Catarina e Leon- 01
— Enfim, indo para casa! — Falei alto dentro do carro.
O pôr do sol derramava uma luz dourada pela estrada de terra enquanto eu observava as árvores passando pela janela do automóvel. Leon dirigia com uma das mãos no volante e a outra repousava relaxada perto da marcha. Os cabelos castanhos com alguns fios grisalhos estavam bagunçados pelo vento, a barba por fazer, os olhos atentos na estrada.
E no meu colo, Olivia estava quase dormindo, agarrada no meu pescoço, os cachinhos claros espalhados pelos meus braços. Os cabelos dela eram exatamente da cor dos de Leon. Já os olhos castanhos eram meus. E toda vez que eu olhava para ela sentia uma emoção absurda, quase dolorida.
— Está cansada, meu amor? — perguntei baixinho, alisando suas costas.
— Quero chegar logo na casa grande. Quero ver os meus bichinhos.
Leon sorriu sem tirar os olhos da estrada.
— Escutou isso? Nem entrou na fazenda e já virou dona de tudo.
Durante três anos, desde que Olivia nasceu, moramos na capital. Um apartamento grande, uma vida confortável, festas, restaurantes caros. Leon vinha à fazenda apenas quando precisava resolver algum problema. Ficava dois ou três dias e voltava. Mas agora era diferente. Agora estávamos voltando para morar ali de vez.
Naquele momento Leon diminuiu a velocidade. Olhei em volta e vi a velha porteira de madeira.
— Bem-vinda ao seu novo lar, Cata — Leon falou.
A fazenda surgiu diante de nós e sob a luz dourada do entardecer o casarão parecia ainda mais bonito. Eu não me lembrava muito dos detalhes porque era a primeira vez que eu adentrava aquelas terras para morar. No passado aquela casa foi a moradia de Leon com a ex-esposa.
Assim que o carro parou na frente da casa, a porta da frente se abriu e os empregados mais íntimos vieram nos receber. Nani, uma mulata alta e forte de cinquenta e poucos anos, usava um vestido estampado e um pano amarrado na cabeça. Ela sempre foi uma espécie de governanta daquela casa.
Ao lado dela estavam: Janjão, empregado de confiança, na faixa dos quarenta anos, enorme como um touro, braços grossos e peito estufado. E Zezé, sobrinha de Nani, uma mulatinha magra, talvez um pouco mais velha do que eu, sorridente e agitada.
Assim que saltei do carro, a emoção me atropelou. Abri os braços.
— Oi, pessoas! Cheguei!
Zezé deu um gritinho e veio correndo me abraçar. Nani caminhou mais devagar, fingindo compostura. E então disse:
— Olha pra você, Catarina: outro dia era criança, agora é a senhora da casa.
— Eu estava morrendo de saudade. Saudade de vocês, desse verde... de tudo.
Nani segurou meu rosto entre as mãos.
— Você continua a mesma menina danada.
Leon desceu do carro rindo. E logo Janjão veio apertar a mão dele.
— Seja bem-vindo de volta, patrão.
Enquanto isso Zezé já estava pegando Olivia no colo. Minha menina ficou tímida por alguns segundos, antes de perguntar:
— Você é princesa também?
Todo mundo caiu na risada e Nani logo perguntou:
— A quem essa menina saiu?
E cada um dava um palpite diferente. Todos falando ao mesmo tempo. Eram perguntas, risadas, malas sendo carregadas. E eu parada no meio de tudo aquilo sentindo uma felicidade tão grande que chegava a doer.
Mais tarde, depois do jantar, depois das conversas na varanda, com Olivia já vencida pelo sono, resolvemos entrar. Coloquei minha filha na cama e em poucos minutos Olivia dormiu agarrada na minha mão. Depois saí devagar e fui para o meu quarto.
Era um quarto grande, aconchegante, com as janelas enormes voltadas para os campos. Fiz questão de dizer a Leon que não queria o quarto que ele dormia com a ex-mulher. Por isso escolhi o nosso quarto.
Assim que entrei no quarto, segui direto para o banheiro e procurei relaxar da viagem debaixo da água bem quentinha. E quando saí enrolada apenas na toalha, encontrei Leon encostado na cabeceira da cama usando apenas uma bermuda de moletom. Os braços estavam cruzados atrás da cabeça e ele me olhava, com aquele olhar lento, percorrendo meu corpo inteiro.
— Que foi? — perguntei.
— Só estou admirando minha esposa.
— Depois de três anos você ainda fala assim?
— Depois de cinquenta eu ainda vou falar.


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