
Ele fez uma careta.
— Eu era um idiota. Mas a intenção não foi lembrar dessa parte. Foi lembrar que naquela feira a pesquisa que ganhou o prêmio foi a sua.
— Verdade.
Ele riu.
— Olha, o idiota aqui está tentando melhorar, viu?
A frase me fez lembrar de Adriano.
— Engraçado como os homens estão sempre tentando melhorar — murmurei.
O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo.
— Eu posso te dar uma carona hoje? — ele perguntou de repente
Hesitei. Mas não havia mal nenhum em uma carona.
— Está bem.
***
O dia passou rápido demais. Quando saí pelo portão, Lucas já me esperava encostado no carro.
— Pronta?
Fiz sinal afirmativo com a cabeça.
Entramos e o trajeto foi tranquilo. Conversamos sobre livros, sobre antigos professores, sobre como a cidade estava crescendo...
Quando ele parou em frente à minha casa, meu coração deu um salto, porque, no exato momento em que o carro dele estacionou, outro carro virou a esquina. Era Adriano.
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