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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 15

A casa ainda estava em ritmo de arrumação quando acordei naquela manhã. Não era mais o caos do dia anterior, mas também não era silêncio. Havia um meio-termo incômodo: portas sendo abertas e fechadas, passos apressados no corredor, o som distante de móveis sendo arrastados e o cheiro constante de produto de limpeza misturado ao café fresco.

Cecília estava sentada na cama e sempre observava o movimento do lado de fora através da janela aberta

— Vamos sair um pouco — falei baixo, ajoelhando à frente dela. — Só nós duas.

Arrumei uma bolsa pequena com água e biscoito. O plano era simples: ir até um local mais afastado, longe do casarão e do entra e sai de gente. Nada diferente do que já tínhamos feito.

Peguei a chave da picape velha, a mesma que Mundico havia me autorizado a usar desde o primeiro dia. Ela sempre ficava estacionada atrás do celeiro.

Coloquei Cecilia no banco do passageiro, ajeitei o cinto com cuidado e fechei a porta.

Eu já estava dando a volta para entrar no lado do motorista quando ouvi a voz de Adriano:

— O que você pensa que está fazendo?

Congelei. Me lembrei do dia da febre de Cecília após o banho de rio.

Adriano estava parado a poucos metros da picape, os braços cruzados, o corpo rígido, o rosto fechado como uma muralha

— Eu… — comecei, confusa. — Vou tirar a Cecilia um pouco de casa. A arrumação ainda está acontecendo, achei melhor...

— Você achou — Ele me interrompeu.

O tom era cortante. E irritante.

— Senhor, eu só estou tentando...

— Tentando o quê? — Ele deu dois passos à frente. — Ser heroína? Aventureira?

Senti o sangue subir ao rosto. Por que ele agia assim comigo? E por que eu deixava que ele agisse assim?

— Não. Tentando cuidar da sua filha.

Ele lançou um olhar rápido para Cecilia dentro da picape e depois voltou para mim, ainda mais irritado.

— Colocando ela dentro dessa lata velha? — cuspiu as palavras. — Você tem ideia do risco?

Olhei para o carro, depois para ele.

— Mundico autorizou e eu...

— Não interessa quem autorizou! — Ele elevou a voz. — Essa picape velha pode quebrar a qualquer momento, no meio do mato, com a minha filha dentro.

Cecilia se mexeu no banco. Vi os ombros dela se encolherem levemente e dei graças a Deus pelas portas do veículo estarem fechadas abafando o som, assim ela não ouviria as cavalices do pai.

— Eu jamais colocaria a Cecilia em perigo. Jamais — falei mais baixo, tentando controlar o tom.

Ele riu sem humor.

— Você mal chegou aqui. Não sabe onde está pisando. Não sabe o que pode acontecer nessa estrada.

Aproximou-se mais e disse de forma grosseira:

Fiquei olhando para ele, sem entender.

— Eu não quero que minha filha ande num carro que pode trancar o motor e deixá-la no meio do nada — continuou, seco e empurrou a chave na minha direção.

Peguei a chave devagar, ainda atônita.

O SUV estava um pouco mais à frente. Ajudei Cecilia a descer da picape e a coloquei no banco confortável do carro preto. Depois dei a volta e me sentei no banco do motorista.

Antes de fechar a porta, Adriano falou:

— Se acontecer qualquer coisa com ela… qualquer coisa…

— Não vai acontecer — respondi, firme. — Eu prometo.

Fechei a porta.

Quando liguei o carro, senti o peso da situação cair sobre mim. Não era apenas um carro melhor. Era um gesto de controle.

Ao sair com o SUV pela estrada de terra, vi Adriano pelo retrovisor, parado no mesmo lugar, observando até que eu desaparecesse na curva.

Meu coração estava acelerado. Não sabia se aquilo era um avanço…

ou o início de algo ainda mais complicado.

Só sabia que, mais uma vez, Adriano tinha conseguido me tirar do eixo — e eu não tinha certeza se estava preparada para tudo o que aquilo significava.

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