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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 16

O SUV deslizou pela estrada de terra com uma facilidade que eu não estava acostumada.

— Vamos mudar um pouco os planos — falei para Cecília.

Girei o volante num movimento suave, fazendo a volta no trecho mais largo da estrada.

— Vamos conhecer a feira — eu disse.

A vila estava viva quando chegamos. Barracas coloridas ocupavam a praça principal, tecidos pendurados balançavam ao vento, frutas brilhavam sob o sol forte da manhã. O ar cheirava a pão quente, queijo fresco, doce de leite, fritura. Gente ria, conversava alto, se esbarrava. Era o oposto do silêncio da fazenda.

Estacionei o SUV perto da igreja e desci, ajudando Cecilia. Ela segurou minha mão com força assim que pisamos na rua movimentada. Caminhamos devagar, entre os feirantes. Cecilia olhava tudo com atenção quase reverente, como se cada detalhe merecesse ser guardado.

Uma mulher vendia bonecas de pano; parei diante da barraca, e Cecilia se aproximou, tocando uma das bonecas com cuidado.

— Você quer uma? — perguntei.

Peguei o cartão que Adriano havia me dado na noite anterior — “use para o que precisar”, ele dissera, seco — e paguei sem pensar muito. A boneca foi parar nos braços de Cecilia como um tesouro.

Depois de um tempo, o sol começou a pesar. Sugeri um lanche, e seguimos para uma lanchonete na esquina da praça. Escolhemos uma mesa perto da janela.

— Suco ou chocolate? — perguntei.

Cecilia pensou um pouco e apontou para a foto do chocolate no cardápio.

Sorri.

Foi quando ouvi uma voz atrás de mim.

— Olá, Marja!

Virei o rosto.

Leon estava ali, apoiado no balcão, camisa clara, mangas dobradas, o mesmo sorriso tranquilo de antes. Parecia bem à vontade naquele ambiente simples.

— Leon — cumprimentei, surpresa. — Oi.

— Não esperava te ver por aqui — disse ele, puxando uma cadeira e sentando-se sem pedir permissão. — Muito menos com companhia.

Olhou para Cecilia e disse:

— Oi, pequena.

Cecilia deu um meio sorriso e continuou bebendo o chocolate.

No caminho de volta, Cecilia dormiu no banco, abraçada à boneca de pano. A fazenda já estava mais tranquila quando chegamos. A arrumação tinha terminado e a casa parecia respirar melhor.

Depois do jantar, levei Cecilia para o quarto e enquanto a ajeitava para dormir, me sentei na beirada da cama. Quando fiz menção de me levantar Cecília fez algo inesperado: me deu um beijo no rosto. Eu fiquei emocionada.

— Você é um amor, sabia? Você é meu amor — falei beijando-a também.

Então saí do quarto e desci as escadas caminhando em direção à sala. Estava eufórica, sem sono, inquieta. A demonstração de carinho de Cecilia me deixou emotiva. Eu a entendia. Entendia as suas carências, o seu desejo por atenção. Também fui assim um dia e tive minha mãe por perto, mas Cecilia não. Ela não tinha mais a mãe e o pai dela tinha um bloqueio que não o deixava se aproximar da filha.

Naquele momento, enquanto passava pela sala, vi a porta da frente aberta e caminhei em direção à varanda. A princípio, me assustei com a cena, em seguida entendi o que estava acontecendo.

Adriano estava deitado no chão, braços e pernas abertos; ele não se mexia. Abaixei para ver melhor; estava desacordado, mas respirando. Ao lado havia um copo e duas garrafas de uísque vazias.

Pensei em fazer alguma coisa para ajudá-lo, mas não queria repetir a cena da outra noite no quarto dele, quando Adriano me puxou pela cintura achando que eu fosse Antonella. E agora estava ali jogado no chão, bêbado, por amá-la demais, sofrendo por uma mulher que não podia mais ter.

Pensei em pedir ajuda, chamar Mundico, mas lembrei que à noite os empregados dormiam nas suas casas na vila.

Não sei por que a paixão de Adriano pela esposa me deixava melancólica. Como Antonella teria sido? Eu ainda não tinha visto nenhuma fotografia dela na casa. Devia ser uma mulher muito interessante para fazer um homem como Adriano ficar daquele jeito.

Naquele momento Adriano se mexeu, resmungou alguma coisa e calou-se novamente. Eu também me movi e me levantei. Em seguida me dirigi até o SUV que estava no terreiro na frente do casarão. Peguei uma manta e uma almofada no banco traseiro. Voltei, levantei a cabeça dele e ajeitei a almofada embaixo, depois o cobri com a manta.

Me dirigi para a porta de entrada, sentindo um frio repentino, dei uma última olhada para Adriano e entrei com um grande vazio ocupando o meu peito.

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