O domingo amanheceu diferente. Naquele momento, eu estava encostada numa das colunas de cimento da varanda, segurando uma caneca de café. Vi quando a Mercedes preta surgiu, coberta por uma leve camada de poeira vermelha, avançando com segurança pelo caminho até parar diante do casarão.
A porta se abriu antes mesmo que o carro desligasse completamente. Catarina saltou do banco do motorista com uma energia quase infantil, os braços abertos, o sorriso largo. Gritou o nome da pessoa que estava mais próxima:
— Quitéééria! — Catarina praticamente se jogou nos braços dela.
— Minha Nossa Senhora! — exclamou Quitéria. — Olha essa menina! Como tá bonita! Virou mulher.
As duas se abraçaram forte, riram alto, e Catarina ainda beijou o rosto de Quitéria com entusiasmo. Mundico apareceu logo atrás, limpando as mãos na calça, e recebeu o mesmo tratamento: abraço apertado, beijo no rosto, gargalhada. Benedita surgiu na porta lateral e Catarina correu até ela também, abraçando-a com força, perguntando de tudo, principalmente do quarto dela, se Benedita havia arrumado do jeito que ela gostava...
Eu observava tudo em silêncio, encostada na coluna. Tinha imaginado Catarina de um jeito completamente diferente. Mas ali estava ela: de calça jeans desbotada, tênis branco já marcado de poeira, camiseta simples, cabelo escuro longo e encaracolado preso de qualquer jeito num rabo de cavalo frouxo. Talvez fosse um ou dois anos mais velha do que eu, no máximo. Tinha algumas sardas espalhadas pelo nariz, discretas, mas encantadoras.
A porta atrás de mim se abriu e Adriano apareceu na varanda. A ressaca estava bem visível no seu rosto cansado e pálido.
— IRMÃÃÃO!
Catarina correu escada acima, pulando os degraus de dois em dois, e se jogou nos braços de Adriano. Ele a pegou no ar como se ela tivesse o peso de uma criança.
— Você demorou — disse, a voz rouca.
— Eu sei — Catarina respondeu, segurando o rosto dele com as duas mãos e beijando suas bochechas repetidas vezes. — Mas agora eu tô aqui, irmão. Senti tanta saudade! Você nem imagina. No começo, teve dias que eu até chorei.
Aquela cena me apertou o peito de um jeito inesperado. Havia algo de tão bonito, tão humano ali, que por um instante esqueci tudo o que sabia sobre Adriano — o homem duro, fechado, agressivo às vezes. Ali estava apenas um irmão. Um homem que sentia falta.
— Mas, me diga: onde está a Cecília? — ela perguntou, ainda com as mãos nos ombros de Adriano.
Catarina olhava ao redor como esperando que Cecília estivesse ali em algum canto da varanda.
— No quarto — Adriano respondeu devagar. — Ontem foi um dia cansativo pra ela, mas acho que ela está animada com a sua chegada.
— Será que ela ainda lembra de mim? — Catarina perguntou fazendo um biquinho.
— Impossível Cecilia te esquecer— Adriano respondeu com convicção.
— E como ela está?
— Na mesma — ele falou com um certo desânimo.
Catarina se afastou um pouco e então me viu.
— Oi! — disse imediatamente, se aproximando da coluna onde eu estava apoiada. Ela caminhava na minha direção com um sorriso fácil e encantador — Você deve ser a Marja; a babá.
Fiquei surpresa.
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