Acordei com uma sensação estranha.
Antes mesmo de abrir os olhos, a angústia já estava ali. Pesada. Espessa. O coração estava acelerado.
Lentamente abri os olhos e o que vi me fez parar de respirar.
Gino estava sentado na poltrona de frente para a minha cama. Imóvel. Observando. Tinha um sorriso torto, cínico, desenhado no rosto.
O grito saiu rasgando minha garganta.
— NÃO!
Eu me sentei bruscamente na cama, puxando o lençol contra o corpo, como se assim eu pudesse me proteger.
Aquilo não era sonho. Era real.
Gino não se moveu. Só inclinou a cabeça levemente, como quem aprecia uma reação esperada.
— Bom dia, Marja.
Meu corpo inteiro ficou paralisado.
— O… o que você está fazendo aqui? — Minha voz saiu trêmula, quase irreconhecível.
Ele abriu mais o sorriso.
— Eu senti sua falta.
Meu coração batia tão forte que parecia ecoar no quarto.
— Como você entrou?
— Porta nunca foi empecilho para mim — suas palavras eram cínicas, aterrorizantes.
Eu engoli em seco.
— O que você quer?
Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Os olhos dele tinham um brilho estranho. Frio.
— Você sabe o que quero. Você sempre soube.
Houve um silêncio petrificado. Em seguida ele disse o que eu já sabia que iria ouvir:
— Eu quero você, Marja.
Meu estômago virou.
— Me deixa em paz, Gino!
Ele riu baixo.
— Quando você vai entender que não existe lugar para se esconder de mim? — A voz dele ficou mais grave. — Eu sempre vou te achar.
Um arrepio percorreu minha espinha.
— Eu não quero você aqui — eu disse, tentando manter algum controle. — Vai embora.
Ele levantou devagar. Cada passo parecia calculado.
— Estou com fome — disse, ignorando meu pedido. — Faz um café para mim.
Eu o encarei, incrédula.
— Você está louco?
Ele parou diante da cama e gritou:
— Café, Marja!
Eu me encolhi com medo.
Ele continuava me encarando, pronto para fazer algo se eu não reagisse.
Respirei profundamente, sentindo as pernas tremerem quando as coloquei para fora da cama.
Ele deixou o olhar deslizar pelo meu corpo e parar na minha barriga.
Um sorriso cruel surgiu.
— Então… — ele inclinou a cabeça — a garota certinha estava transando com o fazendeiro.
Senti o sangue sumir do rosto.
— Ah, claro. — Ele fingiu surpresa. — Isso é assunto delicado? Não finja constrangimento. Você é uma puta!
Minha mão foi instintivamente para a barriga. Ele percebeu. Os olhos dele brilharam ainda mais.
Peguei o robe ao lado da cama e vesti sobre a camisola. Em seguida caminhei até a cozinha tentando manter os movimentos firmes. Cada passo parecia feito sobre vidro.
— Não tenta nada — ele alertou atrás de mim.
— Eu não vou tentar nada — respondi, quase sem voz.
Minhas mãos tremiam enquanto eu pegava o pó de café. O barulho da água enchendo a cafeteira parecia alto demais. Eu podia sentir o olhar dele queimando minhas costas.
O silêncio que se seguiu era sufocante. O cheiro do café invadiu o ambiente.
— Coloca açúcar — ele disse. —Você sabe como eu gosto.
Ele riu. Terminei de preparar tudo e coloquei na mesa.
Ele se sentou como se estivesse em visita casual. Em seguida gritou:
— Senta aí!
Eu me sentei, mantendo distância.
Ele começou a comer como se aquilo fosse uma manhã comum. Como se não tivesse invadido minha casa.
Em seguida parou. Empurrou a xicara de café e o pão para o lado e me encarou.
— Você está mais bonita — ele disse. — A gravidez te deixou… interessante.
Senti vontade de gritar para ele calar a boca. Mas não queria irritá-lo mais.
— Você me surpreendeu. Esperou até conseguir dar o golpe do baú.
Meu coração disparou.
— Você é louco. Só fala besteira.


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