A casa ainda estava em ritmo de arrumação quando acordei naquela manhã. Não era mais o caos do dia anterior, mas também não era silêncio. Havia um meio-termo incômodo: portas sendo abertas e fechadas, passos apressados no corredor, o som distante de móveis sendo arrastados e o cheiro constante de produto de limpeza misturado ao café fresco.
Cecília estava sentada na cama e sempre observava o movimento do lado de fora através da janela aberta
— Vamos sair um pouco — falei baixo, ajoelhando à frente dela. — Só nós duas.
Arrumei uma bolsa pequena com água e biscoito. O plano era simples: ir até um local mais afastado, longe do casarão e do entra e sai de gente. Nada diferente do que já tínhamos feito.
Peguei a chave da picape velha, a mesma que Mundico havia me autorizado a usar desde o primeiro dia. Ela sempre ficava estacionada atrás do celeiro.
Coloquei Cecilia no banco do passageiro, ajeitei o cinto com cuidado e fechei a porta.
Eu já estava dando a volta para entrar no lado do motorista quando ouvi a voz de Adriano:
— O que você pensa que está fazendo?
Congelei. Me lembrei do dia da febre de Cecília após o banho de rio.
Adriano estava parado a poucos metros da picape, os braços cruzados, o corpo rígido, o rosto fechado como uma muralha
— Eu… — comecei, confusa. — Vou tirar a Cecilia um pouco de casa. A arrumação ainda está acontecendo, achei melhor...
— Você achou — Ele me interrompeu.
O tom era cortante. E irritante.
— Senhor, eu só estou tentando...
— Tentando o quê? — Ele deu dois passos à frente. — Ser heroína? Aventureira?
Senti o sangue subir ao rosto. Por que ele agia assim comigo? E por que eu deixava que ele agisse assim?
— Não. Tentando cuidar da sua filha.
Ele lançou um olhar rápido para Cecilia dentro da picape e depois voltou para mim, ainda mais irritado.
— Colocando ela dentro dessa lata velha? — cuspiu as palavras. — Você tem ideia do risco?
Olhei para o carro, depois para ele.
— Mundico autorizou e eu...
— Não interessa quem autorizou! — Ele elevou a voz. — Essa picape velha pode quebrar a qualquer momento, no meio do mato, com a minha filha dentro.
Cecilia se mexeu no banco. Vi os ombros dela se encolherem levemente e dei graças a Deus pelas portas do veículo estarem fechadas abafando o som, assim ela não ouviria as cavalices do pai.
— Eu jamais colocaria a Cecilia em perigo. Jamais — falei mais baixo, tentando controlar o tom.
Ele riu sem humor.
— Você mal chegou aqui. Não sabe onde está pisando. Não sabe o que pode acontecer nessa estrada.
Aproximou-se mais e disse de forma grosseira:


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