Depois que Adriano e Leon saíram, ainda permaneci na cozinha silenciosa por algum tempo. Lavei a xícara e coloquei no escorredor. E estava justamente pensando em subir para ver Cecilia quando ouvi vozes vindo da varanda lateral que dá acesso à cozinha — vozes femininas, animadas, rápidas demais para aquele horário da manhã.
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, Quitéria entrou na cozinha como um furacão, acompanhada de três moças que eu nunca tinha visto. Todas falavam ao mesmo tempo, riam, carregavam panos, baldes, sacolas e tinham uma energia que contrastava completamente com o clima normalmente contido daquela casa.
— Ô, minha Nossa Senhora… — Quitéria exclamou, batendo palmas uma vez só. — Vamos, meninas, vamos começar logo que hoje o dia vai ser comprido!
As três se espalharam pela cozinha sem cerimônia, abrindo janelas, empurrando cadeiras, tirando tapetes do lugar. Uma delas começou a recolher as cortinas, a outra já estava com um pano úmido limpando o balcão e a terceira abriu a porta dos fundos para deixar o ar circular.
Eu fiquei parada, observando aquela movimentação toda como quem assiste a uma invasão organizada.
— Quitéria… — chamei, tentando ser ouvida no meio do burburinho.
Ela virou o rosto para mim, o lenço amarrado na cabeça já meio torto.
— Bom dia, menina. Já tomou café?
— Já… — respondi, confusa. — O que está acontecendo?
Ela sorriu de um jeito misterioso, daqueles que anunciam novidade antes mesmo da boca abrir.
— A casa vai receber gente importante.
— Quem? — perguntei curiosa.
Quitéria se aproximou, abaixando um pouco a voz, embora ninguém ali parecesse interessado em ouvir nossa conversa.
— A irmã mais nova do patrão está chegando da capital.
Meu coração deu um pulinho involuntário. Irmã. Adriano tinha uma irmã.
— Ela foi estudar fora — Quitéria continuou, animada. — Veterinária. Quase dois anos longe. Agora vem passar as férias em casa.
— Dois anos? — repeti. — E é a primeira vez que volta?
— A primeira. — Quitéria fez o sinal da cruz. — Deus seja louvado, imagina a saudade.
Olhei em volta. A cozinha já não parecia a mesma. As moças tiravam objetos das prateleiras, limpavam por baixo, por cima, reorganizavam tudo. Uma delas cantarolava baixinho, outra conversava sobre o calor da semana, e a terceira reclamava que o pano não estava bom o suficiente.
— E o nome dela? — perguntei.
— Catarina. — Quitéria sorriu de novo. — Catarina é um furacão, viu? Diferente do irmão. Graças a Deus.
Aquilo me arrancou um sorriso. Era difícil imaginar alguém diferente de Adriano sendo da mesma família.
— Como ela é? — perguntei com muita curiosidade.
— Marja — Quitéria chamou, interrompendo meus pensamentos. — Se puder, leva a pequena para um passeio hoje. A casa vai ficar cheia demais pra ela.
— Claro — respondi prontamente.
Subi as escadas devagar, enquanto o barulho da limpeza ecoava pela casa. O som dos passos, das vozes, do arrastar de móveis parecia estranho naquele lugar acostumado ao silêncio quase solene.
Quando cheguei ao quarto de Cecilia, ela já estava acordada. Sentada na cama, abraçando o travesseiro, observava o movimento pela janela com curiosidade.
— Bom dia — falei baixinho.
— Sua tia Catarina está chegando — expliquei. — A casa está se preparando para ela.
Os olhos de Cecilia se iluminaram de um jeito diferente. Havia curiosidade ali. E talvez algo mais — expectativa? Saudade?
Peguei a mão dela.
— Vamos sair um pouco. Aqui vai ficar cheio.
Ela desceu da cama sem resistência, calçando as sandálias sozinha. Fomos para o banheiro. Cecilia escovou os dentes. Tirei o pijama dela e coloquei um vestido clarinho depois prendi o cabelo dela em um rabo de cavalo.
Passamos pela cozinha, eu preparei o café e segui com a bandeja. Ela comeu na mesa da varanda lateral do lado oposto à cozinha. Em seguida fomos para o pomar, onde o barulho da casa não chegava com tanta força. Passamos boa parte do dia ali sentadas.

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