Catarina e Leon-14
A porta se fechou atrás de Leon e tudo imediatamente mudou para mim. Fiquei parada no mesmo lugar, sentada na cama, olhando para a porta fechada enquanto o silêncio se espalhava pelo ambiente. Era estranho me senti assim porque tinha sido eu quem pediu distância. Estranho porque tinha sido eu quem dissera que precisava de um tempo.
Ainda assim, quando Leon saiu carregando um travesseiro e algumas roupas, algo dentro de mim se encolheu. Eu não o impedi. Mas vê-lo sair daquele quarto fez tudo parecer mais definitivo, mais doloroso. E quando olhei ao redor o quarto parecia tão silencioso. Eu estava magoada e tinha motivos para estar. E ainda sentia aquela sensação desagradável no peito quando lembrava de tudo. Mas mesmo não querendo, eu sentia falta dele.
Em qualquer outra noite eu ouviria Leon tomando banho, mexendo nas gavetas ou reclamando porque havia se deitado em cima dos livros que eu colocava sobre a cama. Mas naquela noite havia apenas silêncio e um vazio enorme.
Me levantei da cama e fui até a varanda. A noite estava fresca, porém quieta e escura. Voltei para dentro e fechei a porta da varanda. Olhei para a cama enorme e resolvi pegar um livro sobre o criado-mudo. Era um romance qualquer. Abri em uma página aleatória, comecei a ler, voltei para a primeira, li novamente. Cheguei ao fim do parágrafo sem entender uma única palavra. Então joguei o livro sobre o criado-mudo. Quando olhei para o relógio vi que não era tão tarde.
Me levantei novamente, fui até o banheiro, lavei o rosto e voltei para a cama. Por fim apaguei a luz principal. Apenas o abajur permaneceu aceso. Aos poucos o cansaço começou a me vencer e meu corpo foi ficando pesado.
Em algum lugar um grilo cantava. Virei de lado, aconcheguei o rosto no travesseiro e finalmente adormeci. Não sei quanto tempo se passou. Mas então ouvi um grito agudo e desesperado:
— MAMÃE!
Meus olhos se abriram no mesmo instante e o coração disparou. Me sentei na cama tão rápido que o lençol escorregou para o chão. Outro grito ecoou pelo corredor. Mais alto. Mais desesperado.
— MAMÃE!
E então eu saltei da cama e saí correndo em direção à porta. Porque alguma coisa estava errada. E minha filha estava chorando.
Empurrei a porta do quarto dela e tropecei no tapete.
— Olivia! — Chamei alto.
A luz do abajur em formato de lua estava acesa, espalhando uma iluminação suave pelo quarto. Vi Olivia sentada na cama. Os cabelos grudados na testa suada, o pijama molhado de suor e os olhos arregalados, assustados.
— Meu amor!
Sentei na cama e a puxei imediatamente para os meus braços. Olivia se agarrou a mim como se tivesse medo de que eu desaparecesse.
— Mamãe...
— Está tudo bem. Está tudo bem. Eu estou aqui.
Passei a mão pelos cabelos dela. Beijei sua testa, fiz carinho no seu rosto. Ela tremia levemente. Não de febre. Era de medo. Foi então que ouvi passos correndo pelo corredor e segundos depois Leon apareceu na porta. O cabelo desalinhado, a expressão de puro pânico.
— O que aconteceu? — perguntou.— O braço está doendo?
Olivia imediatamente estendeu o braço sem o gesso na direção dele.
— Não é o braço, papai...
Leon atravessou o quarto em dois passos. Sentou-se do outro lado da cama. E passou a mão nas costas dela.
— Ei, princesa...
— Eu fiquei com medo, papai.
A voz dela saiu pequena e tão fragilizada que meu coração apertou.
— Foi um pesadelo? — perguntei.
Ela fez que sim. Os olhos se enchendo de lágrimas novamente.
— Muito feio.
— Quer contar para a mamãe?
Olivia balançou a cabeça negativamente.
Eu conhecia aquela sensação. Quando era criança também tive pesadelos assim, que pareciam reais demais e continuavam assustando mesmo depois de acordar. Fiquei com tanta pena que a abracei mais forte.

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