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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 12

ADRIANO

Eu estava há horas no sofá da sala bebendo. Quando dei por mim as duas garrafas de uísque estavam vazias. Continuei sentado no escuro. A casa pareceu crescer ao meu redor. Não em tamanho, mas em vazio.

Levantei-me sem pressa, como quem carrega um peso antigo nos ossos, e fui até o armário da sala de jantar. Abri a porta de madeira escura e alcancei outra garrafa de uísque. O vidro estava frio na mão. Fechei o armário e caminhei até a varanda.

A noite me recebeu com um sopro de ar fresco. Sentei-me na cadeira de balanço, aquela mesma que Antonella gostava de ocupar quando o dia terminava, e deixei a garrafa aos meus pés por um instante.

Antes de beber, ergui o olhar para o céu. As estrelas estavam lá, espalhadas, sem ordem aparente, como sempre estiveram. Como se nada tivesse mudado. Antonella adorava noites assim. Dizia que o céu do interior tinha mais coragem de se mostrar. Na cidade, segundo ela, as estrelas tinham vergonha. Sorri com amargura ao lembrar disso. Ela sempre encontrava poesia onde eu via apenas rotina.

Levei a garrafa à boca e dei um gole longo. O líquido trouxe um alívio imediato, ainda que falso. Continuei olhando para cima, tentando encontrar alguma constelação que ela tivesse me ensinado a reconhecer, mas as estrelas pareciam todas iguais naquela noite.

A dor e a saudade de Antonella estavam me matando.

Levei à boca outro gole de uísque. Depois outro. E mais um. O presente voltou pesado, esmagador. A cadeira rangeu levemente quando me inclinei para frente, cotovelos nos joelhos, a cabeça baixa.

— Por que você me deixou? — murmurei, para ninguém.

O céu não respondeu. As estrelas também não. Quando percebi, a garrafa já estava vazia.

Levantei-me com dificuldade e o mundo girou de leve, como se estivesse testando meus limites.

Subi as escadas devagar, sentindo o coração bater pesado no peito, a cabeça latejar.

.

Endireitei o corpo como pude e segui pelo corredor, tropeçando no tapete, chamando por Antonella, até chegar ao meu quarto. Abri a porta e entrei. O cheiro era o mesmo de sempre. O mesmo que nunca mudou.

Sentei-me na beira da cama e arranquei a camisa jogando-a no chão. Tudo girava agora, lento e insistente. Olhei para o espaço vazio ao meu lado, o lugar na cama onde ela dormia.

— Eu não sei continuar sem você — confessei em voz alta.

Aproximei-me da cama, mas não o suficiente. Fiquei a uma distância segura, como se houvesse uma linha no chão que eu não pudesse cruzar.

Desde o acidente, algo se quebrara entre nós. Não nela. Em mim. Cada vez que eu tentava me aproximar, uma parede invisível se erguia. Não era rejeição. Era incapacidade.

Dei mais um passo. A cama agora estava ao alcance da minha mão. Bastava estender os dedos, tocar o cabelo dela, ajeitar o lençol. Gestos simples; gestos de pai. Mas o corpo não obedecia.

Aproximei-me mais um pouco.

Estendi a mão, finalmente. Encostei de leve no lençol, perto do braço dela. Não toquei a pele. Ainda não. Era o máximo que eu conseguia naquele momento.

Dei um passo para trás. Antes de sair, olhei mais uma vez para minha filha.

Fechei a porta com cuidado e fiquei ali no corredor, o coração pesado. Depois desci as escadas, caminhei até a varanda e me sentei, esperando o sol nascer com a imagem de Cecilia dormindo como um anjo.

Não tinha certeza se algum dia eu voltaria a ser um pai de verdade para ela.

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