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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 18

Depois que Catarina subiu, a casa entrou num ritmo de exclusividade, como se tudo ali estivesse se reorganizando apenas para ela. Ouvi passos no assoalho do andar de cima, vozes cruzadas, o arrastar leve de móveis sendo ajustados. Ela havia ficado no quarto antigo, aquele que, segundo Quitéria, era o dela antes de ir para a capital.

Fiquei na cozinha com Quitéria e Mundico, ajudando a organizar o almoço. Mundico descascava batatas com a calma de quem já viu muitos domingos iguais a esse. Quitéria mexia uma panela grande, cantarolando baixinho.

— Ela foi lá em cima ver a menina — comentou Quitéria, sem me olhar, como quem fala de algo trivial.

— Isso é ótimo! — comentei.

— Uhum. Levou uns presentes. — Ela sorriu de lado. — Catarina sempre teve um jeito com criança.

Quitéria pigarreou, como se estivesse escolhendo as palavras.

— Tomara que agora… — começou, e parou.

— Que agora o quê? — incentivei, fingindo naturalidade enquanto lavava uma travessa.

Ela mexeu a panela com mais força do que o necessário.

— Nada, não. Tem coisas do destino que ninguém muda.

Mundico levantou o olhar rapidamente, lançou um aviso silencioso com as sobrancelhas, e voltou a descascar as batatas.

Fiquei ainda mais curiosa.

— Que coisas? — perguntei, tentando parecer desinteressada.

Quitéria suspirou, finalmente me encarando.

— Marja, menina… — começou, mas então uma sombra surgiu na entrada da cozinha e Adriano entrou.

O efeito foi imediato. Quitéria se endireitou, Mundico limpou as mãos no pano, e o ar ficou mais pesado. Adriano não disse nada a princípio. Depois pegou uma caneca, serviu café e apoiou-se no balcão.

— Cheiro bom — comentou, seco.

— Já tá quase pronto — respondeu Quitéria.

Adriano tomou um gole de café, lançou um olhar rápido para mim — neutro demais para eu entender — e saiu da cozinha do mesmo jeito que entrou.

Quando a porta se fechou, Quitéria soltou o ar dos pulmões.

— O que você ia dizer? — insisti, agora sem rodeios.

— Tem coisas que não são minhas pra contar — disse por fim. — E nem suas pra ouvir… ainda.

Aquilo só aumentou minha curiosidade.

Catarina desceu algum tempo depois. Comentou que Cecilia havia gostado dos presentes, que tinha um olhar atento, inteligente demais para a idade. Falou com carinho, com um entusiasmo contido, como se estivesse pisando em terreno delicado.

O resto do dia passou rápido. Depois do almoço fomos todos para a varanda. Catarina contou histórias da capital — do trânsito caótico, da faculdade, dos professores exigentes, das noites longas estudando para provas. Falava das amigas, dos plantões, da saudade da fazenda. Adriano ouvia, às vezes assentia, às vezes se afastava para resolver alguma coisa. Mas eu percebia: ele estava ali, atento de um jeito silencioso.

Capítulo- 18 1

Capítulo- 18 2

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