Catarina e Leon-11
LEON
Apoiei os antebraços sobre a mesa de madeira e observei o movimento dentro da associação dos fazendeiros. As reuniões daquele tipo raramente eram emocionantes. Discutiam estradas, custos, transporte, irrigação. Enfim, falava-se de todos os tipos de questões burocráticas e problemas que precisavam ser resolvidos para que tudo continuasse funcionando. Ainda assim, eu gostava de participar.
Gostava porque aquelas pessoas eram parte da minha vida há décadas. Homens e mulheres que eu conhecia desde a juventude. Alguns tinham envelhecido ao meu lado. Outros haviam sido apenas garotos quando eu já administrava minhas terras.
O ventilador girava lentamente no teto e algumas janelas estavam abertas, permitindo a entrada da brisa quente daquela manhã. Olhei para o meu lado direito e senti falta do Adriano. Naquele dia ele não viria pois estava na capital acompanhando Marja nas consultas do pré-natal.
Carlão, sentado ao meu lado esquerdo, discutia alguma coisa relacionada ao preço dos fertilizantes com outro produtor da região. Eu ouvia apenas pela metade, porque minha mente estava em Catarina e na mensagem que eu havia deixado no celular. Sim, Catarina era a mulher da minha vida. Ela tinha temperamento difícil, era ciumenta e intolerante, mesmo assim, ela era tudo para mim.
— O que foi? — perguntou Carlão.
— Nada — respondi.
— Está sorrindo sozinho.
— Isso é crime agora? Por que não cuida da sua vida? — perguntei zoando ele.
Algumas pessoas próximas riram. A reunião prosseguiu. Alguém falava sobre uma ponte que precisava de reparos, outro reclamava dos atrasos da prefeitura. Eu fazia anotações ocasionais. Mas minha atenção continuava dispersa. Nos últimos dias, Catarina estava mais sensível e irritada e o motivo eram as ligações de Carmen.
Minha ex-esposa nunca foi uma mãe de pulso firme e nem agora estava sabendo lidar sozinha com os problemas dos filhos. E de qualquer forma Matteo e Maia eram meus filhos também. E eu jamais abandonaria essa responsabilidade.
Era justamente por isso que continuava atendendo as ligações dela. Principalmente depois da confusão em que Matteo havia se envolvido gerando todo aquele desconforto: processos, advogados e despesas.
E foi naquele exato momento que meu celular vibrou. Peguei o aparelho e vi que havia uma mensagem de Carmen. Abri a mensagem. "Estou voltando para a capital, mas preciso lhe falar com urgência. É muito sério o que tenho a dizer”. Assunto relacionado aos nossos filhos." Logo abaixo havia um endereço.
Meu primeiro impulso foi ignorar e continuar na reunião. Mas precisava ir, não apenas por causa dos meus filhos, mas porque dessa vez eu iria estabelecer limites mais rígidos com Carmen. Limites definitivos e necessários. Porque estava cansado das ligações inesperadas, que sempre causavam brigas entre Catarina e eu.
Tentei voltar a prestar atenção na reunião, sem consegui. Os minutos passaram. Mais discussões. Mais relatórios. Mais reclamações. Olhei para o lado. Carlão rabiscava alguma coisa num bloco de anotações, enquanto o presidente da associação falava sobre novos projetos para a região. Consultei o relógio. Ainda havia tempo. Se saísse agora, conseguiria chegar ao endereço indicado antes do almoço. Depois voltaria para casa. Para Catarina. Me levantei arrastando a cadeira levemente pelo piso. Carlão ergueu a cabeça.
— Já vai?— ele perguntou com a curiosidade de sempre.
— Preciso resolver uma coisa.
— Algum problema?
Peguei as chaves do carro e guardei o celular no bolso.
— Não é nada. Só preciso ir ao povoado.
[...]
Estacionei diante do pequeno hotel do povoado, desliguei o carro e permaneci imóvel por alguns segundos observando a fachada, irritado por ter saído da reunião. Irritado por Carmen continuar surgindo na minha vida.
Saí do carro e entrei no hotel. O saguão era pequeno e simples, mas era limpo e organizado. Havia algumas poltronas, vasos com plantas e um balcão de recepção. Estava prestes a perguntar por Carmen quando a avistei. Ela estava sentada na varanda lateral, diante de uma mesa pequena com uma xícara de café entre as mãos.
Por um instante fiquei parado, apenas observando. E imediatamente percebi algo errado. Carmen sempre foi uma mulher vaidosa, mesmo nos piores momentos do nosso casamento. Mesmo quando tudo estava desmoronando ela jamais deixou de cuidar da aparência. Mas agora se mostrava tão frágil, tão magra. Os ombros pareciam afundados e o rosto estava pálido e cansado. Parecia ter envelhecido vários anos desde a última vez que a vi.
Caminhei devagar até a mesa onde ela estava sentada.
— Bom dia, Carmen.
Ela levantou os olhos e sorriu. De perto Carmen parecia ainda pior: seus olhos estavam fundos e roxos.
— Bom dia, Leon. Sente-se.
Puxei a cadeira, me sentei e fui direto ao assunto.
— Espero que o que tenha para me falar seja rápido.
Ela permaneceu em silêncio. Eu continuei:
— Saí no meio de uma reunião e não posso demorar.
Por alguns segundos Carmen apenas me observou. Como se estivesse procurando as palavras certas. Depois pousou a xícara sobre a mesa e disse:
— Leon, vou ser bem franca com você. Estou muito doente.
Franzi a testa.
— Doente?
Os olhos permaneceram fixos nos meus.
— Câncer de mama.
Eu simplesmente fiquei olhando para ela sem reação, sem palavras, porque aquilo... Aquilo eu não esperava. De todas as possibilidades que imaginei enquanto dirigia até ali nenhuma delas incluía doença.

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